Edição 102

Matérias Especiais

Profissão professor

Rosangela Nieto de Albuquerque

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O mundo atual está permeado pelas tendências da globalização, com transformações que são fruto da crise da sociedade e da teoria; é o que chamamos de crise contemporânea da identidade. Este panorama permeia vários aspectos: a ênfase na ação coletiva, a necessidade de viver em coletividade, ações de cidadania, a importância do bem-estar pessoal e a identidade como algo múltiplo, dinâmico e em construção.

Nesse contexto, muito se fala sobre a importância da educação na construção do sujeito cidadão, como ela pode transformar os indivíduos e a sociedade. A “esperança” de que tudo pode mudar através da escola, que transformará a família e a sociedade. Assim, percebe-se que os profissionais do ensino estão em evidência e, com isso, são mais cobrados no fazer laboral. Certamente, essas exigências variam desde a eficiência e eficácia do trabalho do professor, a sua práxis pedagógica, até a aquisição dos títulos acadêmicos. Ao professor é cobrado bem mais do que estar numa sala de aula, mas a construção de indivíduos melhores; para tal, a identidade do professor é algo a ser construído, zelado e adubado com muito preparo teórico, formação continuada e um projeto reflexivo do self.

Para Rubem Alves, há uma distinção entre professor e educador, ao afirmar que “Professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança” (apud FERACINE, 1998, p. 50).

A profissão de professor combina sistematicamente elementos teóricos com situações práticas reais. É difícil pensar na possibilidade de educar fora de uma situação concreta e de uma realidade definida. Por essa razão, a ênfase na prática como atividade formativa é um dos aspectos centrais a serem considerados, com consequências decisivas para a formação profissional (LIBANEO, 2004, p. 230).

E em que consiste ser professor? Como construir um projeto reflexivo do self? O mundo globalizado provoca mudanças nas estruturas das sociedades contemporâneas e, certamente, na construção da identidade dos sujeitos. Para o professor, os desafios são complexos, pois, além da dimensão individual, ele tem que pensar na dimensão coletiva, que é dinâmica e mutável.

Assim, o professor vivencia a construção e (re)construção de sua identidade, e, nesse processo dinâmico, ele deve se deslocar de um estágio de não reflexividade para um metanível de postura crítica e reflexiva, nas dimensões individual e coletiva, porque é um sujeito de transformação social.

Na atualidade, a prática profissional dos professores vem permeada pela identidade do professor, fundamentada também nas práticas discursivas, e nesse discurso ele tende a desvalorizar ou a desconstruir a visão essencialista, indo para 3os contornos de construção social, que vem descentrada do discurso do poder/conhecimento, da corporalidade e da autorreflexividade. Segundo Caldwell (2007), originada pela desconstrução das práticas discursivas, do pós-estruturalismo e da pós-modernidade, a identidade do professor se apresenta como produto do discurso: fragmentada, múltipla e transitória (BENDLE, 2002).

“Professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão, é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança.”

-Rubem Alves

Nessa linha de pensamento (as abordagens pós-estruturalistas e pós-modernas), Foucault enfatiza que o sujeito racional é um artefato do Iluminismo e traz para o debate a questão do poder, da reflexividade e do construcionismo social, que gera um reposicionamento e uma reafirmação de posições acerca do self. Na verdade, no interacionismo simbólico, o self é definido como um processo reflexivo, uma experiência de auto-objetificação.

Para entender melhor esse processo, é importante conhecer o conceito de self, que corresponde ao significado de “unidade da personalidade” (atitudes e predisposições de comportamento), isto é, o indivíduo tal qual como se revela e se conhece, respeitando sua própria consciência. Então, no que diz respeito ao self docente — identidade docente —, o profissional percebe que, em sua prática laboral, deve desenvolver habilidades e competências para desempenhar as atividades teóricas e práticas concomitantemente, assim fica evidente que essas singularidades se pautam na dedicação, na ética, no compromisso de se desenvolver como pessoa e como profissional (formação continuada), não se tratando apenas de obtenção de título acadêmico.

Para Zabala (1998), é necessário insistir na práxis pedagógica, na organização da aula, nos estímulos ao educando, nos recursos didáticos e materiais pedagógicos, perceber a expectativa que se deposita no professor e não se esquecer de que o docente tem um papel social a cumprir, voltado para “provocar conflitos intelectuais” para que o aluno se desenvolva.

