Edição 79

Lendo e aprendendo

Estou com câncer. E agora?

Jane Maria Rios Wolff
Ronald Selle Wolff

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Quando uma pessoa descobre que tem câncer, há um movimento enorme na vida de muitas outras pessoas que estão no entorno. É como um efeito dominó. Passamos a dirigir com mais cuidado, a cuidar da alimentação, a admirar a natureza, a resgatar a solidariedade. Mesmo não estando diretamente envolvidos, a doença pode nos ajudar, se estivermos abertos à reflexão e à mudança.

Uma das coisas mais difíceis e dolorosas na vida de um médico é dar o diagnóstico de uma doença grave. Gostaríamos que no nosso cotidiano pudéssemos ajudar mães a dar à luz, a curar doenças e a aliviar a dor de nossos pacientes. Dar essa notícia é um desafio. Afinal, câncer e morte, para a maioria das pessoas, são a mesma coisa, porque desencadeiam o medo do futuro, da dor e do sofrimento e a consciência da finitude da vida.

A que colo poderemos recorrer nessa hora? Com quem poderemos chorar, gritar, acusar e despejar todas as nossas frustrações? E quando isso acontece com uma criança? Os pais tendem a colapsar. “Por que isso aconteceu com meu filho?”, “Por que comigo?”. Mas a verdadeira pergunta que devemos fazer é: para que isso me aconteceu? O que eu preciso aprender que ainda não aprendi? O que preciso rever e como devo me pautar para transformar isso tudo?

Como encarar?

Podemos lamentar o amor não vivido, não expressado para aqueles que amamos e que podemos perder a qualquer momento. A culpa também é um sentimento que se apresenta: Será que fiz algo de errado? Não cuidei direito de meu filho? Não fiz o que devia fazer? Lembro da música Epitáfio, dos Titãs: “Devia ter amado mais [...] ter visto o sol nascer [...]”.

lendo_2E podemos escolher que atitude tomar diante do fato. Podemos enfrentar o câncer como uma oportunidade de mudança de vida, transformar nossas prioridades, colocar a vida em primeiro lugar. Aliás, é assim que deveria ser. Percebemos que a humanidade vive desavisada, desatenta, não vigilante e aceita todas as ordens transmitidas pela mídia, que nos impõe um modelo estreito, superficial e obediente de vida. Passamos a ser passivos, reféns de uma ditadura do consumismo, e aceitamos um modelo de sucesso que nada mais é do que uma luta inglória, solitária e altamente competitiva para atingirmos a posição do tal sucesso.

Agimos como se tivéssemos desistido de nossa própria humanidade…

Deixamos de ser protagonistas da nossa história e deixamos de ser sujeitos. Daí para a depressão é um passo… Nossas defesas ficam vulneráveis. Todo tipo de doença pode se originar a partir do momento em que temos nossa defesa imunológica diminuída. Certamente alguma doença virá. Vem como um aviso, sintomas que nos querem dizer que devemos mudar o rumo de nossas vidas.

A doença, vista dessa forma e se bem interpretada, vem para nos salvar. Para que tomemos consciência de nossa vida, de modo que seja possível, antes que seja tarde, uma mudança de rumo, como se estivéssemos reiniciando. O livro A Doença como Caminho, de Thorwald Dethlefsen, é uma excelente reflexão sobre essa situação, com uma linguagem direta, simples e que serve tanto para profissionais como para os leigos na área da saúde.

A esperança

É na nossa mão e na nossa intenção que deve sempre estar o poder de decisão sobre nossa vida. Assim, nosso presente nos dará como consequência um futuro pensado e decidido por nós. É extremamente relevante perceber que o dia de amanhã virá tal qual foi plantado hoje. Se semeamos paz, alegria, felicidade, luta por dignidade, certamente colheremos vida no seu mais pleno sentido: com saúde e felicidade. Isso é tão simples… Por que será que as pessoas insistem tanto em se enquadrarem em modelinhos só para agradar aos outros?

Precisamos resgatar a esperança, centrar nossas forças e lutar. O câncer tem cura, principalmente se diagnosticado em fase inicial. Repito: o câncer tem cura quando curamos o nosso coração. Abrimos o peito para o amor e para a vida. Já dizia um pensador: “Podemos viver uma vida simples, mas espetacular. Cheia de vida, porque é cheia de amor, que se traduz no cotidiano através da compaixão, do bem-querer, da solidariedade, do respeito e da tolerância. É um tempo difícil, mas um processo que pode ser de muito crescimento e transformação. Dessa forma, além do câncer, também a vida terá cura…”.

Jane Maria Reos Wolff é médica de família e homeopata, Porto Alegre, RS. Endereço eletrônico: jmrwoll@gmail.com.

Ronald Selle Wolff é médico generalista, Porto Alegre, RS. Endereço eletrônico: ronaldswolff@gmail.com.

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