Edição 39

Matérias Especiais

Edgar Morin: Um sujeito múltiplo para uma educação complexa

Maria da Conceição de Almeida

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Edgar Morin é um dos expoentes mais expressivos do pensamento mundial contemporâneo. Um intelectual que quer, deseja e provoca, sem trégua, o reencontro entre ciência e humanismo, entre a cultura científica e a cultura humanística. Um intelectual cujas idéias representam uma síntese aberta e, ao mesmo tempo, radical a respeito do papel social e ético do conhecimento diante da “agonia planetária” deste início de século.

Com uma produção científica volumosa e polêmica, de indiscutível repercussão e reconhecimento internacionais, Edgar Morin, nascido a 8 de julho de 1921, filho de Vidal e da bela Luna, tem dificuldade de se definir por uma área específica do conhecimento. Pudera! Essa dificuldade está marcada já na sua nascença e emerge na infância quando o pequeno Edgar precisa dizer qual a sua origem e, mais precisamente, de onde viera seu pai:

Da Salônica.
Então é grego? perguntavam.
Não, porque Salônica era turca quando ele nasceu.
Então é turco?
Não, ele era de origem espanhola…
Então é espanhol?
Não… tentava explicar Morin.

Nos meios de comunicação de massa, tanto quanto nas várias instituições por onde passa, é referido ora como sociólogo, ora como filósofo, ora como antropólogo. É possível atribuir um pertencimento particular e unitário a Edgar Morin? Certamente não.

Licenciado em História, Geografia e Direito, ele é mais propriamente, como por vezes anuncia, um “contrabandista de saberes”, um “artesão sem patente registrada”, porque transita livremente entre as arbitrárias divisões, entre as ciências da vida, do mundo físico e do homem. Quer rejuntar o que o pensamento fragmentado da superespecialização disciplinar fraturou e é movido durante toda a sua vida por vários “demônios”, mas também por uma mesma obsessão, um mesmo apelo intelectual, uma mesma razão apaixonada: a reforma do pensamento. Alerta, porém, para o perigo das generalizações extremas e, no caminho de Adorno e Gödel, reafirma que “a totalidade é a não-verdade” e que a complexidade é movida pela dinâmica da incompletude.

Sem abrir mão da disciplina intelectual e do rigor, Edgar Morin tem por hipótese a tragédia do inacabamento da cultura, do sujeito, das idéias, do conhecimento. Daí porque as verdades absolutas e as explicações finalistas são rigorosamente questionadas e discutidas na magnitude de uma obra aberta que abarca desde uma reflexão matricial acerca do método até títulos considerados como sociologia, antropologia, política, educação, escritos de conjuntura, livros socioautobiográficos, romances, cinema e imaginário e cultura de massa.

Como o legendário deus Sísifo, Edgar Morin se atribuiu a missão (ou o castigo?) de, corajosamente, fazer rolar as diversas pedras do conhecimento montanha acima, buscando religar os saberes, mesmo que, como Sísifo, tenha visto tantas vezes as pedras caírem de volta até o chão.

Ao contrário de pensadores que, desencantados com a universidade, optaram por investir fora dela suas energias cognitivas, Edgar Morin luta contra o imobilismo e a esclerose do pensamento dentro e fora da academia. Sua crítica incisiva e quase cruel à “burocratização do saber” e à “alta cretinização” que comprometem a ciência é indissociável de sua autocrítica, que, por vezes excessivamente rigorosa, o faz tomar para si equívocos produzidos por outros.

A julgar pela polifonia temática e pela repercussão mundial das idéias e da obra de Edgar Morin, estamos diante de um pensador que abriu mão dos confortáveis limites disciplinares para se lançar à tarefa hercúlea e incerta, mas inadiável, de fazer dialogar os conhecimentos, condição crucial para enfrentarmos os desafios de toda ordem que nos espreitam neste início de século.

