Edição 110

Profissionalismo

EDUCATIO OU EDUCTIO?

Ednaldo Ferreira de Amorim

A educação está ligada à moralidade e à cultura, que determinam os valores impostos pela sociedade. Esses elementos são importantes para que o homem se torne mais humano. Todavia, sempre existirá uma relação intrínseca entre o desejo e a possibilidade do gozo e essa moralidade usada como defesa da sua própria sexualidade.

Para a Pedagogia, denominada por Camargo de Ortodoxa (2006), educação é a formação do indivíduo por meio de conhecimentos e experiências culturais, tornando-o capaz de atuar no meio social e transformando-o de acordo com as necessidades da coletividade. Em seu livro Educar: uma questão metodológica?, afirma que, para a Psicanálise, “O ideal de uma educação tem a ver com uma espécie de fertilização identitária que permite ao sujeito a criação de uma existência para além do aprisionamento especular, por isso subversiva e transcendente, capaz de viabilizar ao sujeito o delineamento de um projeto próprio de vir a ser, o que fará dele autor de singular subjetividade autoproduzida entre as vicissitudes da vida entre sujeitos”.31

Essa ideia nos aproxima do campo pedagógico, ao se utilizar do olhar psicanalítico, para explicar o que significa “crença ilusória pedagógica”, ou seja, acreditar que a ação educativa possa ser desenvolvida de maneira controlável, racional e consciente, supondo que os componentes didáticos e metodológicos possam resolver tudo e para todos no que diz respeito ao processo de ensino. Entendimento que desconsidera a existência do aparelho psíquico e da interferência do inconsciente em todas as ações e pensamentos do sujeito.

A Pedagogia como Educação Ideal pressupõe que o ato educativo ocorre na comunicação e transmissão de conhecimento única e exclusivamente pela via consciente e racional. O que Camargo contesta, ao colocar “A inevitável presença do inconsciente no meio escolar”, que alerta para a importância de o professor considerar a ação do inconsciente na constituição do sujeito, bem como da escuta para a captação do imprevisível que ocorre nas trocas intersubjetivas.

Educação não é uma questão de método, mas simbólica, de estilo, que representa uma marca singular do sujeito, a forma como o professor consegue inspirar e contagiar os alunos com a sua paixão pelo conteúdo que transmite. E isso não se aprende em cursos de formação de professores, pois depende da história de vida de cada sujeito.

O professor deseja e contagia o aluno a desejar também. Essa busca pelo amor do outro, permeada pela linguagem, no campo do inconsciente, permite as transmissões simbólicas. Eis aí o sujeito da psicanálise possível de ser inoculado pelo desejo de outros.

Impasses subjetivos aos quais está exposto o aluno — sujeito único do desejo — podem dificultar suas aprendizagens, ora específicas, ora multidisciplinares. A escuta de um suposto sujeito do desejo que, na maioria das vezes, posiciona-se muito além das supostas deficiências pedagógicas parte de pretextos pedagógicos, de conteúdos predeterminados, de ideias e raciocínios a serem construídos ou ensinados e considera o aparecimento repentino e fugidio de certos ditos e atos do sujeito que podem apontar para “chaves” que acessam possíveis processos frutíferos em aprendizagens além de pedagógicas.

O arcabouço psicanalítico e o estudo dessa teoria alertam a quem estuda para alguma forma diferenciada de escuta e, consequentemente, de algum manejo, o que pode ser interessante ao educador, já que a relação aluno-professor é marcada, também, pela transferência. Ignorar ou desconsiderar certos discursos recorrentes — seja dos alunos, colegas, pais ou profissionais da escola — poderá significar a perda da oportunidade de recolher um tesouro que emerge por alguns instantes e rapidamente imerge novamente. A pedagogia metodológica, pretensamente científica, com base nas psicologias, não percebe esses momentos, os quais podem ser aproveitados pela arte de educar — exercitada com relativa liberdade, com certos riscos, num jogo simbólico e aparentemente inócuo, contudo capaz de fazer toda a diferença na trajetória subjetiva, tanto do aluno quanto do educador, trazendo em si algo de genuíno e singular.

Germinar ou ajudar a parir: eis a questão32

Educar vem do latim educare, que significa criar, alimentar, ter cuidados com, adestrar, formar e instruir. Em português, educar recebe o significado de reduzir, fazer sair, pôr fora (procedência etimológica reinvidicada quando se pretende afiançar a equivalência entre o ato de educar e o de desenvolver capacidades maturacionais). Em sua concepção poética, educar significa moldar, esculpir, escrever.

Essa ambiguidade nos pede tentar, pelo menos, diferenciar o significado de educatio do significado de eductio, no sentido de melhor expressar a ideia que acreditamos estar alinhada com a proposta do olhar psicanalítico sobre o sujeito da educação.

Educatio refere-se a ações de criar, amamentar, cuidar, ensinar, instruir e cultivar uma criança. Sugere o movimento de fora para dentro, de introduzir, de fazer algo entrar. E ainda: engravidar, inocular, plantar sementes — ideias e palavras. Assim, educar ganha ares masculinos, mais próximo de penetração e de germinação de algo no sujeito que sirva de alimento ao desejo.

