Edição 53

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Edgar Morin e o Pensamento Complexo

Gian Danton

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O pensamento de Edgar Morin sobre o conhecimento tem tido influência sobre os mais diversos campos do saber. A partir da crítica da ciência clássica, ele aponta um novo caminho para a Educação e a ciência.

Um dos pensadores mais importantes da atualidade é o francês Edgar Morin. Suas ideias, inicialmente criadas para discutir a questão do conhecimento, espalham-se por várias
áreas e tornam-se uma referência obrigatória na área de Educação a partir do livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, escrito a pedido da Unesco.

Essencialmente, a teoria de Morin baseia-se no que ele considera os três pilares da ciência moderna: a ordem, a separabilidade e as lógicas indutiva e dedutiva.

Ordem

A busca da ordem sempre foi o interesse principal da ciência. Quando desconhecemos como algo funciona, aquilo é caótico para nós. Quando aprendemos sobre aquilo, a ordem
se revela aos nossos olhos.

Há várias formas de definir ordem. A Teoria da Informação nos ensina que ordem é falta de variedade-informação. Já caos é variedade-informação em estado puro. Um relógio
é um exemplo perfeito de ordem. Ele sempre fará as mesmas coisas, sempre se movimentará de maneira uniforme e totalmente previsível. Já a bolsa de valores é um fenômeno caótico, pois é muito mais difícil prever seus movimentos.

Uma outra maneira de definir ordem, complementar à anterior, é por meio de determinação. Fenômenos ordenados são determinados. Determinação sugere uma relação causal. Se determinado fenômeno ocorre, ele terá obrigatoriamente
uma consequência.

Para Isaac Newton, Deus criou, no princípio, as partículas materiais, as forças entre elas e as leis fundamentais do movimento. Todo o Universo foi posto em movimento desse
modo e continuou funcionando, desde então, como uma máquina, governada por leis imutáveis.

A relação de causa-consequência é extremamente determinada na ciência clássica. Se solto uma pedra, esta obrigatoriamente irá cair, pois a lei da gravidade força-a a isso.

A crença na determinação fez com que os cientistas e filósofos sonhassem com a possibilidade de decifrar a verdade definitiva. Essa ambição encontrou uma metáfora no demônio de Laplace. Laplace imaginou que, se uma inteligência tivesse todas as informações sobre todos os átomos do Universo e fosse poderosa o bastante para calcular as relações de causa e consequência, o presente, o passado e o futuro
se descortinariam diante de seus olhos.

A ciência clássica ignora os fenômenos dinâmicos, que estão mais próximos do caos que da ordem. A bolsa de valores, o trânsito da cidade, as sociedades e até a vida humana são fenômenos que escapam ao determinismo.

Nas ciências humanas, até há pouco tempo, predominava um determinismo biológico ou social. Os adeptos do determinismo biológico chegaram aos seus extremos na eugenia.
Para essa corrente de pensamento, os comportamentos são governados por traços genéticos. Assim, o filho de um sábio será também um sábio, e o filho de um assassino será também um assassino. A eugenia defendia que apenas pessoas viáveis do ponto de vista social e biológico podiam procriar, e essa foi a base teórica para o nazismo.

Determinismo social

No outro extremo, havia aqueles que diziam que o homem é fruto do meio. Na ótica do determinismo social, uma pessoa criada em um meio intelectualizado se tornará um intelectual, independentemente de qualquer fator genético; já uma pessoa criada em um ambiente desfavorável intelectualmente não desenvolverá suas potencialidades.

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O determinismo, tanto genético quanto social, revelou-se falho. O atual presidente do Brasil é talvez o melhor exemplo de o quanto é falho o determinismo social. Quem poderia imaginar que um menino que saiu do Sertão nordestino, fugindo da seca, um dia iria se tornar presidente do maior país da América Latina?

Edgar Morin diz que a complexidade nos dá a liberdade, pois nos livra do determinismo. Somos nós que construímos nosso próprio destino a partir de nossas escolhas, sejam
elas conscientes ou não.

