Edição 18

Matérias Especiais

Educação é como amor: não tem idade

Por Leonardo Bastos

De características semelhantes, as alunas do Programa de Erradicação do Analfabetismo (Paz), com idade variando de 50 a 92 anos, apresentam o mesmo grau de motivação para o estudo e para a vida. Para elas, o mais difícil é o iniciar. Rompida a barreira da matrícula, o resto é só prazer. Incentivadas por familiares, em sua maioria filhos, netos e maridos, elas criaram coragem para a retomada dos estudos, e algumas até fizeram surpresa para os filhos, se matriculando às escondidas.

O projeto Paz, desenvolvido pela prefeitura do Paulista, na Região Metropolitana do Recife, está trazendo de volta à Escola pessoas com mais de 50 anos. Quem mais chama a atenção no grupo são as alunas mais idosas: Maria José da Silva tem 92 anos, e Iracema Santana da Silva, 91. As duas estão sendo alfabetizadas na Escola Municipal Professora Maria da Conceição da Paz, no bairro de Maranguape II, assistem a aulas no turno da noite e estão muito motivadas com a leitura.

A estudante Maria José explica que pretende ler revistas, jornais e escrever cartas para os parentes. “Gosto de ler sobre criança”, confessa. A dificuldade de acesso à Escola, na juventude, fez com que ela tivesse menos de dois anos de estudo. Trabalhando desde os nove anos e ocupada com a família, somente agora Maria José pôde voltar a estudar. Ela teve seis filhos e adotou mais dez — entre sobrinhas e um cunhado: “Perdi a conta de quantos netos e bisnetos eu tenho”, brinca.

O caso de Iracema é bem semelhante. Assim como aconteceu com Maria José, ela sempre trabalhou, o que a impediu de estudar. Uma amiga indicou o curso de alfabetização, e Iracema aceitou o desafio. Religiosa, ela explica seu objetivo: “meu sonho é ler e estudar a Bíblia, estudar tudo”, garante.

O maior obstáculo para a alfabetização de adultos e idosos ainda é dar o passo inicial. Uma vez matriculados, os alunos tendem a se envolver cada vez mais nas aulas e a receber o apoio da família. Assim como acontece com crianças e adolescentes, quando os familiares incentivam o estudante a ir às aulas e a fazer as tarefas escolares, ele atinge os resultados e mantém-se vinculado ao curso. E o apoio não fica só nesse estímulo inicial; elas são acompanhadas através das cobranças da freqüência às aulas, da não-desistência do curso e dos elogios do desempenho nas tarefas escolares. Esse apoio é fundamental para a auto-estima em qualquer idade escolar.

Os exemplos de Maria José e de Iracema são muito comuns no Brasil. Ainda hoje, há casos de pessoas, normalmente mulheres de famílias pobres, que são pressionadas pelos pais a fazer opção pela família, criando filhos e netos e cuidando do lar. Quando têm a chance de voltar a estudar, essas alunas são muito agradecidas aos professores, pelo carinho, pela paciência e pelo amor demonstrados em sua dedicação às turmas. A professora do grupo, Adeilda dos Santos Pereira, já estava aposentada e retornou à Escola para participar do projeto Paz. A turma para a qual ensina é composta de treze alunos, todos com mais de cinqüenta anos.

A retomada tardia não impede o interesse e o compromisso das alunas, que, com entusiasmo, agradecem às professoras pelo carinho, pela paciência e pelo amor com que alimentam essa relação em sala de aula.

No início de junho, o grupo realizou uma visita ao parque gráfico da Editora Construir. Muito animadas, as alunas acompanharam todo o processo da fabricação de livros e revistas, desde a diagramação até o encadernamento.

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