Edição 77

A fala do mestre...

Educação escolar: A dificuldade são dos pais, e não das crianças

Nildo Lage

Quando o objetivo é expor o responsável por um desacerto na Educação escolar, todos têm um alvo a assinalar: da banda de lá — composta pelo equipado exército de pais —, os lançamentos são certeiros: “O meu filho tem problemas de aprendizagem, e a culpa é do professor, que não está nem aí, muito menos se doa para auxiliá-lo nas dificuldades!”, ataca um; “O meu filho caiu no intervalo, e a culpa é da escola, que não tem estrutura nem um sistema de gestão que inclua segurança aos seus alunos!”, bombardeia outro; “Mas, também, com um gestor indicado por políticos, que já assume com pose de general, teremos avanços?”, alfineta um terceiro.

Quando a seta se volta para o centro do “comando governamental”, a poderosa arma “política” dispara em leque: todos são culpados: pais, educadores, sociedade, funcionários… a própria escola — exceto o “competente sistema”, que investe mais do que o suficiente…

Da banda de cá, os alvejados professores replicam instantaneamente: “A responsabilidade pelas dificuldades da criança é da própria família, que não impõe limites, não cobra obrigações nem sequer acompanha o desempenho escolar do filho…”. E não para por aí… Com tanto descaso por parte do sistema e do governo, que só querem saber de números e de “meter a mão no dinheiro do povo”, aliado à irresponsabilidade da família, que é a base do indivíduo, é impossível atingir um grau de aprendizado satisfatório, pois a maioria dos pais não tem interesse sequer de cobrar do filho as tarefas de casa. Também, com a baixa escolaridade, é possível ajudar o filho?

E, como há espaço para questionamentos, acusações, intervenções, réplicas e tréplicas, todos querem dar pitaco para acrescentar à pena, como a entidade representante da classe, que bate o martelo e decreta a sentença: “Sem a valorização do Magistério, com a agressividade das crianças e com o péssimo estado dos prédios escolares, dificilmente teremos uma Educação de qualidade!”.

A roleta-russa gira a mira e volta a apontar para o professor, que dispara: “A família delega ao professor e à escola a obrigação de formar o seu filho e não cumpre o seu papel de fomentadora de valores, ignorando a Educação escolar… Como posso formar um cidadão que não tem princípios familiares, morais, religiosos ou culturais definidos?”.

Quando a mira se redireciona para a escola, esta é convincente: “Não sou albergue para receber as crias do hibridismo familiar nem casa de mãe Joana — onde políticos assumem o papel de gestor, onde pai se converte em especialista em Educação, onde a entidade representante da classe acredita ter poderes para ditar leis — e muito menos mãe adotiva para aceitar perraria, violência doméstica, agressividade…”. Sem alternativa, as esferas responsáveis pela formação do humano vão se esquivando do disparo fatal durante o processo educativo; e, no aterrorizante jogo de azar, a mira estaciona na cena do crime — o aluno. Desvendado o mistério, o gatilho é acionado, e, que isso aconteça, a sentença: a culpa é dos pais, e não da criança.

Educação escolar x família: um entrave histórico

Não é necessário ir longe. Basta virar a página e chegar ao século anterior que encontraremos a resposta: “Todos estão reprovados!”. Uma cultura de repasse de responsabilidades. Uma tradição mesclada pela imposição para transformar o seu preceito, mas com zelo para não macular as aparências: o da família, que sempre foi uma camuflagem. Os casamentos eram arrumados para satisfazer caprichos de pais que pensavam mais nos benefícios financeiros do que na felicidade dos filhos, que se submetiam, muitas vezes, a imposições, asfixiavam sentimentos, abriam mão de sonhos. Como não poderia debelar o casamento, imperava o provérbio popular “Você faz de conta que me ama; e eu, de que sou feliz” para que os filhos consigam sobreviver num ambiente artificial: sem contato, calor humano, carinho, amor e afeto, no seio de uma instituição gerenciada pela conformidade.

O Brasil sai da escravidão, e o “Império contra-ataca”, pois, nesse período, os alvos da Educação eram a propagação da religião, a unificação da língua nacional, a escrita, a leitura e os rudimentos da aritmética para que as contas fechassem exatamente a fim de satisfazer a ambição da classe dominante e as tradições do Império, onde apenas os livres e vacinados poderiam ter acesso à Educação.

