Edição 107

Espaço pedagógico

Educação Infantil: a importância da PRESENÇA do PROFESSOR na hora do parquinho

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa

O ato de brincar na vida de uma criança é como o dormir na vida do adolescente, ambos são importantes e necessários para o desenvolvimento físico, afetivo, emocional e cognitivo. O brincar desenvolve o raciocínio, a imaginação, a comunicação e a criatividade. É por meio do brincar que a criança expressa os seus sentimentos e aprende a olhar para si e para o outro.

Segundo Vygotsky (1998, p. 81),

O brincar é fonte de desenvolvimento e de aprendizagem, constituindo uma atividade que impulsiona o desenvolvimento, pois a criança se comporta de forma mais avançada do que na vida cotidiana, exercendo papéis e desenvolvendo ações que mobilizam novos conhecimentos, habilidades e processos de desenvolvimento e de aprendizagem.

Para Oliveira (2000, p. 67),

O brincar não significa apenas recrear, é muito mais, caracterizando-se como uma das formas mais complexas que a criança tem de comunicar-se consigo mesma e com o mundo, ou seja, o desenvolvimento acontece através de trocas recíprocas que se estabelecem durante toda a sua vida. Assim, através do brincar a criança pode desenvolver capacidades importantes como a atenção, a memória, a imitação e a imaginação, ainda propiciando à criança o desenvolvimento de áreas da personalidade como afetividade, motricidade, inteligência, sociabilidade e criatividade.40

É perceptível, nas reflexões de Vygotsky e Oliveira, que o brincar transcende a mera satisfação dos desejos infantis. A brincadeira infantil auxilia no processo de constituição do ser (sujeito), favorecendo a criação de vínculos mais efetivos com o outro, a autonomia e a construção do conhecimento. É preciso que pais e professores tenham a convicção de que a criança aprende na medida em que brinca. Daí a importância de se compreender a necessidade do brincar na Educação Infantil, não apenas com o objetivo de recrear, mas com a certeza de que através da brincadeira se promove aprendizagem.

Para ratificar o descrito acima, Fernandez (2001, p. 37) destaca a inter-relação entre a aprendizagem e o brincar ao afirmar que:

Aprender é apropriar-se da linguagem, é historiar-se, recordar o passado para despertar-se ao futuro, é deixar-se surpreender pelo já conhecido. Aprender é reconhecer-se, admitir-se. Crer e criar. Arriscar-se a fazer dos sonhos textos visíveis e possíveis. Só será possível que as professoras e os professores possam gerar espaços de brincar-aprender para seus alunos quando eles simultaneamente os construírem para si.

A brincadeira é uma atividade social e cultural que precisa ter a sua relevância reconhecida pelos docentes no cotidiano da Educação Infantil. É visível que o tempo destinado ao brincar nas instituições de ensino pré-escolar está deixando de fazer parte de sua rotina para dar lugar à antecipação de ações que deveriam acontecer nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Diante desse contexto, faz-se necessário trazer presente aqui a importância do parquinho em todas as instituições de ensino que trabalham com a Educação Infantil e, junto a isso, a presença marcante dos docentes nesse momento, pois é na hora do parquinho que as crianças demonstram sua espontaneidade ao brincar com os colegas.

parquinho escolar estimula a criatividade, os vínculos sociais e afetivos, a compreensão de regras no momento do compartilhamento de espaços. Esse momento favorece, também, o desenvolvimento cognitivo, quando a criança cria suas próprias histórias, quando explora as cores e as texturas, quando compreende novos conceitos, como: muito e pouco, grande e pequeno, alto e baixo, e, principalmente, quando desenvolve sua linguagem oral.

No que tange ao desenvolvimento motor, o parquinho facilita-o, pois, ao subir e descer nos brinquedos, pular, andar, correr e rolar e pisar na areia, as crianças desenvolvem suas habilidades motoras.

Nesse contexto de ludicidade e aprendizagem, torna-se de suma importância o acompanhamento e a mediação do professor nas brincadeiras, ora fazendo parte das mesmas, ora observando o desenvolvimento e a socialização no intuito de registrar as evoluções das crianças nas interações, na criatividade, na comunicação, no conhecimento de mundo e no reconhecimento de si e do outro.

A importância da ação direcionada e intencional do professor na hora do parquinho é descrita por Kishimoto (2006, p. 36), ao afirmar que:

Quando as situações lúdicas são intencionalmente criadas pelo adulto com vistas a estimular certos tipos de aprendizagem, surge a dimensão educativa. Desde que mantidas as condições para a expressão do jogo, ou seja, a ação intencional da criança para o brincar, o educador está potencializando as situações de aprendizagem.

Ratifica-se a partir da citação acima que o parquinho deve ser um lugar de ressignificações e aprendizagens tanto para o professor como para o aluno. Para o professor, na medida em que aprende a dar sentido à sua presença no momento recreativo (parquinho) e, para o aluno, na vivência efetiva daquele espaço na interação com o objeto de aprendizagem e com os seus pares.

