Edição 06

Matérias Especiais

Entrevista: Hugo Monteiro

Mestre em Letras e Lingüística. Coordenador do Projeto de Alfabetização de Adultos do Instituto Espírita Allan Kardec e Lar Ceci Costa. Professor da FAINTIVISA, UPE/PROGRAPE. Autor da Coleção Língua e Lingagem na Construção do Conhecimento – Ensino Fundamental II – Editora Construir.

CN. No Brasil, conforme o IBGE, cerca de 13,3% da população escolar são analfabetos. Este percentual, quando lido em números, significa dezoito milhões de pessoas com mais de quinze anos de idade. Considerando tais números, o que é possível fazer para que este mal seja erradicado de uma vez por todas?

HM. O número estatístico, apresentado pelo IBGE, não representa a realidade dos fatos. Se o Brasil possui cerca de cento e setenta milhões de habitantes e somente um por cento desse quantitativo chega às universidades, as contas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística estão erradas. Há muito mais analfabetos no Brasil, e a razão pela qual eles existem é muito complexa, envolve decisão política e investimentos financeiros na educação de jovens e adultos. A educação brasileira, como todos sabem, é vítima da improbidade dos homens públicos. Os analfabetos são tão-somente o exemplo claro do quanto a cidadania brasileira, como quer Dimenstein (1989), é de papel.

CN. Paulo Freire, certa vez, disse que a leitura da palavra MUNDO é posterior a leitura do MUNDO. O que isso quer dizer na prática?

HM. Penso que a leitura é um processo metacognitivo, portanto não está presa aos códigos lingüisticos. Penso também que Freire acreditava na leitura como algo capaz de propor sentidos amplos e diversos. Um homem não-escolarizado é um leitor, pois interpreta e interfere no mundo que o cerca. Ler é algo que independe da escola e do conhecimento intelectual. Ler é uma praxe exclusivamente humana. A escola ensina a teoria da língua e a descodificação dos signos, mas não é a escola que ensina a um lavrador o momento exato em que a terra está pronta para o adubo.

CN. Como a nossa sociedade é eminentemente gráfica, quais as conseqüências vividas pelo homem analfabeto?

HM. Sem saber ler, o homem é excluído do sistema. Socialmente, fica aleijado. Coisas necessárias como emprego e auto-sustentação passam a ser questões de enormes dificuldades. Se não domina o código escrito de sua própria língua, o homem não consegue atender às solicitações do mercado de trabalho, bem como não consegue participar do jogo das intervenções sociais. Nenhuma sociedade, cujo objetivo maior seja o desenvolvimento e a construção da cidadania, permite a existência do analfabetismo. Quando não consegue dominar o signo verbal, o homem tem a sua estrutura ameaçada.

CN. 54% dos analfabetos brasileiros estão no Nordeste. Por que isto ocorre?

HM. A região Nordeste é caracterizada pela pobreza e pela miséria. A má distribuição de renda, bem como a ausência de políticas sérias e bem orientadas, indicam porque o analfabetismo é maior entre os nordestinos. O problema do analfabetismo é menos lingüístico e mais social. Só existem muitos analfabetos no Nordeste porque nossa região é desrespeitada e desconsiderada. Há mais idosos analfabetos do que jovens; mais negros do que brancos; mais mulheres do que homens, ou seja, as minorias são sempre prejudicadas nesse jogo absurdo que se transformou o mundo contemporâneo.

CN. O Brasil é uma fábrica de Analfabetos?

HM. Para mim, infelizmente ainda o é. O que vejo são as crianças abandonarem as escolas após a conclusão do ensino fundamental 1, pois precisam começar a trabalhar para ajudarem na renda familiar. A autora gaúcha Lygia Bojunga Nunes em seu livro A Casa da Madrinha (1996), apresenta-nos Alexandre, um menino morador de um morro no Rio de Janeiro e que, por necessidade financeira, precisa abandonar os estudos. Alexandre é somente um entre tantos. O Brasil é uma fábrica de analfabetos e os analfabetos brasileiros são os cidadãos sem palavra escolar, mas com a palavra de vida.

CN. Como assim?

HM. Se Alexandre precisa deixar a escola porque necessita vender amendoim nas ruas e ganhar uns trocados, ele, deixa de aprender a cartilha, mas compreende quais são as palavras do mundo. Não é fácil ser pobre em um país como o nosso. É difícil deixar a escola, mas a escola também não é lá essas coisas. A questão não é possuir números que digam: olha lá, eles estão todos matriculados. O problema é mais sério. Estar não significa ficar na escola, aprender na escola, ser na escola.

CN. O que o senhor pensa sobre o método de Paulo Freire?

HM. Penso que é um dos melhores do mundo. Penso que a idéia de Freire é fantástica. E sei que poucas pessoas o compreendem, pois compreendê-lo requer algo de ética e de estética. A Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco promoveu ciclos de estudos cujo objetivo era a alfabetização de adultos. Alfabetizando, aquele que, sabendo ler a vida, não sabe ainda, ler as letras da vida. Ao meu ver, Paulo Freire não quis ensinar a ler pura e simplesmente, quis promover a democracia. Aprender a partir de temas geradores, palavras matrizes, currículos em movimento, metodologias ativas e participativas, foi a função de Freire. Pedagogia do Oprimido, da Paz e Terra, é livro de cabeceira de todo educador. Eu o li há tempos, mas sempre que o encontro, aprendo mais e mais.

CN. O adulto é um aluno fácil?

HM. O adulto é um aluno complexo. Sua experiência de vida, afetiva e cognitiva, o põe em situação distinta. Ele não é um aluno fácil, mas, em muitos casos, é um herói, pois vence inúmeros obstáculos para ir à escola. Há adultos que não sabem ler porque a vida os impediu. A zona rural é repleta de agricultores desejosos das palavras, mas impedidos pela infra-estrutura. As escolas distantes. O cansaço enorme. Uma vez, um aluno me disse “O lápis pesa, professor. Mas tenho é força”. O ano passado, estive em Parnaíba Piauí, dando um curso de Alfabetização para adultos, vi homens vindo aprender a ler e a escrever, à noite, “depois da lida”, após terem andado cerca de duas horas a pé. Não é fácil ser um aluno adulto, moça.

CN. O que é possível dizer de otimista?

HM. Que outubro é mês de eleição e que votar é a única forma democrática de mudança. Acredito que um país de analfabetos não se sustenta em meio ao caos no qual nos encontramos. Obrigado!

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