Morin é um pensador inclassificável, múltiplo, um “eterno estudante”. Um intelectual que o jornal La Libre Belgique chamou de um “humanista sem fronteiras”. Um intelectual que politiza o conhecimento. Um homem para quem só pode haver “ciência com consciência”. Um pensador que expõe suas incertezas e acredita na “boa utopia”, na reforma da universidade e do Ensino Fundamental; que defende publicamente suas polêmicas posições diante dos conflitos e das guerras; que se rende à democracia do debate para rever suas posições e seus argumentos, porque se opõe frontalmente à polícia do pensamento. Um intelectual que lança as bases para uma ética planetária que se inicia a partir da ética individual, uma auto-ética. Um homem que não se esconde nas palavras, mas que se expõe perigosamente por meio delas: “a auto-ética”, dirá no livro Meus demônios, “exige-me que não dissimule a subjetividade nos meus escritos, que não me arvore em proprietário da verdade objetiva, que deixe que o leitor me veja, incluindo as fraquezas e mesquinharias, mesmo correndo o risco de dar aos meus adversários motivos para me ridicularizarem”. Um intelectual a quem incomoda o culto à sua personalidade, ainda que, por vezes, não o consiga conter. “Faço um esforço constante”, diz, “para não me pôr num pedestal… porque a estátua exterior, a que se mostra aos outros, vem da estátua interior, daquela que, inconscientemente, esculpi para si[mim?]”.

Essas palavras de Morin não se encerram num jogo de linguagem, não é uma mera figura de retórica. Quem leu os livros O diário da Califórnia, Vidal e os seus, O diário da China (inédito), Meus demônios, Um ano Sísifo e Amar, chorar, rir e compreender sabe bem das desavenças intelectuais, dos conflitos teóricos, das alegrias, das dores, dos contratempos, das decepções, das leituras e dos acasos que cercam sua vida. Sabe bem das condições de emergência, metamorfose e aparecimento das noções centrais e periféricas de que se vale Edgar Morin para reorganizar o conhecimento em metapatamares mais complexos e fazer nascer uma ciência da complexidade e uma educação portadora de futuro.

Isso faz uma diferença crucial para a compreensão e a construção da história da ciência. Ler os cinco volumes de O método, livros densamente povoados por conceitos, noções e pensadores de diversas áreas do conhecimento, equivale a dessacralizar a ciência, a facilitar a compreensão da linguagem técnica, a destituir a falácia do poder do saber, envolta pelo véu da obscuridade e do segredo da ciência. Equivale, sobretudo, a reintroduzir o sujeito no conhecimento e o conhecimento no sujeito.

Sem uma bússola que indique uma direção predefinida, esse sábio moderno se torna o caminhante do poeta Machado, recusa a ortodoxia, qualquer que seja ela, empreende ao longo de sua vida uma odisséia do pensamento. Como Ulisses, é ferido algumas vezes na sua caminhada. Mas sua cicatriz, não se encontrando na perna, aloja-se nos porões de sua alma e reabre-se cada vez que assiste aos desmandos provocados pela tecnopolítica do pensamento e às atrocidades das tão selvagens guerras modernas. Como o Ulisses da Odisséia, que se confundia com os habitantes dos lugares por onde passava, Edgar Morin sabe transitar pelas diversas searas do conhecimento e matizar a relação indissociável entre “amor, poesia e sabedoria”, segundo o título de um de seus livros.

Quadro 1

“Reformar o pensamento para reformar o ensino e reformar o ensino para reformar o pensamento” é o que preconiza Morin.

Na linha de reforma do pensamento, ele propõe os princípios que permitiriam seguir a indicação de Pascal: “Considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes…”.

Esses princípios levam o pensamento para além de um conhecimento fragmentado que, por tornar invisíveis as interações entre um todo e suas partes, anula o complexo e oculta os problemas essenciais; levam, igualmente, para além de um conhecimento que, por ver apenas globalidades, perde o contato com o particular, o singular e o concreto. Eles permitem remediar a funesta desunião entre o pensamento científico — que desassocia os conhecimentos e não reflete sobre o destino humano — e o pensamento humanista — que ignora as conquistas das ciências, enquanto alimenta suas interrogações sobre o mundo e a vida. Daí a necessidade de uma reforma do pensamento referente à nossa aptidão para organizar o conhecimento, que permita a ligação entre as duas culturas divorciadas. A partir daí, ressurgiriam as grandes finalidades do ensino, que deveriam ser inseparáveis: promover uma cabeça bem-feita, em lugar de bem cheia; ensinar condição humana, começar a viver; ensinar a enfrentar a incerteza, aprender a se tornar cidadão” (Apresentação da obra – Bertrand-Brasil).

“Nas palavras de Morin: ‘Existe uma inadequação cada vez maior, profunda e grave entre os nossos conhecimentos disjuntos, partidos, compartimentados entre disciplinas, e, de outra parte, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, enfim. Nessa situação tornam-se invisíveis os conjuntos complexos, as inter-relações e retroações entre as partes e o todo, as entidades multidimensionais, os problemas essenciais’ (MORIN, 1999).

