Edição 38

Matérias Especiais

Educação Física Escolar: possibilidades de inclusão

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Ana Zélia Belo1
Roberta Gaio2

Introdução

Este artigo pretende trazer à baila uma discussão atual e necessária, que é a inclusão de crianças e jovens com deficiências de diversos tipos em aulas de Educação Física no Ensino Fundamental. Conhecendo, entendendo as possíveis limitações que esses seres possam apresentar e explorando as possibilidades de movimentos que emanam do acreditar, incentivar, descobrir, criar e recriar de cada professor ou professora nessas aulas, não só essas, mas todas as crianças e jovens podem se beneficiar com a convivência entre os diferentes.

A Educação Física como disciplina escolar tem sido foco de discussão há muito tempo, muitos são os estudiosos e estudiosas que levantam problemas relacionados com o planejamento pedagógico, com o descompromisso da relação teoria–prática, com a existência de uma disciplina que está condicionada ao clima — quando chove, não há aula —, com as dispensas que tiram de sala de aula alunos e alunas que trabalham, entre outros.

Discutir a possibilidade de ministrar a disciplina de Educação Física na perspectiva de atender todos os alunos e todas as — alunas entendendo-os/as a partir de suas possíveis diferenças e — trabalhar considerando-os/as iguais em relação ao direito de se movimentarem e estimulando as vivências em atividades motoras diversas é o que nos motiva a escrever este texto, tendo como pano de fundo os Parâmetros Curriculares Nacionais e os temas transversais que são apresentados nesses documentos.

PCN, Temas Transversais e Educação Física

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), segundo consta do próprio documento, foram elaborados procurando respeitar a diversidade humana, com metas a democratizar, humanizar e diversificar a prática pedagógica em Educação — Educação Física.

Até que outro documento seja o alicerce do planejar e agir pedagogicamente nas diversas áreas, os/as docentes devem se orientar pelos princípios de inclusão, pela diversidade e pelas categorias de conteúdos presentes nos PCN quanto à prática pedagógica em Educação Física no Ensino Fundamental.

O que, para quem, como e por que ensinar devem surgir de uma reflexão com base nesses questionamentos, a partir do perfil de cada escola e dos/das discentes em especial, culminando com o planejamento e a conseqüente ação pedagógica que contribua com a emancipação intelectual de crianças e jovens, além de estimular o crescimento destes em harmonia com os outros, com a natureza e com o seu próprio eu.

Através da Educação Física, dos seus conteúdos de esportes, jogos, lutas e ginásticas, bem como das atividades rítmicas e expressivas, os alunos e as alunas tomam conhecimento sobre o corpo e, em aulas com temáticas de saúde, ética, meio ambiente, pluralidade cultural, sexualidade ou trabalho e consumo, podem ser estimulados a resolverem problemas e se tornarem cidadãos ou cidadãs, como patrimônio da sociedade civil.

Todos/as, sem restrição, podem e devem experimentar ambientes, onde os movimentos são explorados como cultura corporal, com significados, sentimentos, emoções, individualmente ou em pequenos e grandes grupos. E os professores e as professoras devem estar preparados/as para entender e atender a todos, inclusive crianças e jovens com alguma deficiência.

“Bem-vindo à escola”, é o que nos coloca Santos (2006, p. 129) em sua pesquisa sobre inclusão, pontuando a escola que habita os sonhos de educadores e educadoras do imenso território brasileiro:

A escola que pretendemos para a nossa comunidade é a escola crítica, criativa e de qualidade, espaço de cultura e de conhecimentos, capaz de formar o cidadão crítico e consciente, transformador da realidade em que vive. Cabe a ela contribuir para a formação da cidadania, apresentar soluções para os problemas fundamentais da sociedade, planejar, executar e avaliar a prática educativa [...] Cabe à escola também zelar pelo bom relacionamento entre as pessoas e os grupos, valorizar as relações interpessoais, repensar a atuação dos educadores e a democratização do saber.

Ou seja, os parâmetros servem para fortalecer a importância do trabalho em grupo, das relações interpessoais aluno/a–aluno/a e professor/a–aluno/a e um melhor desenvolvimento da prática pedagógica e educativa, norteando a construção do conhecimento.

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Aprendendo com as diferenças

Não é atual nem novidade a existência das diferenças, nem mesmo daquelas que aparentam ser mais agudas, como, por exemplo, as diversas deficiências, porém a idéia de que essas diferenças possam ser “[...] condição imprescindível para entender como aprendemos e como percebemos o mundo e a nós mesmos” (MANTOAN, 2006, p. 189) é uma situação contemporânea, polêmica e que ainda suscinta discussões e gera incertezas, dúvidas e inseguranças.

