Edição 24

Professor Construir

Educação sem Limites (Armando Correa de Siqueira Neto*)

limite01A coisa mais difícil que existe nesta vida é educar um ser humano, o que demanda a nossa atenção por um determinado tempo, depois do qual deixamos de perceber que, até o último momento, podemos dar e receber educação.

Alguns fatores apontam as causas da falta de limites na educação das crianças de um modo geral, com destaque para a ausência dos valores morais, que sumiram do nosso cenário, haja vista o enorme número de casos de corrupção ininterrupta na política, nas empresas, igrejas, etc., apresentados na mídia, em que dificilmente a lei consegue ser cumprida. Ademais, instaurou-se na cultura a idéia de que ser esperto é a grande jogada, e o contrário, uma tremenda burrice. Então, por qual razão seguir regras?

Outro ponto importante vem a ser a ausência dos pais na vida da criança em virtude da carga horária dedicada ao trabalho, deixando a convivência educacional aos cuidados da escola, desde os primeiros momentos, nas creches e nas instituições educacionais, públicas ou particulares. Essa necessidade familiar gerou um sentimento de culpa nos pais, que, para compensar tais circunstâncias, acabam sendo permissivos em demasia com os seus filhos, o que impede, por conseguinte, momentos de educar e proporcionar os valores que devem ser seguidos, derivados dos próprios valores existentes nos pais e na constituição da personalidade da criança. Contudo, abre-se nova polêmica nesse rastro de educação sem limites ao lembrarmos que muitos pais, hoje com filhos adolescentes e outros adultos, vêm de uma geração na qual se pregou, por muitos anos, a idéia de que a liberdade total era a melhor saída, contrapondo a idéia de repressão sociohistórica vivida por eles em sua juventude, o que acarretou em juízo de valor distorcido, vindo de um radicalismo social para outro, sem fazer escola desta forma de se educar. Não houve ponderação, e, conseqüentemente, faltou um plano mediano que fosse sendo ajustado à medida que as demandas surgissem. Simplesmente foi-se estabelecendo esse modelo de educação, até o momento em que se evidenciaram os desastrosos resultados.

Outro ponto a ser pensado é o exagero que os pais têm com relação aos traumas que poderão causar, caso venham a ser mais enérgicos na educação dos seus filhos. Usar o bom senso e algumas regras para estabelecer limites na educação infantil não arranca pedaço de ninguém. Faz-se necessária a consciência de que, para educar, é preciso esforço, dedicação, perseverança e paciência, muita paciência.

Nas escolas, a relação entre o aluno e o professor chegou a uma condição muito favorável, quando entendemos que a participação do aluno está maior, diferentemente de outras épocas, em que o papel se restringia apenas a ouvir e a guardar as informações que chegavam.

A criança de hoje está mais bem estimulada e responde com maior agilidade ao meio, o que lhe confere a boa posição de ser participante nos grupos sociais, em casa e na escola, especialmente. Todavia, dada a falta de condução, por conta da educação sem limites, a criança acaba se tornando um canhão sem direção, que atira para vários lados, ao acaso, e acerta em quem estiver na trajetória e em si mesma, invariavelmente.

Para ilustrar esse contexto da educação sem limites, relatarei uma cena que vi na sala da diretoria de uma escola do governo. De um lado, encontrava-se a vice-diretora da instituição, que descrevia o descaso de um aluno com relação aos estudos, seu comportamento rebelde e desrespeitador mediante as regras daquela escola, exaltando o fato de que o menino, de aproximadamente onze anos, já havia “bombado” em ano anterior e que, em seu boletim, constavam muitas faltas. De outro lado, a mãe, estupefata com aquelas faltas, tentando compreender o furacão que se lhe apresentava. Ao lado da mãe, que estava sentada, encontrava-se sua filha menor, à frente do referido estudante, e, ao lado dele, outra irmã, presumivelmente mais velha. O quadro estava formado; o garoto permaneceu imóvel entre as pessoas de sua família e apenas comentou, em tom humilde, que a direção da escola lhe perseguia há muito tempo e que ele era bonzinho. Apesar da postura de cobrança por parte da diretoria da escola, é quase impossível obter do aluno um comportamento adequado, uma vez que lhe falta o direcionamento educacional, fato sutilmente revelado pela mãe, quando alegou não ter tempo de poder criar o próprio filho, permanecendo ausente em virtude do trabalho.

Tal situação é comum e é clara quanto às dificuldades existentes para todas as partes: para o aluno, que precisa da educação primordial de ser acompanhado em casa por seus responsáveis, mas não a tem; para os pais, que não têm tempo e sentem a dificuldade se ampliar conforme o tempo passa, desestimulando-se, cada vez mais, a ter que mexer com esta situação; e para a escola, que acaba arcando com tal responsabilidade sem ter estrutura para isso. A situação dessas várias crianças e de suas famílias é caótica, não existindo meio-termo para classificar o que se passa nessa inversão de valores, em que inexiste a educação pautada em acompanhamento e com limites. Muitos pais crêem que o tempo dará jeito na questão, deixando à sorte o futuro de seus filhos.

O exercício do viver só é realizável vivendo na prática, e o mesmo ocorre com a educação. Portanto, é preciso arregaçar as mangas e assumir o papel de orientador, de guia, de educador. Começar, antes tarde do que nunca, a se envolver nesse processo importante e determinador da vida do ser humano, cavando tempo e espaço para essa empreitada. Sempre que desejamos muito alguma coisa, damos um jeito no tempo e espaço para alcançá-la. O que nos impede de lutar por essa causa mais do que nobre? Qual medo existe em tentar educar os próprios filhos?

Como em qualquer situação da vida, haverá tropeços, que darão lugar ao adequado proceder conforme a prática e a persistência dessa convivência. Os rumos poderão ser diferentes e, certamente, o serão. Outros benefícios virão naturalmente, como um maior sentimento de amor-próprio e, em muitos casos, a unidade familiar. Mas é preciso começar, tentar, fazendo acontecer. Confie em si mesmo e mude o cenário, assumindo as responsabilidades e transmitindo muitos valores aos seus filhos por via de uma educação que dá segurança e conforto, pois todos nós sempre desejamos isso.

*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, consultor, conferencista e escritor. Desenvolve treinamentos. É mestrando em Liderança.
E-mail: selfpsicologia@mogi.com.br

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