Eductio relaciona-se com a ideia de ductum, de conduto que tira de dentro, de dar à luz, produzir, esvaziar, esgotar ou fazer descer. Sugere o movimento de levar para fora algo que está dentro, fazer aflorar, conduzir para a saída. Assim, educar ganha ares femininos, mais próximo de parir.

Na educação, atualiza-se algo da ordem de uma marca que molda, possibilita certa condição existencial, burila-se o ímpeto próprio da “animalidade”. Educadores agiriam como promotores do emergir do que está submerso, agindo como propulsores estimulantes, a fim de despertar o que existe de humano em potencial no ser, naturalmente apto a se desenvolver.

Maria Cristina Kupfer lembra que eductio (ducto) remete, também, à ideia de bordejar do sujeito (na separação entre ele e o real), dimensão viabilizada pelo simbólico.

No Dicionário Houaiss, “Educar v.t. é despertar as aptidões naturais do indivíduo e orientá-las segundo os padrões e ideais de determinada sociedade, aprimorando-lhe as faculdades intelectuais, físicas e morais. / Cultivar o espírito. / Instruir, ensinar. / Domesticar, amestrar, adestrar. / Dar a alguém todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento de sua personalidade. / Transmitir saber a. / Dar ensino a. / Aclimar;” e “Educação s.f. é Ação de desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e morais.” Camargo acrescenta (com o que concordo): “Conhecimento e observação dos costumes da vida social, civilidade, delicadeza, polidez, cortesia.”

A Pedagogia se ilude na medida em que a intencionalidade consciente do educador referente tanto aos objetivos quanto aos meios da ação educativa formal parece ser aceita consensualmente. Estranha é a crença de que a ação educativa e/ou pedagógica (formal ou informal) pode ser entendida como controlável, racional e consciente. Seria desconsiderar, em todas as ações e pensamentos, o inconsciente que nunca cessa, queiramos ou não. Para a Psicanálise, aceitar a constituição psíquica cindida implica alijar todo e qualquer sujeito do sonho (ou da ilusão) de ser possível a nós, humanos, o usufruto confortável de certezas e razões, frutos de pensamentos e ações conscientes, controláveis e previsíveis.

Freud trouxe a ideia de que educar está mais para a arte de promover a articulação metafórica e simbólica entre educatio e eductio do que para a transposição técnica e especializada advinda da apropriação de métodos e recursos didático-pedagógicos:

… a educação tem de escolher seu caminho entre o Sila da não interferência e o Caríbdis da frustração. A menos que o problema seja inteiramente insolúvel, deve-se descobrir um ponto ótimo que possibilite à educação atingir o máximo com o mínimo de dano. Será, portanto, uma questão de decidir quanto proibir, em que hora e por que meios. E, ademais, devemos levar em conta o fato de que os objetos de nossa influência educacional têm disposições constitucionais inatas muito diferentes, de modo que é quase impossível que o mesmo método educativo possa ser uniformemente bom para todas as crianças (FREUD, 1933).

Sobre a Educação Ideal no sonho da Pedagogia Ortodoxa, em 1926, na França, sob o título Pedagogia Científica, Maria Montessori (1965, p. 12) escreveu as seguintes considerações a respeito do espírito científico que deveria animar a formação docente:

Cientista é aquele que, à luz da experiência, descobriu que conduz às verdades profundas da vida e que, de qualquer forma, desvela-lhes os segredos fascinantes; aquele que, sentindo nascer-lhe um amor profundo pelos mistérios da natureza, chega a esquecer de si próprio. O cientista não é, pois, aquele que maneja instrumentos, mas o que conhece a natureza [...] Ora, creio que devemos preparar no educador mais o espírito que o mecanismo do cientista, o que vale dizer que a direção dessa preparação deve estar voltada para o espírito. Desejamos dirigi-lo no caminho da ciência experimental, ensinando-o a manejar um pouco cada um dos seus instrumentos, limitando esse aprendizado ao objetivo em vista e orientá-lo na via do ‘espírito científico’.

É difícil reconhecer na pedagogia dita moderna — ortodoxa por ainda trabalhar sob o paradigma das normas, dos padrões, das regras — o ideário desejante da pedagogia científica montessoriana.

O campo de conhecimento da didática se preocupa com as formas investigativa e prescritiva. A investigativa estuda o que se passa no acontecimento do ensino, tomando esse fenômeno como objeto de conhecimento. A didática procede de maneira similar às demais chamadas ciências humanas e ciências da educação, utilizando-se em grande medida dos parâmetros da pesquisa dita científica.

Algumas preocupações de Comênio e Montessori apresentadas por Sônia Penin (1996) se referem ao fato de que a aula, ainda que planejada, é sempre única, situação inédita. Assim, não deve seguir um rigoroso script.

A Educação Ideal parece ser um mandato imaginário à espera de respostas para tudo, sem espaço para o imprevisto, para a criação, para o desejo, em que aquele que recebe o mandato se coloca como objeto que completa o outro mandante. O ideal de uma educação, de ordem simbólica, articula uma demanda33 enigmática, de proibição, abrindo a possibilidade para o desejo, para o imprevisto, para o improviso, para o sujeito.