Acreditar que o espaço denominado escola possa receber todas as diferenças — culturais, sociais, étnicas, religiosas, de gênero, biológicas, enfim, a diversidade humana —, valorizando-a no processo ensino–aprendizagem é assumir esse espaço como “[...] um lugar de ser, de viver e de crescer” (MANTOAN, 2006, p. 184).

Há muito tempo, a escola deixou de ser um espaço somente para o desenvolvimento cognitivo daqueles que a freqüentam; hoje essa instituição deve ser encarada também como um ambiente fundamental para ampliação das relações sociais. Assim, igualdade e diferença devem conviver em harmonia nessa instituição, pois todos, sem exceção, têm o direito à Educação. E, para isso acontecer, precisamos estar preparados para reconhecer e valorizar as diferenças, sem negá-las nem discriminá-las.

No modelo educacional elitista de nossas escolas, crianças e jovens são vistos como iguais em tudo, muitas vezes negando que somos seres diferentes, que cada um tem suas particularidades e potencialidades. É necessário “[...] reconhecer a igualdade de aprender como ponto de partida e as diferenças no aprendizado como processo e ponto de chegada” (MANTOAN, 2006 p. 20).

Buscar no diferente o reconhecimento da identidade, da troca, do aprendizado, vendo cada aluno/a como único/a, nos torna mais humano e capaz de assumir a responsabilidade de encarar o desafio de criar propostas em Educação Física que levem os/as discentes a buscarem a resolução de problemas quanto à sua realização e vivência. Isso é promover a inclusão, todos vivendo no mesmo espaço, não somente juntos, mas com o mesmo propósito e executando as mesmas atividades.

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Inclusão: um novo paradigma de Educação

Segundo Mantoan (2004), o paradigma da inclusão surge para aprimorar a Educação escolar, beneficiando os alunos com ou sem deficiência, a partir de uma pedagogia focada no/a educando/a, reconhecendo suas diferenças, explorando suas potencialidades e dando oportunidade de vivências cognitivas e sociais para todos.

Segundo Freitas (2006, p. 167):

Há, na educação inclusiva, a introdução de outro olhar. Uma maneira nova de se ver, ver os outros e ver a Educação. Para incluir todas as pessoas, a sociedade deve ser modificada com base no entendimento de que é ela que precisa ser capaz de atender às necessidades de seus membros. Assim sendo, inclusão significa a modificação da sociedade como pré-requisito para a pessoa com necessidades especiais buscar seu desenvolvimento e exercer sua cidadania.

Assim, romper com uma prática, na qual alunos e alunas com deficiência deixem de ser espectadores/as nas aulas de Educação Física, que possam participar ativamente num espírito cooperativo, de aprendizado mútuo e de trocas, é o que propomos a partir do reconhecimento da inclusão escolar como princípio a alicerçar a Educação neste século. A escola deve ser preparada para isso, e todos irão se beneficiar com essa transformação, isto é, alunos e alunas com e sem deficiências, professores/as e a sociedade em geral.

No princípio da inclusão, a diversidade de cultura, de raça, de cor, de deficiências faz parte do universo social, cultural, familiar, escolar de crianças e jovens em momentos de estudo e aprendizado sobre a realidade social, sobre a vida.

O fenômeno surgiu em defesa da pessoa com deficiência na década de 1980, quando a Organização das Nações Unidas declarou, em 1981, o ano internacional das pessoas com deficiência, e a cada encontro internacional, nacional, municipal e local, buscava-se o mesmo objetivo. Um dos marcos principais se deu na Declaração de Salamanca, na Espanha, no ano de 1994, fortalecendo o objetivo de uma educação para todos.

Em se tratando de inclusão escolar, o objetivo é que todos/as os/as alunos/as em condição de deficiência estejam na escola regular, e o sistema escolar, adaptado às suas particularidades.

Que o olhar do professor ou da professora passe a ser de entendimento, aceitação e atendimento aos diferentes e de rejeição ao padrão preestabelecido por uma sociedade que ainda enaltece um corpo perfeito. Buscar sempre uma equiparação de oportunidades, mostrando que todos têm o direito de estar incluídos, e não somente integrados, nas aulas de Educação Física é o papel de professores e professoras nesse novo paradigma de Educação.

Explorar os conteúdos da Educação Física com uma metodologia adequada, com criatividade, e motivar todas as crianças e os jovens em suas aulas, oferecendo possibilidades dos alunos ou das alunas em condição de deficiência serem incluídos no universo escolar, participando das diversas atividades motoras, de dança, jogos, lutas, ginásticas ou esportes, é o mote dessa discussão, que se diz emergente e necessária para a construção de uma Escola Inclusiva.