O self e a (re)construção da identidade profissional do professor

A identidade profissional é um fenômeno complexo, claramente incorporado pela dimensão individual, e especificamente é o núcleo da personalidade, numa dimensão coletiva, que se alicerça nas relações grupais. Neste contexto, é evidente que o sujeito vive numa interdependência entre o individual e o coletivo: ele necessita do reconhecimento do coletivo, e o coletivo necessita da capacidade de intervenção do individual.

No que tange ao sujeito individual-coletivo, observa-se a profissão docente, que, no panorama atual, é de transformação dinâmica e evolutiva. Existe uma gama de significados e autossignificados em que consiste ser professor, há várias questões que perpassam pelo nível da reconfiguração das identidades desses profissionais. Certamente, é um processo interativo de (re)construção de sentido, principalmente quando neste momento histórico necessita-se de um profissional com uma identidade com pensamento crítico-reflexivo e uma intervenção ativa.

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No que tange ao sujeito individual-coletivo, observa-se a profissão docente, que, no panorama atual, é de transformação dinâmica e evolutiva

Essa gama de autossignificados permeia a autoimagem e o autoconceito, que estão alicerçados em particularidades culturais, históricas e políticas. Nesse contexto, o self é uma importante ferramenta conceitual (CALLEIRO, 2003). Para Bendle (2002), na avaliação do conceito de identidade, não podemos deixar de considerar as características da modernidade contemporânea, que certamente influenciarão na construção da identidade docente, isto é:

- o aumento do individualismo e da mobilidade social – o que permite acesso a novas identidades.

- a flexibilidade na autodefinição – em tese são fundamentos mutáveis e moldáveis da identidade.

- a problematização do autoconhecimento – que é decorrente da não transparência do sujeito a si mesmo.

- a valorização da autorrealização neste mundo – em concomitância com o tempo histórico e social, a secularização da sociedade.

“A influência do mundo moderno contemporâneo se intercala com a vida individual e também com o self, portanto é imprescindível que cada professor trace o seu projeto reflexivo do self.”

- Giddens

A construção e reconstrução da identidade não é uma compreensão simples, como já mencionado anteriormente. A complexidade do tema nos remete ao conceito de identidade por Gee (2001), que provoca uma reflexão sobre como e em que medida alguém pode se manter e ser reconhecido como sendo “um certo tipo de pessoa” quando em ação e interação em diferentes contextos ou no desempenho de diferentes papéis.

Há que se considerar que a identidade profissional se desenvolve durante toda a vida do indivíduo, e certamente há influências internas (que fazem parte da personalidade) e externas (as práticas comunicacionais e os processos de reconhecimento nas relações em comunidades práticas) nessa construção.

 

As teorias da identidade, na literatura recente, remetem à compreensão da identidade profissional. Assim, a construção da identidade docente nos faz refletir sobre a perspectiva estrutural do interacionismo simbólico, isto é, os indivíduos, de forma colaborativa e em conjunto, podem interferir no mundo; desse modo, sua intervenção é condicionada pelas estruturas pessoais e sociais. Portanto, pode-se afirmar que a identidade profissional é simultaneamente individual e coletiva. A identidade profissional não é separável nem das identidades individuais como um todo nem das identidades coletivas.

No que diz respeito ao nível simbólico, percebe-se que as pessoas estão contextualizadas para produzir uma determinada ação, o que caracteriza que as representações sociais correspondam a uma mesma forma de ação. Remetendo à profissão docente, o coletivo é muito significativo, pois um professor incorpora a identidade social de uma determinada instituição e participa desses grupos; assim, ele partilha da mesma representação social, portanto a sua ação e as ações de outros perpassam por uma ação conjunta.

No que diz respeito ao nível simbólico, percebe-se que as pessoas estão contextualizadas para produzir uma determinada ação, o que caracteriza que as representações sociais correspondam a uma mesma forma de ação. Remetendo à profissão docente, o coletivo é muito significativo, pois um professor incorpora a identidade social de uma determinada instituição e participa desses grupos; assim, ele partilha da mesma representação social, portanto a sua ação e as ações de outros perpassam por uma ação conjunta.

Os principais fatores que fazem emergir as diferentes configurações da identidade (e a sua transformação) pautam-se nas ações de viver, reviver, contar e recontar os múltiplos contextos, o que permite que se possa desconstruir e reconstruir a concepção do projeto reflexivo do self.