Quando um educador opera a serviço de um sujeito, abandona técnicas de adestramento e adaptação, renuncia à preocupação excessiva com métodos de ensino e com os conteúdos estritos, absolutos, fechados e inquestionáveis. Ao contrário disso, apenas coloca a serviço de um aluno que, ansioso por encontrar suas respostas ou simplesmente fazer-se dizer, escolherá nessa oferta aqueles que lhe dizem respeito, nos quais está implicado por seu parentesco com aquelas primeiras inscrições que lhe deram forma e lugar no mundo. [...] Quando um educador educa levando em conta o sujeito, poderá estar norteando, também, a ideia de que, embora seu aluno esteja marcado e determinado por inscrições primordiais, que darão sempre o norte de seu percurso pelo mundo, e sobre os quais nada pode saber — nem o professor nem o aluno —, nada de sua aprendizagem está determinada.

Assim como o paciente em análise supõe no analista o saber sobre aquilo que lhe falta e o angustia, o professor, na realidade educacional, é, por excelência, um outro em que o aluno supõe o saber sobre o lugar que ele ocupa no mundo, o saber sobre a vida, o saber sobre como se torna adulto, o saber sobre os desejos dos pais que o colocaram na escola. Para o aluno, o professor é aquele que sabe sobre o seu desejo: ele é o sujeito suposto saber (MONTEIRO, 2000, p. 89).

O professor deve reconhecer que, apesar de representar o saber sobre a diferença (a falta), não sabe sobre o universo interior do aluno. Deve lembrar que a ele também falta e que deve sempre buscar em outras fontes o que lhe falta saber (MONTEIRO, 2000, p. 19).

Pereira (2003, p. 118) explica que “[...] As relações, inclusive as pedagógicas, pautam-se, então, na ligação sujeito-objeto, mesmo que esses papéis se alternem. Não se trata de ser o objeto, mas de ocupar o lugar do mesmo na condição de um semblante, uma máscara, uma aparência, um resultado da função da linguagem…”.

Um estilo é a marca singular de um sujeito, é seu modo de fazer as coisas, de falar, de escrever, de se posicionar no enfrentamento da impossibilidade de ser, é o seu modo de enfrentar sua humana falta-a-ser (KUPFER, 2001, p. 129), algo que diz respeito ao universo do sujeito do desejo. “Ao contemplar o professor no exercício de seu estilo próprio de apropriação do objeto de conhecimento, um aluno construirá e se construirá em um estilo cognitivo próprio.”

Considerações finais

Ligada a educação à moralidade e à cultura, determinantes dos valores impostos pela sociedade, esses elementos contribuem para a humanização. Consequentemente, na perspectiva psicanalítica, servindo em defesa da própria sexualidade.

A intuição a respeito da articulação entre educatio e eductio caminha em boa direção, uma vez que educar e aprender remetem, na psicanálise, às funções materna e paterna, ligadas mais à arte da escuta, do improviso e da ligação autêntica e subjetiva com o conhecimento do que à aplicação de metodologias derivadas de teorias que levam a práticas pedagógicas supostamente corretas, contudo enclausuradoras.

Caberia aos professores-ensinantes, atuantes em todos os níveis, da Educação Infantil à pós-graduação, perguntarem-se se suportam esse lugar de objeto, que está para além da metodologia.
Ednaldo Ferreira de Amorim é Doutor em Psicanálise Aplicada à Educação e Saúde, especialista em Administração com ênfase em Marketing, bacharel em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas, docente em graduação e pós-graduação, presidente da Comissão Própria de Avaliação da Faculdade Nova Roma, personal coach, palestrante sobre comportamento humano e organizacional. Tem certificado em Metodologia do Ensino Superior pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e larga vivência no varejo de bens e serviços.

Referências

CALLIGARIS, Contardo et al. Educa-se uma criança? Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994.

CAMARGO, A. C. C. S. Educar: uma questão metodológica? Proposições psicanalíticas sobre o ensinar e o aprender. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. 141p. (Coleção Psicanálise e Educação).

CAMBI, F.. História da pedagogia / Franco Cambi; tradução de Álvaro Lorencini. – São Paulo: UNESP, 1999 (Encyclopaidéia).

FREUD, S. (1933 [1932]). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

KUPFER, Maria Cristina M. Educação para o futuro: psicanálise e educação. São Paulo: Escuta, 2001.

MONTEIRO, Elisabete Aparecida. A transferência e a ação educativa. Dissertação de mestrado. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000.

MONTESSORI, Maria. Pedagogia científica: a descoberta da criança. Tradução: Aury Azúlio Brunetti. São Paulo: Flamboyant, 1965.

PENIN, Sônia Terezinha de Souza. O ensino como acontecimento. In: Cadernos de pesquisa, n. 98, ago./1996, p. 21.

PEREIRA, Marcelo Ricardo. O avesso do modelo: bons professores e a psicanálise. Petropólis: Vozes, 2003.

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