Cai o Império, vem a República, e o País é atirado nas garras dos militares, que mudaram a cara da Educação. Passou-se a ensinar, com autoridade, a base de “Moral e Cívica”.

O sistema se inflamou e… Toma moral e overdose de civismo para despertar na molecada o patriotismo, sem o mínimo de cidadania, pois o alvo era conter a representação política para que o civismo atingisse o seu propósito: conscientizar a população de que cidadania era um mito, e o papel do cidadão era defender a sua pátria; este passou a ser instruído para conviver com torturas, suportar perseguições, abusos de poder… Os governantes de farda fecharam o cerco e instituíram a censura para “abafar” os Direitos Humanos. Tanto que os porões da Ditadura são mantidos trancafiados a sete chaves por guardar horrores, que muitos nem sequer desejam lembrar, pelo fato de as rígidas regras darem às vítimas quatro opções: prisão, tortura, morte ou todas juntas, recheadas de perseguições e caçadas implacáveis.

De que nos serviu tanta moral e cívica? Convidar a Geração X para os movimentos… Democracia, o grande sonho… Diretas Já!… Finalmente, o grito… A grande conquista… a liberdade… E a Educação preferiu permanecer inacessível entre muros e grades, imersa no próprio caos.

A Geração X tocou a vida adiante, chegou a Y, Z, Alfa… E a Educação continuou na mesma. Deu alguns passos na tentativa de sair do lugar-comum e… ocorreu o boom tecnológico. A escola estremeceu, por pouco não desabou da base e se sentiu inundada com o temporal de recursos e programas.

Ante aos contrassensos, as dificuldades são dos pais? Claro que não! A nossa Educação nunca teve um rumo definido. Porém, o tribunal do mundo não aceita meio-termo nem dispõe de recursos para reavaliar um caso e é, simplesmente, implacável. Acusou, julgou… condenou… O juiz “Sistema de Ensino” decretou: Cumpra-se a pena! Pais e filhos pagam… E a Educação continua na mesma, prenunciando que as novas gerações se submeterão ao mesmo processo, ao mesmo julgamento.

O contraponto

Em meio às injustiças, o ponto de convergência: quem é responsável pelas dificuldades das crianças? O silêncio é absoluto. Contudo, passar o problema adiante acirrará a quebra de braço, principalmente entre a escola e a família, a iniciar pela escola, que não obtém mecanismos para acompanhar essa evolução e, ao se deparar com as transformações de conceito, principalmente o familiar, não tem alternativas. Esvaece-se ante aos desafios e não sabe o que fazer, pois o velho padrão — pai, mãe e filhos — foi suplantado para dar espaço à família contemporânea — pai, pai e filhos ou mãe, mãe e filhos —; e, mesmo nas tradicionais, não prevalece o kit básico: amor, respeito e união, pois o amor, que promove o querer, o “suportar o outro”, não existe, dilacerando obrigações, compromissos, cumplicidade e o próprio companheirismo.

O caos é de uma dimensão que não podemos bombardear nem mesmo o governo — mergulhado em escândalos de corrupção, desvios de recursos, superfaturamento, mensalão, CPIs —, falho e descumpridor, mas que não cruzou os braços, pelo menos investiu — mesmo para cumprir a lei ou as ações políticas para promover a metamorfose desse corpo denominado escola. No intuito de deixar a escola, assim, mais atraente, trocou a roupagem, retocou a maquiagem, inseriu acessórios — tecnologias, materiais didáticos —, fez uma sutil lipoaspiração — investindo na adequação. E a Educação não mudou. A família, um pouco; pois surgiram novos estilos — casais de homens e de mulheres. Mudaram-se as estratégias: a escola decidiu abrir os portões, um leque de discussões, e convidou a família para uma conversa. Ouviu lamentos, críticas, desabafos… Pedidos… O governo atendeu alguns: abriu creches para facilitar a vida dos pais e ampliou o período do Ensino Fundamental de oito para nove anos. Não deu certo.

Contudo, edificou o seu QG e apontou a poderosa arma — Bolsa Família — na direção errada ao mirar o social no intuito de conter a evasão e prender a criança na carteira da escola. Fracassou. Não desistiu. Angariou fundos e criou programas: PDE, PDDE… Mais Educação, para inserir o aluno em período integral… Informatizou o sistema, recheou bibliotecas, facilitou o acesso às universidades… Abriu o Caminho da Escola para os alunos do campo… então, por que não há progresso? Há recursos, por que não usá-los a favor da Educação?