Como o Neo de Matrix, que deve decidir se toma ou não a pílula, constantemente nos vemos em encruzilhadas, em bifurcações. O nosso destino será resultado direto do caminho que tomarmos.

Morin, no livro Ciência com Consciência, traz sua própria vida como exemplo da indeterminação:
Quando penso na minha vida, vejo que sou fruto de um encontro muito improvável entre meus progenitores. Vejo que sou produto de um espermatozoide salvo entre 180 milhões, que, não sei se por sorte ou infortúnio, se introduziu no óvulo de minha mãe. Soube que fui vítima de manobras abortivas, que deram resultado com meu predecessor, mas ninguém saberá dizer por que escapei à arrastadeira. [...] E cada vida é tecida
dessa forma, sempre com um fio de acaso misturado com o fio da necessidade. Sendo assim, não são fórmulas matemáticas que vão nos dizer o que é uma vida humana, não são aspectos exteriores sociológicos que a vão encerrar no seu determinismo.

Separabilidade

A segunda parte da teoria de Edgar Morin refere-se à crítica à separabilidade. A ideia de que para resolver um problema é necessário separá-lo em pequenas partes e resolvê-las
uma a uma remonta ao filósofo francês René Descartes.

Em seu livro Discurso do Método, ele apresenta os quatro aspectos de sua forma de pensar, elaborada para substituir a lógica escolástica, característica da Idade Média. Esse novo método ficou conhecido como método cartesiano.

O segundo e o terceiro itens desse método vão estabelecer os alicerces da separabilidade: dividir cada uma das dificuldades que se deve examinar em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las; conduzir em ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos, supondo, também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros.

Esses dois tópicos vão inaugurar a divisão do saber. Para conhecer melhor o corpo humano, deve-se dividi-lo em partes: estuda-se primeiro o sistema respiratório, depois o sistema reprodutor, depois o sistema nervoso e assim por diante. A junção de todas essas pesquisas nos daria o conhecimento sobre o corpo humano.

Com o pensamento cartesiano, surge também a especialização. Esse foi um fator importante no desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade ocidental. Ao dividir o saber em pequenas partes e estudá-las aprofundadamente, foi possível um grande avanço no conhecimento científico.

Mas a especialização logo se revelou um beco sem saída. Os cientistas, ao mesmo tempo que se aprofundavam na sua área de saber, perdiam também o contato com o todo. Na
anedota de Bernard Shaw: “O especialista é o homem que sabe cada vez mais coisas num terreno cada vez menor, o que o fará saber tudo… sobre nada”.

Ou seja, o professor de História Medieval já não sabia nada de História Contemporânea, o pesquisador neurologista não entendia o funcionamento do sistema respiratório. As
chamadas “inteligências enciclopédicas”, pessoas que sabiam um pouco de tudo, como o escritor Monteiro Lobato, tornaram-se cada vez mais raras.

Uma resposta a isso foi o surgimento da Cibernética e da Teoria dos Sistemas, cuja posição pode ser definida na frase “O todo é maior do que a soma das partes”. O todo é maior, porque contém algo que não existe nas partes: as relações entre elas. Nenhum sistema é totalmente isolado, e fenômenos aparentemente díspares acabam influenciando um ao outro. Na frase de Blaise Pascal: “Sendo todas as coisas ajudadas e ajudantes, causadas e causadoras, estando tudo unido por uma ligação natural e insensível, acho impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, e impossível conhecer o todo sem conhecer cada uma das partes”.

A Teoria dos Sistemas demonstra que os fenômenos são processos de retroação contínua. É, portanto, impossível, em algumas situações, estabelecer a causa e a consequência de um fenômeno. O que é causa de uma situação pode ser
consequência em outro recorte, numa rede de interações infinitas.

Na escola, a lógica da separabilidade gerou a ideia de que as disciplinas são isoladas. Desde pequenos, somos condicionados a ver as matérias como compartimentos estanques. Geografia é Geografia, História é História. Uma aula sobre o Egito não pode misturar as duas áreas do conhecimento.

