Edição 61

Gestão Escolar

Empreendedorismo jovem e protagonismo juvenil: temas que precisam estar presentes na escola

Qualquer coisa que você possa fazer, ou sonha que possa fazer, comece a fazê-la. A ousadia tem em si a genialidade, a força e a magia. Goethe

Estamos perplexos com as inovações do mundo contemporâneo! Mas somos parte dele — sujeitos sociais —, capazes de intervir no curso da História. Porém, há necessidade de nos reconhecermos como seres de relação no mundo e entendermos que nos constituímos nele, entrelaçados numa teia de relações sociais, culturais, econômicas, políticas, educacionais. Essa rede é tecida na complexidade do mundo do trabalho, no cenário da globalização da economia, nos impactos da reestruturação produtiva e, em especial, nos enfrentamentos entre os saberes locais e os processos globais, entre tantas outras questões. Diante desse cenário, precisamos aprender a problematizar para compreendermos criticamente a realidade e não sermos aprisionados pela nossa própria ingenuidade, ou pelos condicionamentos sociais e culturais que podem dificultar que tenhamos sonhos e enxerguemos as nossas possibilidades. Assumimos, assim, com Gaarder (1997, p. 28) que “a resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só uma pergunta pode apontar o caminho para a frente”.

Muitas são as questões que nos inquietam, porém, neste momento, destacamos: Quem somos nós? O que podemos ser? Como nos integrarmos com autonomia no mercado de trabalho? Será que estamos investindo na realização de nossos sonhos? Como demonstramos que somos seres éticos numa lógica social hegemônica que defende a competição, a seletividade, a exclusão, a expropriação da nossa humanidade? Em que medida, os/as jovens podem fazer a diferença como coautores de uma cidadania planetária, cuja base seja a qualidade de vida para todos os seres humanos e não humanos?

A velocidade das mudanças é imensurável. Nesse contexto, ficam cada vez mais visíveis as aceleradas transformações advindas da criação de novos materiais, da microeletrônica, das inovações extraordinárias no campo da Tecnologia da Informação, da Nanotecnologia, da Engenharia Genética, Biotecnologia, Neurociência, das pesquisas sobre clonagem, células-tronco e reprodução humana. Isso nos fascina e coloca em xeque a nossa própria condição de seres humanos, mobilizando e desafiando os nossos jovens a assumirem novos papéis na sociedade.

Vivemos num mundo de paradoxos. Por um lado, as transformações e os avanços já possibilitam as condições objetivas de se acabar com a miséria no planeta, de se democratizar o acesso aos bens de consumo, de se contribuir com a produção da existência humana e da melhoria da qualidade de vida, fundamentalmente, das nações mais pobres. Por outro lado, presenciamos o agravamento das contradições sociais, dos mecanismos antidemocráticos de inserção social, das estratégias discriminatórias e excludentes, orquestradas pela “nova direita”. Esse é o cenário em que nossos jovens precisarão se integrar e interagir. Como, então, fazer parte sem perder a sua identidade e a própria condição de sujeito humano? (ALBUQUERQUE, 2007).

Nos últimos trinta anos, as transformações sociais vêm se radicalizando e exigindo posicionamentos científicos e tecnológicos cada vez mais inovadores. A sociedade do conhecimento gera poder na medida em que constrói as relações de subordinação. Por essa razão, uma educação emancipadora se torna indispensável cada vez mais cedo. Não se pode esperar mais o término de um curso superior ou o ingresso no primeiro emprego para se pensar em empreender e inovar. A excelente formação acadêmica e tecnológica/profissional de nossos jovens continua a ser uma das exigências de sua educação plena, porém, novas demandas estão se impondo como necessárias à inserção crítica e com autonomia no mercado de trabalho e colocando novos desafios à reinvenção da empregabilidade. O emprego, na ótica tradicional, já não dá conta das exigências planetárias de sobrevivência, de desenvolvimento sustentável, entre outras demandas. Em síntese, não dá conta da produção de uma sociedade digna, fraterna e justa.

Problematizar sobre novas possibilidades de emprego e alternativas criativas de sobrevivência que contribuam para o desenvolvimento das comunidades locais e de processos mais amplos passa a ser responsabilidade de todos/as os/as educadores/as e profissionais que direta ou indiretamente participam da vida dos/as jovens no nosso país. Isso também vai fazendo parte da vida do próprio jovem à medida que constrói e/ou conquista autonomia.

Pensemos com Ricca, que se questiona: o emprego da forma que conhecemos hoje está cada vez mais escasso porque continuamos exclusivamente a formar jovens para serem empregados? Por que não formamos também nossos jovens para serem empregadores? Ou, melhor, empreendedores? (RICCA, 2004).

Do ponto de vista do senso comum, o empreendedorismo está relacionado à ação de empreender, que significa decidir fazer (tarefa difícil e trabalhosa), pôr em execução, realizar. O resultado dessa ação — o empreendimento — é o ato de quem assume a tarefa ou responsabilidade de elaborar um projeto, montar e/ou explorar um negócio (HOUAISS, 2008).