(Notas organizadas pelo editor.)

Uma educação para o futuro

Consciente de que a construção de uma sociedade mais justa e igualitária só é possível por meio de uma nova e complexa compreensão do mundo, Morin tem apostado, nos últimos anos, na reforma do sistema educacional. Os livros Os sete saberes necessários à educação do futuro (Quadro 1 – Editora Sulina), A cabeça bem-feita (Quadro 2 – Editora Bertrand-Brasil) e A religação dos saberes (Quadro 3 – livro organizado por ele e publicado pela Bertrand-Brasil) mostram seu investimento prioritário na educação.

No contexto das apostas educacionais empreendidas, é importante não perder de vista algumas das questões fundamentais e maiores sugeridas por Edgar Morin, que tem sido identificado como o protagonista central da Reforma do Pensamento e da Educação. São três as metas-questões que devemos resguardar: 1. A reforma da universidade não se reduz a uma reforma pragmática, ela subentende uma reforma paradigmática. As outras duas questões são formuladas como perguntas: 2. Deve a universidade adaptar-se à sociedade ou a sociedade a ela?; 3. De onde partirão ou devem partir as propostas de reforma? Sobre essa questão, Morin pondera que, embora reconheça a necessidade de transformar a estrutura hegemônica da academia, é importante investir em iniciativas marginais.

Em síntese, para expormos a questão dos saberes necessários à educação do futuro, é fundamental que enunciemos uma agenda de múltiplos princípios: 1. Pensar a educação como uma atividade humana cercada de incertezas e indeterminações, mas também comprometida com o destino dos homens, das mulheres e das crianças que habitam nossa terra pátria; 2. Praticar uma ética da competência que comporte, ao mesmo tempo, um pacto com o presente sem esquecer nosso compromisso com o futuro; 3. Buscar as conexões existentes entre o fenômeno que queremos compreender e o seu ambiente maior; 4. Abdicar da ortodoxia, das fáceis respostas finalistas e completas; 5. Exercitar o diálogo entre os vários domínios das especialidades; 6. Deixar emergir a complementaridade entre arte, ciência e literatura; 7. Transformar nossos ensinamentos em linguagens que ampliem o número de interlocutores da ciência.

Cultivar esses sete princípios talvez seja um bom exercício para religar, nas teorias, nos conhecimentos e na ciência, os laços indissociáveis da teia da vida.

Quadro 2

“O texto de Edgar Morin tem o inegável mérito de introduzir uma nova e criativa reflexão no contexto das discussões que estão sendo feitas sobre a educação para o século XXI.

O próprio título — Os sete saberes necessários à educação do futuro — já indica uma postura diferente diante dos exageros da sociedade do conhecimento. Este pequeno grande livro aborda temas fundamentais para a educação contemporânea por vezes ignorados ou deixados à margem dos debates sobre a política educacional. (…).

Como diz Morin, as ciências permitiram que compreendêssemos muitas certezas. No entanto, elas também ajudaram a revelar as zonas de incertezas. Dessa forma, a política pedagógica precisa converter-se em um instrumento que conduza o estudante a um diálogo criativo com as dúvidas e interrogações de nosso tempo, condição necessária para uma formação cidadã. Não se pode mais ignorar a urgência da universalização da cidadania que, por sua vez, requer uma nova ética e, por conseguinte, uma escola de educação e cidadania para todos.”

Apresentação da obra por Célio da Cunha – Assessor da Unesco, professor adjunto da Faculdade de Educação da UnB. Cortez Editora/Unesco.

(Notas organizadas pelo editor.)

Quadro 3

“Este livro é dirigido a todos, mas poderia ajudar particularmente professores e alunos. Gostaria que estes últimos, se tiverem acesso a este livro e se o ensino os entedia, desanima, deprime ou aborrece, pudessem utilizar meus capítulos para assumir sua própria educação” (MORIN, 2000: p. 6).

Maria da Conceição de Almeida – Antropóloga, doutora em Ciências Sociais pela PUC–SP, professora dos programas de Pós-Graduação em Educação e em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, coordenadora do Grupo de Estudos da Complexidade – Grecom/UFRN, membro da Associação para o Pensamento Complexo, dirigida por Edgar Morin (Paris).

Fonte: Revista Abceducatio. A revista da educação. Ano 5. nº 34. maio/04. www.educatio.com.br. Editora Criarp, 2004. p.10–13.

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