A escola, em vez de preparar seus alunos para a complexidade do mundo atual, em que tudo se relaciona (em que um conflito no Oriente Médio pode gerar um atentado em Nova York, que, por sua vez, provoca uma reestruturação geopolítica do mundo), condiciona-os a ver os assuntos de maneira isolada. Para Edgar Morin, o que temos vivido até agora é, no máximo, a interdisciplinaridade, em que as disciplinas estão
juntas, mas cada uma olha para o seu próprio umbigo.

Em seu lugar, ele propõe a polidisciplinaridade e a transdisciplinaridade. Na polidisciplinaridade, as disciplinas ainda existem isoladamente, mas os alunos as usam em conjunto para resolver problemas. Uma escola que leva seus alunos para analisar seu bairro do ponto de vista da Geografia, História, Língua Portuguesa (as expressões mais utilizadas por seus moradores, por exemplo), está praticando a polidisciplinaridade.
Se, em vez de fazer trabalhos isolados para o professor de Geografia, História e Língua Portuguesa o aluno fizer um trabalho só, que envolva os três tipos de conhecimento,
ele estará praticando a transdisciplinaridade.

Claro que a transdisciplinaridade não é fácil de se implantar na escola. Para começar, exige que os próprios professores tenham noção de como suas disciplinas se relacionam.
Além disso, trabalhos desse gênero costumam apresentar uma rejeição por parte daqueles professores que se sentem inseguros e acham que, ao fazer um trabalho em conjunto com outros professores, estarão deixando claras suas próprias
fraquezas.

Apesar das dificuldades, a união entre as disciplinas é cada vez mais necessária. Só assim o homem poderá avançar mais na ciência e na tecnologia. Só assim é possível evitar os erros do passado, como os grandes projetos instalados na Amazônia, que não consideravam nem as populações locais nem o ecossistema da região.

Em 1999, o presidente da Unesco, Federico Mayor, solicitou a Edgar Morin um conjunto de reflexões que servisse para nortear a Educação no próximo milênio. Morin escreveu um texto que depois foi sistematizado no livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, que teve grande influência sobre educadores de vários países.

No livro, o filósofo francês afirma que o primeiro saber é a compreensão das cegueiras do conhecimento. Para ele, todo conhecimento comporta risco de erro e ilusão. Assim,
o educador deve mostrar que o conhecimento não é um espelho do mundo externo, mas uma reelaboração de sinais captados pelos sentidos. Até mesmo a razão pode levar a
erros quando se perverte e se transforma em racionalização. Enquanto a razão é aberta, a racionalização é fechada.

Outro princípio é o do conhecimento pertinente. Ele se refere à contextualização do conhecimento em contraposição à fragmentação da lógica cartesiana: “O conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que adquiram sentido”. Nessa nova ética, a união dos conhecimentos, pela transdisciplinaridade, seria a solução para a Educação do futuro. O terceiro conhecimento refere-se à condição humana. Os professores deveriam ensinar diversidade cultural e, ao mesmo tempo, o que todos temos em comum, promovendo uma espécie de consciência global. Segundo Morin, a literatura, a poesia e as artes são fundamentais nesse processo de compreensão da condição humana.

A lógica da separabilidade gerou, entre outras coisas, a consciência de nacionalidade, mas, para Morin, hoje, com o avanço da tecnologia da comunicação, o ser humano vive
uma era planetária: “Todos os humanos, desde o século XX, vivem os mesmos problemas fundamentais de vida e morte e estão unidos na mesma comunidade de destino planetário”. Assim, o quarto princípio é ensinar a identidade terrena.

Outro princípio importante, que tem sido destacado pela teoria do caos, é o da incerteza. Não é possível falar em determinação histórica quando se vê o passado em perspectiva.
Quem poderia dizer que Hitler, praticamente um mendigo na década de 1920, chegaria ao poder na Alemanha? E quem poderia dizer que, após as principais vitórias
avassaladoras dos nazistas no início da guerra, a situação se reverteria completamente a partir de 1942? Assim, a escola deve preparar seus alunos para lidar com a incerteza de um mundo em constante transformação. Morin ainda destaca, como saberes necessários, a compreensão e a ética do gênero humano como forma de a escola contribuir positivamente para o futuro da humanidade.

