Edição 67

Matérias Especiais

Eles querem saber, você tem que explicar!

Thais Caramico

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Se você pensa que já não tem mais dúvidas sobre sexo, espere até o seu filho lhe fazer a primeira pergunta. Porém, não precisa morrer de vergonha nem ficar tenso. Existe um modo certo de responder às crianças de acordo com cada faixa etária.

“Tia Alê, eu tenho uma dúvida: um menino pediu para eu fazer sexo oral nele lá na escada do meu prédio. O que é isso?” A pergunta foi feita por uma garotinha na frente de mais 11 colegas de classe há oito anos e até hoje é utilizada como exemplo pela psicóloga Alessandra Assis nas palestras que ministra. Afinal, essa não é apenas uma pergunta, mas, sim, a reflexão da importância da Orientação Sexual dada nas escolas e também de quanto os pais devem dialogar com seus filhos e praticar a liberdade vigiada, ou seja, sem perseguir, mas controlando os seus passos.

A sexualidade é um dos muitos aspectos da vida infantil, e é impossível fazer de conta que ela não existe. “Através do amor, da afeição, do carinho e da segurança, a criança começa a se fortalecer e a se preparar solidamente para o futuro”, explica a especialista em Educação Sexual.

No entanto, cada idade pede uma explicação, e isso pode ser feito de maneira adequada, pois não existe uma hora específica para que os pais comecem a falar de sexo com seus filhos. “O assunto deve ser colocado em pauta somente a partir do momento em que as crianças começam a fazer perguntas, direta ou indiretamente”, diz Greice Amaral, psicóloga e colaboradora do Projeto Amar Bem.

Até os 6 ou 7 anos, o nível de complexidade das respostas deve ser simples. “Os pais podem lançar mão da criatividade ou mesmo dos livros disponíveis a cada faixa etária e contar histórias que respondam a essas primeiras dúvidas. Ao longo dos anos, tudo vai se aproximando da realidade, até que os pais percebam que a maturidade do filho já permite que se fale de sexo tal e qual ele acontece”, diz Greice.

Segundo a psicóloga Margareth dos Reis, terapeuta sexual no instituto H. Ellis, de São Paulo, quando a criança está se aproximando da adolescência, os pais devem usar uma linguagem mais acolhedora, para que, mais tarde, a transição da adolescência para a vida adulta seja mais fácil. “O ideal é abordar, também, as mudanças físicas e emocionais que estão por acontecer, como a primeira menstruação e o aumento dos seios, nas meninas; e as primeiras ejaculações sem coito, o aumento do pênis e a mudança de voz, nos meninos”, explica a especialista. “Essas e outras alterações biológicas capacitam o indivíduo para a procriação”, conclui.

Como o interesse pelo amor e pela iniciação sexual surge também nessa época, a abordagem sobre a prática sexual segura deve ser esclarecedora. “Toda conversa sobre sexo com os filhos pode ser acompanhada de livros didáticos que ajudam a explicar melhor as dúvidas de acordo com cada idade”, diz Margareth.

Gorilla_shutterstock_9_fmtAs dúvidas mais comuns e o que responder

A dificuldade que os pais têm em responder às perguntas do filho é a mesma encontrada para enfrentar a própria sexualidade. Ouça os questionamentos e fale naturalmente com a criança. Se a resposta está adequada à idade, seu filho ficará satisfeito e não fará mais perguntas, até surgir a próxima dúvida.
(Super Nanny)

1. Como nasce um bebê?

Até 6 anos: “Duas pessoas adultas, quando se amam muito, formam um casal e decidem ter filhos. Então, elas fazem amor para que a mulher possa ficar grávida. Se isso acontecer, passado algum tempo, nascerá um bebê.” Para essa faixa etária, o uso de figuras/gravuras funciona mais do que qualquer resposta. Você pode explicar desenhando e contando uma historinha ou simplificar dizendo que os bebês são feitos pelos pais.

De 7 a 10 anos: A partir dessa faixa etária, você pode dar a mesma resposta. Porém, corre o risco de a criança retrucar: “Mas como é que se faz amor?”. Então, você deve explicar que o casal troca carícias e tira a roupa em um lugar reservado para poder dizer, um ao outro, o quanto se ama.

A partir dos 10 anos: o que foi dito anteriormente deve ser complementado com informações técnicas sobre o ato sexual e a fecundação. O uso de gravuras falando sobre o encontro dos espermatozoides com o óvulo é importantíssimo.

BlueOrange Studio_shut_fmt2. O que é sexo?

Até 6 anos: Se olharmos para um menino e uma menina nus, veremos os seus órgãos genitais e poderemos dizer qual é o seu sexo: menino (porque tem pipi) e menina (porque tem vagina, ou nome carinhoso que costuma usar).

De 7 a 10 anos: Explica-se que sexo é uma característica com a qual nascemos, ou seja, sexo masculino ou sexo feminino, e que muitas pessoas utilizam o sexo como sinônimo de “fazer amor”.

Mais de 10 anos: Sexo é uma coisa natural entre duas pessoas que se amam.