Para que a hora do parquinho na Educação Infantil se torne um ato intencional da prática docente, é necessário estudo, vontade e planejamento. O momento do parque deve ser pensado e detalhado no plano de aula para que, assim, ele passe a ter o seu devido valor. Nesse momento tão enriquecedor e importante para o desenvolvimento das crianças, é de grande relevância a observação contínua e permanente dos docentes presentes não somente para supervisionar, mas principalmente para intervir, acompanhar e orientar as crianças nas brincadeiras e no uso dos brinquedos.

O parque da escola é um espaço formal de educação e, desta feita, precisa ter o seu horário estendido dada a sua importância, pois, além das atividades livres das crianças, é necessário que também se tenham momentos de atividades direcionadas pelos docentes, uma ou duas vezes por semana, planejadas conforme o perfil das turmas e a idade das crianças.

Se a hora do parque é de fundamental importância para o desenvolvimento de diversas habilidades da criança, é natural que nesse momento não haja espaço para o “desleixo” pedagógico, ou seja, em vez de acompanhar esse momento tão rico na vida dos alunos, os professores aproveitam para colocar em dia o papo com os colegas, para verificar suas redes sociais ou para telefonar para seus amigos e/ou familiares.

Outro aspecto que merece destaque é a avaliação das crianças nesse momento tão importante para o desenvolvimento cognitivo, socioafetivo e psicomotor. Então, pergunto: em quais registros de avaliação, a hora do parquinho aparece? Se ele não aparece, a partir de agora precisa aparecer. E, se já faz parte, a partir de agora precisa ser enaltecido. Seja nas fichas de desempenho, nos pareceres descritivos ou portfólios.

Para o momento do parque fazer parte dos registros de avaliação, é preciso primeiramente compreender que esse momento é educativo e, como tal, precisa de planejamento e reflexão:

• Do que as crianças estão brincando na hora do parque?

• Quais brinquedos mais gostam? E quais menos gostam? Por quê?

• Que tipo de atividades podem atrair meus alunos na hora do parque?

• Como posso estimular a criatividade e a curiosidade das crianças?

• Quem devo observar mais no parque hoje? Por quê?

• O que devo observar? O que de mais relevante devo registrar?

• O que devo observar? O que de mais relevante devo registrar?

• O que posso fazer para desafiar meus alunos?

O professor precisa e deve assumir uma postura mais desafiadora, acolhedora e muito mais mediadora na hora do parque. É preciso observar mais, escutar mais e direcionar menos.

Para Vygotsky apud Oliveira (1995, p. 53),

[...] a mediação feita por um parceiro mais experiente é de grande influência na construção do pensamento e da consciência de si, que vai emergindo do confronto com os parceiros nas situações 41cotidianas, via imitação do outro ou oposição a este. É algo, pois, em constante modificação. O indivíduo assim forma sua conduta e sua personalidade a partir dos conflitos que estabelece com o meio a cada momento.

As crianças se desenvolvem nas relações com os colegas e por meio da mediação do professor. Sabe-se que é através dessa inter-relação com o outro e com o objeto de conhecimento que a criança aprende. Esse processo também é notório na hora do parquinho.

Diante da visível importância do parque na Educação Infantil, toda escola que se esmera pela sua qualidade educacional precisa se estruturar e oferecer o momento da vivência no parquinho. Essa estrutura não deve partir apenas do contexto de organização do espaço e de brinquedos, mas, principalmente, no que diz respeito à formação docente, uma vez que todos (gestão e docentes) precisam compreender que o professor deve ser professor naquele momento, e não apenas um cuidador de crianças. Sobre isso, é necessário refletir o que Wajskop (2005, p. 38) afirma sobre a presença efetiva do professor nas brincadeiras “Ora como observador e organizador, ora como personagem que explicita ou questiona e enriquece o desenrolar da trama, ora como elo de ligação entre as crianças e o objeto”.

Sobre a participação ativa do professor, o Referencial Curricular para a Educação Infantil (1998, vol. 1, p. 58) destaca a importância do observar e registrar:

A observação e o registro se constituem nos principais instrumentos de que o professor dispõe para apoiar sua prática. Por meio deles, o professor pode registrar, contextualmente, os processos de aprendizagem das crianças.

Enfim, existem mil e uma maneiras de tornar efetiva e marcante a presença do professor no processo de aprendizagem das crianças, incluindo, obviamente, nesse processo, a hora do parquinho como um lugar de acompanhamento, vivências e aprendizagens.

É preciso lembrar sempre que “brincando se aprende”: “Aprende a aprender, a ser, a fazer e a conviver”.

 

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional, Mestra e doutoranda em Ciências da Educação.

Referências:

FERNÁNDEZ, A. O saber em jogo: a psicopedagogia propiciando autorias de pensamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.

KISHIMOTO, T. M. Brinquedos e brincadeiras na Educação Infantil. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15860&Item id=1096> Acesso em: 21 de jan. 2019.

MEC. Referencial Curricular para Educação Infantil. Vol. 1, 1998.

OLIVEIRA, Vera Barros de (Org.). O brincar e a criança do nascimento aos seis anos. Petrópolis: Vozes, 2000.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

WAJSKOP, G. Brincar na pré-escola. 6. ed. São Paulo: Cortez, 200

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