Lógica indutiva

A terceira parte da crítica de Edgar Morin à ciência clássica diz respeito à lógica indutiva. Desde Galileu, a indução tem sido considerada o procedimento científico mais correto.

Na indução, parte-se de casos isolados de singularidade para uma teoria geral, ou seja, universal. Dessa forma, o cientista pesquisa diversos casos e, depois de investigar vários deles, chega a uma lei que pode ser aplicada a todas as situações semelhantes no futuro.

Umberto Eco, no livro Viagem na Irrealidade Cotidiana, exemplifica a indução imaginando um saco sobre uma mesa. Não se sabe o que há dentro do saco. Para saber o que há lá dentro, pela indução, deve-se retirar um dos objetos de dentro e, depois, outro, e outro. Por exemplo, tira-se algo de dentro do saco e é um feijão branco. Depois, outro feijão branco e assim por diante. Em determinado momento, o pesquisador
finaliza sua pesquisa e conclui que, dentro do saco, há apenas feijões brancos.

A grande pergunta da indução é: quantos feijões é necessário tirar para se concluir que há apenas feijões brancos dentro do saco? Quantos casos singulares é necessário pesquisar para se chegar a uma conclusão geral sobre o assunto? Ninguém soube responder a esse questionamento de maneira lógica por uma razão muito simples: ele não tem resposta.

O filósofo inglês Karl Popper percebeu que, por mais que eu pesquise milhões de casos, jamais terei certeza de que o próximo caso não irá contradizer todas as minhas observações anteriores. Para Popper, a ciência só se pode utilizar da dedução, em que se faz uma generalização e depois se vai pesquisar casos singulares. Mas a dedução deve ser usada com o método do falseamento, em que se buscam não provas
de que a hipótese está correta, mas de que ela está errada. Se os casos baterem com a hipótese, dizemos que ela foi corroborada (não confirmada, pois é possível que estudos
futuros cheguem a conclusões diferentes). Se não baterem com a hipótese, dizemos que foi falseada. Popper demonstrou que só é científico aquele conhecimento que se pode
mostrar falho, ao contrário do conhecimento teológico, que não pode ser falseado.

Edgar Morin aproveitou a crítica de Popper à indução em sua filosofia, mas também fez crítica à dedução, citando o paradoxo lógico do mentiroso de Creta. Imagine que um
cretense diz que todos os cretenses são mentirosos. Se ele estiver dizendo a verdade, está mentindo, pois ele também é cretense e, pela lógica, deveria estar mentindo. Se ele estiver mentindo, está dizendo a verdade. É uma situação que não tem escapatória lógica.

construir_img_morin_pensa5Embora admita que a dedução é mais confiável que a indução, Morin propõe uma nova lógica, menos classificadora, que não é baseada no ou/ou, mas no e/e. Uma lógica complementar, e não excludente, que permitisse termos contrários como: “A vida surge da morte”. De fato, a morte do grão é o início da semente, que irá dar origem a outra planta. A cada dia, nossa pele se renova em grande parte. A morte das células da epiderme é que nos permite continuar vivendo.

Da mesma forma, a frase de Chico Science, “Eu, desorganizando, posso me organizar”, ganha um significado próprio pela lógica complementar. A ciência tem demonstrado
que processos caóticos/entrópicos são a base da criação do novo. É impossível reorganizar uma estante sem retirar de lá todos os livros; em outras palavras, bagunçá-la.

A crítica à separabilidade, ao determinismo e à lógica clássica forma o cerne da teoria da complexidade.

As estrelas e os mitos

Edgar Morin é também conhecido pelas suas análises dos meios de comunicação, em especial o cinema, pelo qual se declara um apaixonado. Uma de suas obras mais importantes na área é As Estrelas – Mito e Sedução no Cinema. O objetivo era analisar o fascínio que os grandes astros de Hollywood exercem sobre seu público.

