Edição 13

Matérias Especiais

Educação com afeto: O tempero que falta

Em sua obra Educação — A solução está no afeto, o autor transcende o puro tratamento do processo de educação de forma simplesmente técnica. Sua abordagem retrata o conteúdo técnico com muita precisão, mas principalmente com sentimento. Em nosso entendimento, é um misto de Razão e Emoção.

Diferentemente de outros autores, Dr. Gabriel Chalita consegue expressar, na prática escolar, suas idéias, concepções e projetos, através dos diversos programas e ações desenvolvidos durante o ano letivo, comprometendo os alunos com a participação, envolvendo as famílias e a comunidade e respondendo ao exercício da transdisciplinaridade.

Nesta entrevista à Construir Notícias, o Dr. Gabriel Chalita expressa, com tanto envolvimento, os pontos-chave do livro, que termina por nos seduzir a uma viagem por sua obra.

Construir Notícias – Que contribuições o olhar focado para o “Afeto” traz para o Processo de Educação?

Gabriel Chalita – Uma boa educação, acompanhada de boas doses de afeto e compreensão, é capaz de descobrir, no aluno, um indivíduo ímpar, com uma história de vida rica e que muito tem a acrescentar ao binômio ensino–aprendizagem. O educando é o centro de um universo riquíssimo que, por vezes, é pouco explorado. No processo de aprendizagem, o educador deve estar atento a isso para levar o estudante a descobrir toda a sua riqueza interior. A figura do educador deve ser capaz de incitar, no educando, a curiosidade e o gosto pelo saber. O afeto é o mecanismo de ativação de todo esse processo emocional, cognitivo e social que desemboca na construção do conhecimento, no vôo infinito do aprendizado.

CN – A proposta de Educação com Afeto é solução viável para escolas da rede pública e particular ou apenas para escolas particulares?

GC – O afeto deve permear todas as relações humanas. Quando falamos em educação, falamos de construção, de descoberta, de consolidação. Nesse contexto, o afeto deve ser redobrado para permitir a plena evolução do processo de formação do indivíduo e do cidadão. Isso serve tanto para escolas particulares quanto da rede pública, pois, tanto em uma quanto em outra, estamos lidando com crianças e jovens cheios de sonhos e objetivos.

CN – Por onde a escola, para educar com afeto, deve iniciar?

GC – No universo cada vez mais competitivo que ora vivemos, cabe à escola também acumular a tarefa da educação como forma de preparar para a vida como um todo. Construir homens e mulheres capazes não apenas de viver, mas, principalmente, de entender a vida e participar dela de forma intensa. Gente que, pelo saber, exerça a liberdade com responsabilidade e saiba defender os seus direitos; verdadeiros cidadãos. É com esse objetivo bastante claro que a escola deve iniciar o processo de ensino–aprendizado.

CN – Que competências o professor deve ter para ensinar com afeto? Existe um perfil preferencial?

GC – O professor deve estar em permanente aprendizado. Nesse sentido, a Secretaria tem implantado projetos visando à valorização do educador. Capacitações, cursos, seminários e teleconferências são apenas algumas das iniciativas que vêm sendo aplicadas de forma contínua. A preocupação e o acompanhamento dos problemas, dúvidas, sucessos e conquistas dos educadores são, agora, uma realidade. É esse acompanhamento que garante ao educador aprimorar-se sempre no exercício do magistério para exercê-lo com esmero e personalidade. Não há um perfil preferencial ou pré-estipulado. São necessários dedicação e interesse pelos alunos e sua capacidade de constante crescimento.

CN – Existe sintonia entre a proposta de Educação com Afeto e o Projeto Didático? Onde se encontra?

GC – O binômio ensino–aprendizado deve ser desenvolvido a partir de uma abordagem atraente, criativa, desafiadora e eficaz, de maneira que o aluno sinta-se cativado e atraído pelas atividades promovidas na escola, sejam elas curriculares ou extracurriculares. Todas as disciplinas devem ser trabalhadas como extensões da vida do estudante, proporcionando a ele uma ampla visão de sua realidade e do meio em que vive. O aprendiz precisa se sentir estimulado a compreender o porquê de cada coisa, bem como a forma como esse conhecimento será empregado em sua vida. Todo esse envolvimento e entusiasmo só são possíveis por meio do afeto, da atenção com o ser humano: nosso aluno, a razão de ser da educação.

CN – O grande desafio para o professor é trabalhar com as diferenças individuais. Educar com afeto minimiza essa dificuldade?

GC – Com certeza. Quando se põe afeto naquilo que se faz, elegemos o outro como nosso ponto de referência para avaliação. A partir desse mecanismo, sabemos lidar com os anseios e as necessidades de cada um. É por isso que eu sempre digo que os professores devem ser artesãos. Educadores são mestres na arte de misturar os ingredientes necessários para uma boa aula, ou melhor, para um banquete realmente inesquecível. Um banquete que permanecerá para sempre na memória dos aprendizes, como uma refeição indispensável ao seu crescimento e ao desenvolvimento de seu talento para viver — com saber e sabor — a aventura de gosto inigualável que é a vida.

CN – Que ações podem ser consideradas enquadradas, na prática escolar, numa perspectiva de educação com afeto?

GC – Por mais distintas que sejam as realidades em que estão inseridas nossas escolas, todas são permeáveis ao afeto no seu dia-a-dia. Isso se faz pela participação ativa dos pais e pelo envolvimento dos professores, funcionários e gestores da vida escolar. Uma ação que caracteriza fortemente o empenho de transformar o espaço escolar num espaço cada vez mais comunitário e afetuoso é o Programa Escola da Família. Neste segundo semestre de 2003, todas as nossas seis mil escolas estarão com as portas abertas, oferecendo atividades de lazer, cultura e profissionalização, como Corais de Família, Cursos de Informática para os pais, Corte e Costura, entre outros cursos de qualificação profissional. Alunos, pais, professores e comunidade juntos na construção de uma Escola Cidadã.

CN – Qual sua expectativa, frente ao momento político-democrático que estamos vivendo, para o exercício da Educação com Afeto, pautada nas habilidades cognitiva, social e emocional?

GC – Tenho confiança no futuro que construímos hoje a partir da Educação com Afeto. Quem educa verdadeiramente dá ao semelhante a oportunidade de sonhar, superar limites e buscar novos desafios para a construção de sua própria história e o alcance da cidadania plena. Dar a possibilidade de construção pessoal é respeitar o espaço e a vontade do outro. E aquele que educa não faz bem apenas para seu semelhante. Ele colabora para a formação de uma sociedade culturalmente mais preparada, mais consciente, mais capacitada para criar e vivenciar experiências positivas e, por vezes, revolucionárias.

Gabriel Chalita – Doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica. É mestre em Direito e em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). É professor dos programas de pós-graduação da PUC São Paulo, da Unimes/Santos e da Unifieo/Osasco. É diretor educacional do Colégio Pentágono. É membro da União Brasileira de Escritores – UBE. Autor de diversas obras nas áreas de Direito, Filosofia e Política. Secretário de Educação do Estado de São Paulo.

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