3. O que é sexo oral?

É fundamental devolver a pergunta da seguinte forma: “Para que você quer saber?” ou “Onde você ouviu falar sobre isso?”.

Até 6 anos: É uma das formas de carinho entre duas pessoas adultas (Atenção: dificilmente uma criança dessa faixa etária perguntaria isso).

De 7 a 10 anos: Verifique o conhecimento prévio e explique que as pessoas adultas buscam prazeres de diferentes formas.

A partir de 10 anos: Existem diversas maneiras de explorar o corpo, e uma delas é através do beijo nos órgãos genitais. Isso é algo muito íntimo, que acontece entre duas pessoas que se amam e já são adultas.

4. O que é orgasmo?

Até 6 anos: Uma sensação gostosa que pode acontecer.

De 7 a 10 anos: É algo prazeroso que sentimos explorando nosso corpo.

A partir de 10 anos: É uma sensação gostosa que alcançamos ao explorar nosso corpo. Nos meninos, também ocorre a ejaculação, que consiste na saída de sêmen pelo pênis. Na mulher, a vagina se contrai ritmicamente, proporcionando um prazer intenso.

Anastasiia Markus_shut_fmt5. O que é sapatão?

Até 6 anos: Dizer que é um sapato grande. Mas é preciso investigar o conhecimento prévio da criança.

De 7 a 10 anos: Há diferentes formas de expressar a sexualidade. Nem todas as pessoas têm os mesmos sentimentos e desejos. Apesar de o comum ser homem sentir atração por mulher e vice-versa, existem mulheres que sentem atração por outras mulheres. Estas são chamadas, popularmente, de sapatonas.

A partir de 10 anos: Quando uma mulher sente atração por outra mulher, ela é chamada de sapatão, que é um termo pejorativo. Quando uma pessoa se sente atraída sexualmente por outra pessoa do mesmo sexo, dizemos que essa atração é homossexual. Quando uma pessoa é atraída pelo sexo oposto, dizemos que ela é heterossexual. A maioria dos casais é heterossexual, isto é, formada por homem e mulher. Porém, há casais homossexuais: casais formados por duas mulheres ou dois homens.

6. O que é bicha?

Até 6 anos: Conforme os valores e a cultura, um menino não pode brincar de boneca, porque é “coisa de menina”, e seus coleguinhas o chamam de bicha.

De 7 a 10 anos: Da mesma forma que se responde à pergunta sobre sapatão, porém esclarecendo que costumam chamar de bichas os homens que manifestam atração por outros homens. Aproveite para enfatizar que o fato de uma menina preferir fazer capoeira ou jogar bola em vez de fazer balé não significa que seja sapatão. Da mesma forma, o menino que apresenta trejeitos femininos e gosta de estar só com as meninas não é bicha — que também é um termo pejorativo.

A partir de 10 anos: Quando um homem sente atração por outro homem e tem trejeitos femininos, ele pode ser chamado de bicha, que é um termo pejorativo. Essa característica se define por volta dos 14 anos, quando o jovem passa a se interessar sexualmente por outra pessoa. É importante enfatizar a necessidade do respeito pela escolha das pessoas. Explique que a homossexualidade não é uma doença física nem um desvio de personalidade. Mostre notícias sobre os países que já aprovam a união civil entre homossexuais. Porém, relate que ainda há uma grande parcela da população que não aceita com naturalidade essa forma de expressar a sexualidade.

Atenção: essas questões são importantes para valorizar o respeito às diferenças e garantir que nenhuma criança sofra com apelidos ou seja alvo de piadinhas.

7. Por que os meninos têm pênis e as meninas, vagina?

Até 6 anos: Faça com que visualizem outras diferenças entre meninos e meninas e ressalte que uma das principais são os órgãos genitais.

De 7 a 10 anos: Embora meninos e meninas sejam semelhantes em muitas coisas (ambos têm rins, coração, pulmões e outros órgãos), existem diferenças, como em relação aos órgãos genitais.

A partir de 10 anos: Aproveite para discutir valores sobre os sexos masculino e feminino, além dos tabus, e ressalte que a principal diferença entre as moças e os rapazes é que elas têm vulva e eles, pênis (é fundamental dar o nome correto dos órgãos genitais. Apenas para as crianças da Educação Infantil devem-se usar apelidos carinhosos).

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8. Por que você tem pelos?

Até 6 anos: Quando você crescer, também terá.

De 7 a 10 anos: Explique sobre a puberdade e as mudanças no corpo: o peito cresce, aparecem os pelinhos, a voz dos meninos se modifica…

A partir de 10 anos: Seguindo o mesmo raciocínio sobre a entrada na puberdade, explique o que é. Começa um período de crescimento muito rápido, que dura quatro ou cinco anos. Logo, o corpo irá parecer com o de uma pessoa adulta, com pelos em diferentes partes, como púbis, nos genitais e também nas axilas.