No que tange ao plano subjetivo, a identidade profissional docente na ação educativa adquire um significado, mas requer responsabilidade e envolvimento. Nesse conte5xto, Dubar (1997) traz para a reflexão a teoria da “socialização antecipatória”, que perpassa pelo processo de projeção pessoal numa carreira futura por identificação aos membros de um “grupo de referência”, o que seria o “projeto reflexivo do self”, este que emergiu das condições atuais da modernidade, um projeto pessoal, com um estilo de vida assumido, que não é disponibilizado pelas instituições. (GIDDENS, 1997). Assim sendo, a procura da identidade não configura uma ordem estabelecida, é um projeto a realizar, sem esquecer a relação dialética entre indivíduo e sociedade, entre identidade pessoal e estrutura social (BERGER; LUCKMANN, 2004).

A identidade do professor, dependendo do projeto de vida, do “projeto reflexivo do self”, pode ser consistente ou não, conforme os diferentes momentos e contextos.

A influência do mundo moderno contemporâneo se intercala com a vida individual e também com o self; portanto, é imprescindível que cada professor trace o seu projeto reflexivo do self (Giddens, 1997). E, para esse projeto de crescimento pessoal de base emocional no seu núcleo de identidade individual, é importante que o professor permita-se a se construir e se (re)construir por intermédio da sua participação ativa, com contribuições para a construção social da identidade coletiva.

Considerações finais

A construção da identidade do professor emerge desde a formação docente nos cursos de graduação. Neste espaço formativo, o estudante irá experienciar as habilidades e competências necessárias para a profissão. As reflexões acerca da construção e (re)construção da identidade do professor perpassam pela passagem do nível passivo de não reflexividade, de aquiescência, de aceitação, para um metanível de atividade reflexiva e crítica. É importante saber quando e como se dará essa transformação, em nível profissional e pessoal. Na sociedade atual, com novos desafios resultante da globalização, é importante que os professores criem uma identidade (self) de projeto, pois, assim, reconstroem a identidade coletiva.

A (re)construção da identidade do professor, certamente, permeia um processo dinâmico e evolutivo, que não dispensa a prática comunicacional e que dependerá de fatores internos e externos incrustados num contexto social. Este ato de (re)construção requer um pensamento crítico reflexivo, numa dialética de interpretação e reinterpretação das ações e experiências.

Rosângela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação, pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia, Mestre em Ciências da Linguagem, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, consultora ad hoc do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep, professora universitária dos cursos de graduação e pós-graduação, coordenadora do comitê de Ética em Pesquisa (CEP-Fafire), coordenadora de cursos de pós-graduação, analista em Gestão Educacional do Governo do Estado de Pernambuco, autora e organizadora de dez livros.

E-mail: rosangela.nieto@gmail.com

Referências

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BENDLE, M. F. The Crisis of “Identity” in High Modernity. British Journal of Sociology, London: London School of Economics and Political Science; Routledge Journals, v. 53, n. 1, p. 1-18, Mar. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v21n65/1413-2478-rbedu-21-65-0371.pdf. Acesso em 24 jun 2018.

BERGER, P. L.; LUCKMANN, T. A Construção Social da Realidade: um Livro sobre a Sociologia do Conhecimento. 2. ed. Lisboa: Dinalivro, 2004.

BOLIVAR, L. Liberais e Antiliberais: a Luta Ideológica do nosso Tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016;

CALDWELL, R. Agency and Change: Re-evaluating Foucault’s Legacy. Organization, London: Sage, v. 14, n. 6, p. 769-791, Out. 2007. Disponível em: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1350508407082262. Acesso em: 26 jun 2018.

CALLEIRO , P. L. The Sociology of the Self. Annual Review of Sociology,Palo Alto: Annual Reviews, v. 29, n. 1, p. 115-133, Jun. 2003. Disponível em: http://uta-ir.tdl.org/uta-ir/bitstream/handle/10106/24143/Bholan_uta_2502D_12430.pdf? Acesso em: 25 jun 2018. Castells, M. The power of identity. 2. ed. Oxford: Wiley-Blackwell, 1997.

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GIDDENS, A. Modernidade e Identidade Pessoal. 2. ed. Oeiras: Celta, 1997.

LIBÂNEO, José Carlos. Organização e Gestão da Escola: Teoria e Prática. 5. ed. revista e ampliada. Goiânia: Alternativa, 2004.

ZABALA, Antoni. A Prática Educativa: como Ensinar. trad. Ernani F. da F. Rosa. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

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