Num canto isolado do pátio, um sussurro entre os gritos: “Esqueceram-se de investir no professor!”.

A ficha caiu, mas não abriu os olhos de um sistema que se embaraça para entender os sentidos de formação e capacitação; investimento com valorização; reconhecimento profissional com obrigações para estruturar o professor; e, mais, despertar o desejo de estar na sala de aula.

Essa insatisfação se tornou a ponta do iceberg que gerou a incompatibilidade entre professor-escola-Educação e, no contrapeso, família, que no seu novo padrão contemporâneo é nada mais do que uma aglomeração em constante pé de guerra no seio de uma sociedade falida. E esse colapso abalou a base social a ponto de extinguir os valores morais e religiosos, o respeito e o caráter e impelir a família a pedir socorro à escola, transferindo-lhe a responsabilidade pela educação doméstica dos filhos.

Num gesto automático, a escola “passa a bola” para o insatisfeito professor, que tem que dar “os seus pulos” para se defender da violência, da falta de respeito… da carência de Educação; e, nos momentos de trégua, cumprir uma missão “quase impossível”, pois, sem estrutura técnica — devido à ausência de formação —, mal consegue desempenhar as funções pedagógicas, pelo fato de este já fragilizado professor ser oriundo do mesmo sistema, que não o preparou para redirecionar caminhos e transformar vidas.

Tantos desacertos, e todos — família, governo, sistema — de braços cruzados. Indiferentes ao problema do professor, que grita, gesticula, paralisa… Ninguém o nota… Desenha o problema… Ninguém ousa desviar o olhar… No auge, o professor redesenha sonhos, tonifica fracassos para que o sistema possa captar os sinais e vislumbrar o caos em que estamos. O “Supremo Tribunal da Educação” — o MEC —, num gesto de indiferença, desvia olhar do alvo para alimentar o propósito do governo e ostenta a farsa: “Brasil sem Miséria”, consciente de que o maior investimento para atingirmos o sonho de “Um País sem Pobreza” precisa ser no futuro — na criança que está na sala de aula —, pois essa Geração Bolsa Família, que há mais de uma década estacionou nos programas sociais, já se envereda pelos caminhos da universidade de olho em outras “bolsas” — Enem, Fies, ProUni, Sisu… — e se poderá esperar o que da Educação, se o propósito é apenas a presença para concluir um ciclo?

Por que, em vez de cobrar a presença, não determina como regra o rendimento escolar?

Se o interesse é tão somente financeiro, que se use a cobiça e, por que não?, o comodismo dos pais para se atingir metas educacionais e melhorar o desempenho das nossas crianças, pagando o valor da bolsa proporcionalmente ao resultado escolar, pois, no atual processo, os pais se preocupam em enviar o filho à escola. Tanto que muitas crianças chegam em situações precárias: descalças, roupas sujas, sem material, com fome… Mas chegam… O importante é passar pelo portal da sala para responder: “Presente, tia!”, garantindo o benefício.

Uma rota alternativa

É imprescindível repensar metas, reavaliar conceitos, redirecionar investimentos e reorganizar o currículo escolar para que projetos com teores atrativos prendam a atenção do aluno e ganhem espaço no ambiente escolar, e, dessa forma, o dinamismo envolva alunos, pais, professores, especialistas, e por que não?, funcionários, governo, empresas… E, então, ampliem-se os horizontes do processo ensino-aprendizagem, tendo como foco a criança, que não deve pagar por uma tradição e, principalmente, pelo desequilíbrio familiar.

Esse passo só será dado quando a Pedagogia decidir se inovar, descartar velhos preceitos e atrair, para a escola, ideias contemporâneas, pois, assim como as ferramentas tecnológicas que revolucionam uma época são substituídas por outras, as ideias se tornam ultrapassadas, esvaecem o fulgor. Brilham por um tempo, deixam feitos fantásticos, mas são superadas por outras ainda mais brilhantes.

