Edição 19

Pintando o 7

Entrevista – O pai da Mônica

Foi mais ou menos assim que aconteceu: ele chegou em casa e começou a prestar atenção nas filhas. E lá estava a Mariangela, a primeira filha, brincando com a Mônica, que arrastava um coelho pela casa tentando bater na Magali, que comia uma melancia inteira… Parece até história em quadrinhos. E é. O pai dessas garotas é Mauricio de Sousa, cujos personagens criados há mais de quarenta anos despertam o interesse da garotada até hoje e formam gerações de brasileiros encantados com as saudáveis molecagens da turminha da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, do Bidu, da Magali…

Aos 67 anos, Mauricio orgulha-se de ser comparado a Walt Disney e calcula que já vendeu mais de 800 milhões de revistas no Brasil. Hoje, ele e a filha Mônica administram uma verdadeira linha de montagem, com três mil produtos licenciados para 160 empresas. O paulista de Mogi das Cruzes, que começou a carreira de desenhista de quadrinhos em 1959, oferecendo suas tiras a jornais pelo correio, além de workaholic assumido, montou uma organização onde o trabalho ininterrupto é feito com prazer. Nesta conversa, ele nos conta sobre sua paixão pelo trabalho e revela planos para o futuro.

Antoniolli Assessoria & Marketing: Mônica é seu personagem de maior sucesso?
Mauricio: Mônica é o carro-chefe da empresa. Foi inspirada em uma das minhas filhas, e o detalhe interessante é que ela foi meu primeiro personagem feminino. Quando comecei a publicar as primeiras tiras do Bidu, em 1959, na Folha de S. Paulo, as histórias eram com o Bidu, o Franjinha, o Cebolinha, o Manezinho, o Jeremias e o Titi. Só homem. Aí alguém da redação da Folha perguntou se eu era misógino. Corri ao dicionário para ver o que significava a palavra e, quando encontrei, disse: “Não tenho aversão às mulheres, só que não sei criar um personagem feminino porque tudo que escrevo vem da minha vivência”.

AAM: Como você resolveu esse problema?
M: Fui para casa e comecei a prestar atenção nas minhas filhas. E lá estava a Mariangela, minha primeira filha, brincando com a Mônica, que arrastava um coelho pela casa tentando bater na Magali, que comia uma melancia inteira. Então, criei os personagens baseados nas meninas, fiz uma caricatura psicológica e deu certo.

AAM: E quanto a seus outros personagens? Quem os inspirou?
M: A maioria tem relação com minha infância. O Cebolinha era um garoto que andava por perto de minha casa. Foi meu pai quem lhe deu esse nome, por causa do cabelo espetado. Ele era amigo do Cascão, que também existiu e inspirou o personagem; Franjinha era um sobrinho meu que morava em Bauru; Chico Bento era um tio-avô que não cheguei a conhecer, mas minha avó me contava muitas histórias dele.

AAM: De onde vem seu sucesso?
M: Acho que do fato de as histórias serem inspiradas em pessoas de carne e osso. E porque representam situações que todo mundo já viveu. É a tal identificação.

AAM: Qual a filosofia de suas histórias?
M: A de esperança confiante. São histórias que mostram crianças saudáveis e que acreditam que, no fim do dia, na hora de a mãe chamar para tomarem banho e dormir, se não deu para fazer o que queriam, amanhã será outro dia.

AAM: O mundo mudou nesses quarenta anos. Como isso afeta seu trabalho?
M: Felizmente, o mundo mudou e nos permitiu usar novas e maravilhosas ferramentas. A filosofia não mudou, sofisticou-se. No começo, quando eram só as tiras no jornal, não imaginava estar fazendo histórias para crianças. Mas os personagens eram crianças e, com isso, eles pegaram a garotada. Com o passar dos anos, descobri que era um autor para criança. Mas, como o público adulto não nos abandonou, hoje temos a dupla responsabilidade de contar uma história que agrade a criança e seja, ao mesmo tempo, cativante para os adultos.

AAM: Com qual personagem você mais se identifica?
M: O Horácio, que é a única história que desenho e escrevo sozinho há trinta anos. Fui ficando tão íntimo do personagem que não só não consegui passá-lo para a equipe de desenhistas, como sou capaz de escrever e desenhar quadro a quadro, sem rascunhos, as histórias dele. Quando chego no último quadro, a história já tem o ritmo correto, está no ponto final, certinha.

AAM: Você lê outras revistas?
M: Uma das tiras de que mais gosto em jornal é Hagar, o horrível. Will Eisner, criador do Spirit, é o desenhista de quadrinhos que mais me influenciou. Agora somos amigos, trocamos correspondências.

AAM: A Turma está em outros países?
M: Nós estamos nos Estados Unidos, em Portugal, na Grécia, Itália, Indonésia e no Japão. Em outros tempos tínhamos revistas em mais de vinte países, principalmente na Europa. Depois veio a onda do desenho animado japonês. Então, tivemos de refluir, e agora vamos voltar. Por isso, estamos correndo para terminar séries de filmes para a TV. Vamos não só recuperar como dobrar o número de países que tínhamos antes.

AAM: O que você acha da idéia de ser chamado de Disney Brasileiro?
M: Isso me honra muito. São caminhos um pouco diferentes, mas o esquema é o mesmo. O desenho puxando o merchandising, que puxa a revista, os parques, o lazer, e assim por diante.

AAM: Quais são seus projetos?
M: Vamos fazer programas dirigidos à pré-escola. No Brasil, há 12 milhões de crianças sem acesso à pré-escola, mas com acesso à TV. Cada casa, por mais modesta que seja, tem uma TV. Nossa idéia é um programa educacional no estilo Vila Sésamo, adequado à nossa realidade. Vai ter animação, bonecos ao vivo, filmagens.

AAM: E seu trabalho na área de saúde?
M: Recebi o título da Organização Pan-Americana de Campeão de Saúde, uma espécie de embaixador. A partir de agora, vou criar filmes e campanhas que espalhem noções de higiene e saúde para a criançada de todas as Américas.

AAM: Você tem a coleção das suas revistas?
M: Eu tenho cinqüenta exemplares de cada revista. E duas peças de cada um dos três mil bonecos e produtos. Estou juntando e pretendo fazer um museu que vai mostrar a história, não só da Turma da Mônica, como do entrelaçamento que houve entre a indústria brasileira e a Turma da Mônica nos últimos 30, 40 anos.

AAM: O que o leva a continuar criando?
M: O que me move é o ato de respirar. É maravilhoso você acordar e falar: “Oba, estou vivo! Estou são! Posso continuar fazendo tudo o que eu fazia ontem e que gosto de fazer”.

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