Edição 49

Lendo e aprendendo

Educação existe, o percurso depende de nós

Eleandra Alievi da Rosa

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Estava lendo, um dia desses, artigos sobre educação e percebi uma variedade de textos sobre limites, autonomia e independência. Notei que, na prática do meu trabalho, também ouço muito sobre esses temas, tanto por parte dos professores como das famílias. Como podemos desenvolver esse crescimento com as crianças em seu dia a dia?

Muitas vezes, dizemos que uma criança é autônoma porque já escova os dentes sozinha, toma banho e vai ao banheiro sem a presença de adultos, liga e desliga o computador, coloca filmes no DVD, escolhe sua roupa, ou seja, faz coisas de seu interesse. Falamos também que, quando ela expressa o que sente, diz o que não gosta, pede o que deseja, está sendo independente, pois já se conhece e sabe suas necessidades.

Entretanto, quando quer algo que exige maior independência,como pegar um copo de água, preparar uma fruta para comer, guardar seus brinquedos, arrumar seu quarto, solicita à mãe ou à babá. Outras crianças já são dependentes do celular ou necessitam de um brinquedo novo, porque os que já foram usados não surtem mais o efeito de nova companhia. Será que a independência e a autonomia só são possíveis quando elas querem?

Acreditamos também que estamos estabelecendo limites quando as colocamos de castigo e que, quanto maior a intensidade — como ficar uma semana sem assistir à TV, por exemplo —, melhor será o resultado. E quando acaba o castigo e as crianças repetem o que fizeram sem mesmo lembrar que já estiveram de castigo por conta daquele comportamento?

É, a educação está muito difícil! Essa frase é dita frequentemente por parte daqueles que educam. De certa forma, é possível compreender a angústia que às vezes sentimos, afinal ouvimos de especialistas que “fazer isso” pode criar um trauma, “inibir aquilo” pode gerar um bloqueio. Então, como podemos favorecer a educação com autonomia, independência, limites, construção de ética, valores, respeito e tantas outras qualidades que esperamos encontrar quando essas crianças se tornarem adultos?

Segundo Freud, a criança nasce e busca, pura e simplesmente,o prazer. É na satisfação de seus desejos que ela se move para o mundo, para o novo, para o desafio, para a aprendizagem, para as relações. Busca o prazer daquilo que quer, e, por isso, dizemos que ela é egocêntrica. O desejo de satisfação se choca com as exigências do mundo real, e a preocupação em adaptá-lo à realidade é dos adultos cuidadores. Uma criança de 2 anos, por exemplo, não sabe que pode falar em vez de morder, gritar ou chorar. Ela só aprende isso quando um adulto intervém várias vezes, mostrando outra maneira de expressar seus sentimentos.

A sociedade geralmente contesta o autoritarismo em relação à educação. Entretanto, é necessário nos permitirmos ser autoritários com nossas crianças para que elas consigam construir seus limites e saber o que é consentido e o que é proibido. A angústia que é gerada quando elas “tudo podem”, “tudo querem”, “tudo sabem” é facilmente reconhecida quando se jogam no chão ou choram para pedir algo. A criança pode desejar muitas coisas, mas cabe aos pais filtrarem seus anseios.

Sabemos que cada criança é diferente. Vygotsky defende a individualidade na construção da identidade e da personalidade, e isso é facilmente reconhecido quando as crianças iniciam a vida escolar ou ingressam em um grupo novo.

Quando os pais me falam que seus filhos mudaram de comportamento em casa depois que iniciaram a escola, digo: “Que bom que isso está acontecendo”. A princípio, percebo um “ar” de “como assim?”.

A criança, por ser única e subjetiva, percebe, nos amigos, atitudes, falas, comportamentos que nunca havia visto. Naturalmente,repete a experiência para ver se consegue, mas, principalmente para saber se pode, se é permitida, autorizada ou aprovada. Quem determina essas possibilidades são os responsáveis. Isso é educação, formação, construção de limites, autonomia e independência. Não deixe para dizer o que pode e o que não pode para seu filho quando ele estiver na adolescência, pois ele poderá estar experimentando outras coisas que não serão tão fáceis de administrar. “Faze o que tu podes e não disperses nenhum tempo lamentando sobre aquilo que tu não podes realizar”, diz Santa Júlia Billiart.

O limite é construído diariamente, partindo de cada atitude que possa ser mudada na criança. Nesse momento, é importante dar significado a ele, fazendo a criança, mais que pensar, sentir a consequência de seu comportamento.

Algumas ideias podem ser: tirar o direito de alguma coisa que seja importante para a criança e que esteja ligada ou próxima ao comportamento. O limite do castigo é também para os pais, pois eles terão que suportar o filho pedir para quebrá-lo. Portanto, é melhor que ele fique um dia sem ver o desenho de que mais gosta — e o responsável deve sustentar essa decisão — do que estender essa situação para dias que não serão suportáveis para os pais, que acabam cedendo e perdendo, assim, a credibilidade e a autoridade. Outra sugestão importante são as regras. Toda criança precisa de regras para construir seus limites, e, mais do que isso, estas precisam ser lembradas o tempo todo. Para que ela consiga se organizar internamente, diminuir sua ansiedade, ficar mais tranquila, é indispensável a rotina, pois é na certeza de que irá ao parque, de que verá seu desenho, de que terá a hora de brincar com os brinquedos que ela se acalma. Portanto, as regras estão dentro da rotina, que também contempla os seus compromissos, como guardar os brinquedos, lavar as mãos, tomar banho, entre outros.

A educação exige um caminho e um percurso. Não basta saber, olhar, observar o caminho se não passar por ele, viver em seu sentido ou sua direção. Vamos direcionar nossas atitudes educadoras com a razão e a emoção, dizendo o “não” com amor, demonstrando bondade com firmeza. Talvez assim, eduquemos sem culpa crianças autônomas, independentes, que saibam o que querem, quando podem e como conseguem.

Eleandra Alievi da Rosa é psicóloga clínica e psicóloga organizacional da Rede Notre Dame de Ensino (local) e do Colégio Menino Jesus (local). É formada em Psicologia (Universidade de Passo Fundo – UPF/RS), Psicopedagogia (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj/2006) e Gestão Estratégica de Recursos Humanos (Universidade Federal Fluminense – UFF/2009).

Fonte: www.paralerepensar.com.br

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