Morin parte da ideia de que o cinema é o atual difusor de mitologias. Os mitos aqui são vistos como realidades psicológicas que vivem em nosso inconsciente coletivo e que precisam passar de uma pessoa para outra para continuarem existindo. Antigamente, isso era feito através das narrativas orais. A tribo se reunia ao redor da fogueira, e uma pessoa contava a história. Essa história apresentava ideais humanos de beleza, coragem, amizade e amor. Enquanto ouviam essas narrativas, os jovens entravam nelas e viviam como seus heróis. Ouvir histórias era como ter também um pouco das qualidades de seus ídolos.

O desenvolvimento da sociedade de massa tornou esse tipo de encontro para contar histórias uma raridade. As pessoas simplesmente não tinham mais tempo para isso. Os mitos, então, encontraram uma outra forma de se difundir: os meios de comunicação de massa, tais como novelas, histórias em quadrinhos e até a Internet.

Morin vai se preocupar em analisar especificamente os mitos cinematográficos. Ele percebe que ao redor das estrelas se instala um culto. O culto aos atores toma, às vezes,
caráter de religião. Há “papas” (presidentes de fã-clubes) e até cerimônias em que os fiéis entram em estado de êxtase, como se estivessem, de fato, em um ambiente religioso.

Da mesma forma que fiéis faziam oferendas aos deuses antigos e, em troca, faziam pedidos, os fãs fazem as mais diversas ofertas e os mais diversos pedidos a seus ídolos. Morin assinala alguns pedidos mais curiosos: o papel usado para limpar o batom da estrela, um pedaço do chiclete mastigado, ceroulas autografadas, guimbas de cigarro, um pedaço do rabo de cavalo e até um cheque em branco para fazer compras em supermercado.

As oferendas são igualmente estra nhas: onze páginas com “I Love You” escrito 825 vezes; uma pulga que reconhece onome da estrela… Os fãs fazem de seus ídolos a razão de viver e, muitas vezes, interferem até mesmo em seu cotidiano — Morin conta a história de um ator que não cortou o bigode por pressão das fãs. Outros sabem tudo sobre seus ídolos. Também característico dessa situação são os fãs que não conseguem
distinguir o ator do personagem. Essa situação pode ser tão sufocante que o ator Leonard Limoy chegou a publicar um livro, na década de 1970, com o título Eu Não Sou Spock. Mas qual é a origem psicológica dessa idolatria, às vezes doentia, aos mitos do cinema, da TV e até do futebol?

Segundo Morin, a base está num processo de projeção-identificação. O fã se identifica com o seu ídolo e, ao mesmo tempo, projeta nele seus desejos, o que ele gostaria de ter
ou de ser. Assim, uma pessoa de vida monótona se projeta em um personagem que vive em meio à ação e ao mistério. Uma pessoa recatada sexualmente se projeta em uma personalidade de sexualidade exarcebada, como Madonna.

O ídolo é sempre um referencial para o seu fã. Ele se encontra acima dos mortais, em um Olimpo de beleza e perfeição. Mas não basta a projeção. As estrelas precisam ser
também um pouco humanas para que seu público possa se identificar com elas. O Super-Homem é um belo exemplo disso. O herói era tão perfeito, tão olímpico, que era impossível criar uma identificação. Assim, foi criado seu alter ego, Clark Kent, um repórter tímido que sempre é passado para trás por sua colega Lois Lane. Nós nos projetamos no Super-Homem, mas nos identificamos com Clark Kent.

Segundo Edgar Morin, a indústria cultural se aproveita dessa necessidade do homem de se projetar em mitos e transforma isso em mercadoria. É a estrela-mercadoria. Claro
que a estrela só interessa para a indústria cultural enquanto estiver dando lucro. Uma estrela que não faz mais sucesso, que não vende mais produtos, é uma estrela morta. Nesses casos, é melhor a morte física. Michael Jackson vende mais discos morto do que vivo. Para a indústria cultural, ele está mais vivo do que nunca.

Gian Danton é mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo e professor universitário em Macapá. Autor de diversos livros nas áreas de Comunicação e Ciência, como Introdução à Metodologia Científica (Virtual Books) e Watchmen e a Teoria
do Caos (Marca de Fantasia).

fonte: Conhecimento Prático – Filosofia. Edgar Morin e o Pensamento Complexo. n. 21 São Paulo: Escala Educacional.

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