Nas palavras de Mantoan (2006, p. 186), a representação dessa escola:

Mostra-se útil aos que ainda não compreenderam o que é primordial na escola: a experiência com as diferenças, mas sem exclusões, diferenciações, restrições de qualquer natureza e sempre reconhecendo-as e valorizando-as como essenciais à construção identitária.

Uma escola aberta às diferenças é o desafio posto para este século: uma escola na qual o princípio da inclusão seja o leme a orientar sua organização.

Assim, a Educação Física escolar deve ter como objetivo fundamental e central os/as diversos/as alunos e alunas. As aulas, nessa disciplina especificamente, devem atender a todos/as a partir do reconhecimento das limitações que emanam das características de cada corpo, procurando estimular as suas potencialidades, favorecendo as trocas de conhecimento e respeitando a pluralidade cultural existente em uma sala de aula.

É necessário acreditar que, diferentes, somos todos. Limitados somos sempre em relação a alguma coisa ou a alguém! Misteriosos somos todos, porque insondáveis, inconclusivos e surpreendentes somos como seres humanos (GAIO, 2006, p. 173).

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Apontamentos finais

Neste momento, ao encerrarmos este pequeno bate-papo sobre um assunto tão complexo, queremos apresentar dicas para que os profissionais de Educação Física possam vislumbrar a possibilidade de uma ação pedagógica voltada às diferenças, numa perspectiva inclusiva:

icone quadrado As pessoas com deficiências já demonstraram que têm capacidade para aprender habilidades em diversas modalidades esportivas, haja vista a participação destas nos Jogos Paraolímpicos; então, deve-se valorizar esse fato em aulas de Educação Física Escolar.

icone quadrado Preparar-se cada vez mais para oferecer Educação de qualidade, o que significa fazer adaptações estruturais e pedagógicas na escola e em aulas, inclusive na disciplina de Educação Física.

icone quadrado Participar ativamente das reuniões com meta a colaborar com a criação de uma equipe multidisciplinar em prol da Educação Inclusiva e da construção de uma Escola Inclusiva.

icone quadrado Pesquisar, estudar, seguir modelos já concretizados e de sucesso.

icone quadrado Se precisar, fazer parcerias com outras instituições, em busca de atendimento especializado, a fim de estimular o desenvolvimento motor das crianças e dos jovens com deficiência, buscando cada vez mais torná-los capazes de vivenciar propostas em aulas regulares de Educação Física.

icone quadrado O esporte adaptado praticado em outros espaços pode ser um fator impulsionador para a presença de crianças e jovens com deficiências em aulas regulares de Educação Física, mas jamais poderão substituir o convívio desses alunos e dessas alunas com os/as demais colegas da classe.

icone quadrado O/a professor/a deve ser criativo/a, atualizado/a, organizado/a e planejar atividades para promover a inclusão com aprendizagem, pois não basta os alunos ou as alunas com deficiências estarem junto aos/às demais, devem estar participando ativamente das atividades propostas em classe.

icone quadrado Não basta questionar os possíveis recursos que não vêem para a realização da inclusão, devemos nos unir para brigar ostensivamente pela construção da Escola Inclusiva.

Referências

GAIO R., MENEGHETTI G. K. R. Caminhos Pedagógicos da Educação Especial. Petrópolis: Vozes, 2004.
GAIO, R. Para Além do Corpo Deficiente: Histórias de Vida. Jundiaí: Fontoura, 2006.
FREITAS, S.N. A Formação de Professores na Educação Inclusiva: Construindo a Base de Todo o Processo. In: RODRIGUES, D. Inclusão e Educação: Doze Olhares sobre a Educação Inclusiva. São Paulo: Summus, 2006.
MANTOAN, M. T. E. Caminhos Pedagógicos da Educação Inclusiva. In: GAIO R., MENEGHETTI G. K. R. Caminhos Pedagógicos da Educação Especial. Petrópolis: Vozes, 2004.
MANTOAN, M. T. E., PRIETO, R. G. Inclusão Escolar: Pontos e Contrapontos. 2. ed. São Paulo: Summus, 2006.
MANTOAN, M. T. E. O direito de ser, sendo diferente, na escola. In: RODRIGUES, D. Inclusão e Educação: Doze Olhares sobre a Educação Inclusiva. São Paulo: Summus, 2006.
RODRIGUES, D. Inclusão e Educação: Doze Olhares sobre a Educação Inclusiva. São Paulo: Summus, 2006.
SANTOS, M. T. T. dos. Bem-vindo à Escola: a Inclusão nas Vozes do Cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

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