Esse conceito precisa ser ampliado, relacionando-o principalmente com as categorias de autonomia, criticidade e criatividade, como nos ensinaria Paulo Freire (2007). Precisamos estar situados no mundo como sujeitos construtores da História, pois viver intensamente o presente e empreender é iniciar a construção de um futuro provavelmente promissor.

Eis um grande desafio a enfrentar! É importante considerar o empreendedorismo como uma oportunidade a mais para a inserção crítica e com autonomia do jovem no mercado de trabalho, como possibilidade de afirmação da sua identidade como ser humano. Isso pode torná-lo capaz de socializar ideias, de trabalhar junto, de inovar num processo colaborativo, de realizar-se em processos criativos de trabalho, rompendo com a dependência dos padrões tradicionais de emprego. Empreender é ampliar uma visão de mundo, de si mesmo no mundo do trabalho.
Nessa ótica, precisamos investir no empreendedorismo jovem, numa perspectiva de Pedagogia da Autonomia (FREIRE, 2007), ou seja, no protagonismo juvenil. As ações empreendedoras surgem como novas possibilidades de geração de trabalho e renda. Para Ricca (2004), isso não significa que apenas o empreendedorismo vai resolver toda a demanda por trabalho e renda. É evidente que a relação de emprego continuará a existir. Entretanto, ela não será mais exclusiva nem tampouco a grande geradora de postos de trabalho. Hoje, menos da metade dos empregados possui relações formais de trabalho, e esse número fica cada vez mais reduzido. É, mais uma vez, a realidade indicando o caminho.

O desenvolvimento do comportamento empreendedor passa, necessariamente, pela valorização e pela capacitação para o associativismo. A associação, a rede social, o Terceiro Setor, a vida da forma como se vê hoje e tendo como perspectiva a preocupação com a sobrevivência no planeta, com a ecologia, a indignação com a miséria; toda essa dinâmica está gerando novas oportunidades de trabalho e de renda que serão, inclusive, vetores de oportunidades para o trabalho no futuro (RICCA, 2004, grifos nossos).

A ideia das novas formas de trabalho, e não exclusivamente de emprego, vem ganhando força entre diversos segmentos da sociedade. Nesse contexto, torna-se cada vez mais necessária a inclusão do tema Empreendedorismo/Protagonismo Juvenil nos currículos da escola básica e da universidade, para que o/a jovem tenha o direito de ser educado para a mudança, e não para a estabilidade. Isso exige competências política, ética, técnica e estética (RIOS, 2001) dos/as envolvidos/as nos processos educativos dos/as jovens em diferentes espaços formais e informais. A responsabilidade e o compromisso com essa formação incluem uma prática educativa dialógica que possibilite aos/às jovens uma leitura crítica de mundo e o reconhecimento de que, como sujeitos históricos, podem ousar e intervir com autonomia no mercado de trabalho, participando da construção de um mundo melhor.

Ele deve ser ensinado a conviver com o risco e aprender com ele, a pensar grande, a ter autoestima, coragem, confiança e capacidade para gerir sua própria vida, vendo na mudança a oportunidade, e não a ameaça. Abrir um pequeno negócio deveria ser objeto de realização pessoal, e não de falta de opção (RICCA, 2004).

Nessa perspectiva, podemos afirmar que, por excelência, o empreendedorismo é um processo colaborativo, criativo, crítico, ético e solidário, e que ser um jovem empreendedor é assumir-se responsável pelo processo de humanização do ser humano; é constituir-se como cidadão do bem para contribuir para a melhoria da qualidade de vida no nosso planeta — nossa morada.

Reafirmamos, assim, que o empreendedorismo jovem deve ser compreendido como protagonismo juvenil, porque o/a jovem constrói a sua marca no exercício da cidadania.

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE, Targélia de Souza. Ética e Avaliação: Uma Reflexão Crítica à Luz do Pensamento de Paulo Freire. In: CALADO, Alder Julio Ferreira (org.). Conferências dos Colóquios Internacionais Paulo Freire (II). Recife: Bagaço/Centro Paulo Freire, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. 35 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

GAARDER, Jostein. Ei! Tem alguém aí? São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1997.

HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

RICCA, José Luiz. Empreendedorismo Jovem. Sebrae 2004. (Texto recebido e aceito para publicação on-line em 20 de julho de 2004). Para uma pesquisa mais completa, visite o site: http://www.gemconsortium.org/category_list.asp?cid=123 (Consulta técnica em 9 de junho de 2009).

RIOS, Terezinha Azerêdo. Compreender e Ensinar. Por uma docência da melhor qualidade. São Paulo: Cortez, 2001.

Targélia de Souza Albuquerque é doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pesquisadora da Cátedra Paulo Freire – UFPE, sócia-colaboradora do Centro Paulo Freire, professora de cursos de pós-graduação da UFPE e da Facho e professora do curso de graduação em Pedagogia da Faculdade Santa Catarina.

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