9. Mexe no meu pipi?

Até 6 anos: Conhecimento prévio é fundamental, e deve-se investigar se alguém já mexeu no pênis do seu filho. Aproveite a pergunta para dizer que você sabe que é gostoso mexer no pipi, mas que a nossa mão tem que estar limpa. Nada de dar bronca ou repreender a criança por ter feito essa pergunta. É muito natural, nessa faixa etária, a curiosidade pelas partes do corpo, principalmente em relação aos órgãos sexuais. Os pequenos querem colocar a mão no peito, no bumbum, na vagina e assim por diante. Porém não há erotização. Para eles, a brincadeira tem a ver com a sensação que o toque proporciona. Pode acontecer, por volta dos 2 ou 4 anos, de a criança querer mexer no pênis do pai. Desde que não fique constrangido, esse pode ser um bom momento para explicar o que é o pênis e que ele serve para fazer xixi, mas que você não deve deixar ninguém mexer no seu.

De 7 a 10 anos: Manipular o pênis é uma experiência que proporciona prazer, porém ele faz parte da sua intimidade, ou seja, só você deve mexer nele. Deve-se aproveitar para reforçar a importância da higiene (puxar a pele do prepúcio para mantê-lo limpo).

A partir de 10 anos: Oriente sobre a masturbação e explique que existem lugares específicos para entrarmos em contato com nossa intimidade e que ninguém tem o direito de tocá-lo nem pode obrigá-lo a tocar em alguém (abordar orientações sobre abuso sexual: é abuso sexual quando alguém toca nas partes íntimas sem autorização; quando alguém o obriga a olhá-lo ou a tocá-lo nas partes íntimas; quando alguém o toca e você tem a sensação de que aquilo é errado; e, principalmente, quando alguém toca em você e pede que não comente com ninguém).

10. Posso tomar banho com meu amigo?

Até 6 anos: Sim, pode (criança, nessa faixa etária, tem curiosidade sobre as semelhanças e diferenças sexuais, sem erotização).

De 7 a 10 anos: “Por que você quer tomar banho com seu amigo?” Oriente que pode, mas sempre explicando sobre a nossa intimidade. Vale lembrar que crianças a partir de 7 ou 8 anos de idade começam a querer sua privacidade.

A partir de 10 anos: “Qual a necessidade de vocês tomarem banho juntos?” E trabalhe sua resposta a partir da resposta que ele der.

11. Meu amigo falou que é legal colocar o dedo no bumbum. Posso?

Até 6 anos: Em situações como esta, os adultos tendem a agir mal. Nada mais equivocado. Logo depois de explorar o próprio corpo, a atenção da criança volta-se para o corpo alheio. Não faça alarde. Responda com naturalidade: “Será que é legal mesmo?”. Aproveite para falar sobre a higiene. Não enfatize a sexualidade e diga: “Não acho legal, pois o bumbum pode estar sujo, não é?”.

De 7 a 10 anos: Explique que há diferentes tipos de contato entre as pessoas. Existem os bons ou apropriados, como beijo no rosto, abraço, carinho no cabelo, etc. Esses são contatos que fazem com que nos sintamos bem. Porém, há outros inapropriados ou maus, como os empurrões ou carinhos em lugares que fazem com que nos sintamos incomodados. Quem gosta mesmo da gente não nos toca em lugares de que não gostamos.

A partir de 10 anos: Só devemos deixar tocar em nossa parte íntima as pessoas nas quais confiamos muito e quando necessário — por exemplo: o médico, que, se precisar fazer um diagnóstico, pode nos tocar em partes íntimas. Explique sobre autoestima e respeito ao corpo. Também deve ser sondado o abuso sexual, e evite criar, na criança, atitudes desconfiadas. Para isso, você pode dizer que se deve ficar um pouco alerta quando alguém nos propõe coisas que não estamos certos de que sejam corretas.

Repreender? Jamais!

Seja qual for a pergunta, ela nunca deve ser repreendida, pois, com isso, os pais desestimulam a curiosidade e a espontaneidade das crianças. Se perceberem que a dificuldade em falar de sexo se origina numa dificuldade pessoal com o assunto, eles devem procurar ajuda profissional de um psicólogo ou psicoterapeuta que atenda seus filhos, em vez de ignorar o assunto ou chamar a atenção da criança. Também é preciso ter em mente que muitas brincadeiras são fruto da curiosidade dos pequenos acerca do próprio corpo e da sexualidade. Não se deve, portanto, reprovar os filhos por isso, assim como não há necessidade de incentivá-los. Quando os adultos notarem que a criança está “sexualizada” demais (fala sobre assuntos relacionados a sexo o tempo todo, vive querendo brincadeiras como as de “médico” e mexe muito nos genitais, a ponto de comprometer a execução de outras atividades), devem procurar um psicoterapeuta infantil.

Às vezes, os pequenos acabam expressando seus conflitos emocionais através desses comportamentos sexualizados e aí precisam se submeter a uma ajuda médica para resolver tais problemas e, consequentemente, reduzir esses comportamentos a uma medida normal.

Revista Super Nanny. Ano 1. n. 7. São Paulo: On line.

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