Piaget, Perrenoud e Paulo Freire foram rotas para a Educação. É indiscutível. Mas, como toda invenção do passado, ideias envelhecem; tornam-se suplantadas. Todos cumpriram as suas metas — no seu tempo —, deixaram os seus legados para a Educação mundial. Porém, como todo avanço, chega um momento em que o seu lugar é num museu, para que as gerações futuras não se esqueçam da sua importância na Educação, na vida da humanidade. Devem ser lembrados, citados, referenciados, mas não idolatrados a ponto de suas ideias serem aplicadas como regras; um caminho de via única, a verdade… A saída… Por ser o teor do ensino-aprendizagem, versículos da bíblia da Educação para corrigir falhas, julgar comportamentos e, até mesmo, avaliar.

É hora de fechar o baú e adormecer ideias que geraram ciclos viciosos na Educação, como as inspiradas em Paulo Freire. Venerado por uma oposição que disseminou o marxismo como profecia de uma Educação igualitária, foi uma revolução, até se tornar absoluto e gerar o conceito de Pedagogia do Oprimido, em que a liberdade determinava o ritmo e, portanto, a imaturidade — o aluno — ditava as regras para a experiência — o professor —, pois o aluno decidia o que queria aprender e como aprender, por usufruir da autonomia para estabelecer o ritmo do professor. A ideia surtiu tanto efeito que a retórica marxista impregnou a Educação de tal maneira que formou a geração livre, que, hoje, envia para a escola os frutos da liberdade de escolhas. De tão livres, fazem o que querem, com quem querem, principalmente com o professor, que perdeu o valor, a autonomia… O próprio respeito.

Essa geração de demagogos salienta a autonomia desde os primeiros passos. Tem pulso firme, poder de decisão e ousadia para quebrar tabus, como o menino de cinco anos da cidade de Campo Grande que, deslumbrado pela professora, decidiu presenteá-la com um elegante pacote de maconha.

É preciso lógica. Ensinar não pode ter padrão específico, ideias específicas… Se quisermos mudanças, temos que trabalhar o particular e atrair o novo, não tecnologias, mas ideias em consonância com esse avanço. Porque a crise determina escolhas novas como uma veia de escape, e, como fomentadores da Educação, temos que ser racionais. Educação é como a vida — o agir é agora para educar agora —, estabelece ideias futuristas, dinâmicas, capazes de manter o aluno com a atenção voltada para o universo da sala de aula para absorver conteúdos que fortaleçam a sua base humana e desenvolvam a sua estrutura de cidadão.

Para reforçar a plataforma profissional, uma das opções é fazer uso de ferramentas disponíveis nas parafernálias da modernidade, gerenciadas por ideias capazes de promover habilidades para manusear esse novo como ferramenta pedagógica. Do contrário, não teremos progressos, pois sabemos que, na era digital, o educar convida professor, sistema, governo, escola e família a assumirem postos de construtores, para reconstruírem cidadãos criados num ambiente artificial, em meio às crises de gerações, que desafiam a escola a encontrar alternativas para formar a geração pós-boom tecnológico.

É desse ponto que surge o maior desafio da Educação: educar uma geração que não permite grades, limites, uma vez que já se envereda pelos portões da escola, repleta de dúvidas, questionamentos, estabelece respostas imediatas e não espera que se volte ao século passado para consultar velhas ideias por ambicionarem explorar o mundo; e a curiosidade a impele a buscar, investigar e, aguçada por uma inteligência que desafia especialistas, cresce conectada e por nada permite romper essa ligação com o novo.

Acompanhar o ritmo da nova geração exige pique, pois até as brincadeiras das crianças da Geração Alfa são outras, os brinquedos são outros, as óticas de mundo são outras: enquanto o professor recorda o seu tempo de pião e bolinhas de gude, o seu aluno, numa linguagem futurista, fala de Internet, jogos interativos, que estimulam, principalmente, o raciocínio lógico; amarelinha, que as meninas do seu tempo de colegial brincavam no recreio, não seduz mais, pois a onda do momento são os jogos eletrônicos. Torpedo já é coisa do passado para uma geração contagiada pela febre do smartphone, que mantém seus usuários conectados a um mundo infectado pela epidemia das redes sociais.

O avanço é tamanho que Orkut, Twitter e Facebook já estão sendo ultrapassados por outras redes sociais, como WhatsApp e Instagram. E, como o objetivo da tecnologia é romper as barreiras do planeta, plataformas germinam como sementes lançadas em terreno fértil, a exemplo do Pheed, que é o dispositivo mais baixado nos países que definem as tendências da Internet — Grã-Bretanha, Canadá e Estados Unidos. Por exigir apenas dispositivos com o sistema operacional iOS, todos têm acesso a essa porta, que leva ao universo, e, por seguir a mesma linha do Facebook — gerar um ambiente onde ideias e discussões atraem mais e mais seguidores, oferecer maior espaço para texto, possibilitar o compartilhamento de vídeos e até fragmentos de músicas —, proliferou espantosamente.

Temos que admitir: a dependência das crianças e dos adolescentes em relação às tecnologias atingiu o nível de pandemia, e os pais — que perderam o controle e não conseguem dominar o que os filhos acessam na Internet (tanto em casa, no computador, quanto no celular) — e a escola não têm pique para acompanhar esse ritmo, perdem-se na transmissão de conteúdos.

Se a Educação não passar por esse portal para acompanhar o desenvolvimento do aluno, o distanciamento escola-aluno-Educação será inevitável. Pois o aluno já deu a sua sentença: não desembarcará das plataformas que lhe permitem explorar o mundo para pegar carona na carroça do professor e ter que suportar um discurso patético. Já bastam os pais, que vivem na época das válvulas e dos botões… A sua onda é touch screen, comando de voz… Altos papos… Portanto, a Educação não deve olhar para o problema e apontar os pais como responsáveis. É preciso buscar a raiz do problema, e o momento exige inclusão, compromisso mútuo para prender a atenção do aluno no espaço escolar e promover a aprendizagem.

Se a tecnologia aceita compartilhar tudo, a escola tem que criar a sua plataforma, para compartilhar, principalmente, responsabilidades e, assim, promover o envolvimento para alcançar as prioridades da Educação, pois não bastam recursos na escola, projetos e programas, muito menos evitar a reprovação… O que basta é abrir veredas para as possibilidades. Possibilidades que tornem a profissão do Magistério competitiva para atrair os melhores profissionais para a sala. A mira deve ser direcionada para o alvo “Educar com liberdade para a liberdade”. Isso exige preparo, e esse apresto deve ser um processo contínuo, pois formação determina atividades que instruam por meio de valores. Valores que alterem comportamentos.

Educar exige encantos, magias, exemplos… e sabemos que a escola pode fazer mais… Mesmo conscientes de que o sistema não possui recursos para resgatar vidas submergidas no caos social e familiar — pois crianças chegam à escola repletas de problemas: separação dos pais, pedofilia, violência doméstica, drogas, prostituição… A partir desse ponto, a Educação ganha sentido, pois a família se aproxima da escola, formando o conjunto “valores x transmissão de saberes”, e há a complementação de conteúdos e valores.

Atingir esse propósito exige coragem e ousadia para gritar “Basta!”, “Basta!”; exige responsabilidade para se cumprir compromissos… Basta!; reorientar o currículo para canalizar conteúdos e romper o marasmo, as repetitividades que não atraem o aluno… Basta!; desviar-se do pragmatismo, provocando a discussão, e, assim, traçar alternativas para que a Educação atenda à nova demanda social, pois, somente assim, escola, família, sistema e governo não somente falarão o mesmo idioma como cumprirão papéis, e pais aprenderão a grande lição: repensar a participação não só na vida escolar, pois é um relacionamento temporário, mas na vida dos filhos, tendo a consciência de que a vitória ou o fracasso do filho depende em parte da sua participação.

Se sistema e governo não abolirem a velhos paradigmas no espaço escolar, que amplia a distância entre escola e família, e não conciliarem evolução com qualidade, as nossas crianças continuarão sendo vítimas das dificuldades dos pais, e a sociedade prosseguirá no seu contínuo processo de decomposição, pois, ano após ano, receberá o produto final de uma Educação que mais prende do que liberta. O brasileiro ainda não aprendeu a olhar a democracia como o dever do eu e o direito do outro e a cidadania como instrumento que liberta os que ambicionam liberdade, e a Educação prosseguirá de olhos vendados e não divisará que educar para a liberdade é formar cidadãos livres de ranços e preconceitos e capazes de criar asas para voar ao encontro do novo e, assim, usufruir da liberdade de escolher o lugar para edificar o próprio sonho. Afinal, educar para a liberdade exige ensinar com liberdade, e esse mestre em abrir prisões — o professor — precisa ser livre de repressões e ser valorizado como profissional que realiza sonhos; precisa ter espaço apropriado para trabalhar com liberdade e formar cidadãos livres na era high-tech.

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