Edição 106

Foco na educação

Estrutura Sistêmica no ato de educar

Rosangela Nieto de Albuquerque

Atualmente, é comum ouvirmos que se deve manter o foco nos estudos para se conseguir aprovação em escolas ou concursos. As pesquisas já elucidaram que cada vez mais o indivíduo diminui o tempo de foco ou a atenção para realizar suas atividades diárias. Nesse contexto, o foco, a atenção e a concentração estão reduzidos, e, na escola, a aprendizagem certamente fica comprometida.

Os estudiosos remetem a várias causas esse estágio de falta de foco das pessoas para realizar suas tarefas e atividades; certamente, vivenciamos um período de muitos estímulos e uma concentração fugaz.

O mundo está se transformando cada vez mais rápido, mudanças comportamentais e estruturais vão se forjando, assim o homem contemporâneo, inserido numa sociedade de mudanças, acompanha esse novo paradigma. Atualmente, fala-se muito em ter foco para atingir objetivos, alcançar metas, solucionar problemas, isso nos remete a refletir sobre as estruturas que são construídas no sujeito ao longo de seu desenvolvimento.

Todos sabemos que vivemos numa sociedade de estímulos (visuais, auditivos, sinestésicos), e o desenvolvimento tecnológico também contribui para a dispersão do foco, da atenção. Os estímulos que os indivíduos vivenciam diariamente são tantos que é necessário definir em que focar, isto é, estabelecer ordem de urgência, de prioridade, para se realizar as atividades. Na família, emerge a necessidade de educar os filhos numa sociedade de múltiplas exigências, que permeiam desde questões emocionais até profissionais. Muitos pais buscam a construção de um currículo impecável para os filhos quando a criança ainda está em desenvolvimento e não compreende o excesso de cobranças, originando, assim, múltiplas atividades e estudos complexos em todos os campos de conhecimento.

Nesse contexto, é importante refletirmos sobre a família como um sistema dinâmico de relações, onde seus membros interagem como estrutura funcional.7

A família, certamente, como parte de um convívio social, vai desempenhar sua função de elo entre a sociedade e seus membros. Contextualizada nas mudanças contemporâneas, permeadas pelas comunicações e pelos novos ideais, torna-se evidente a necessidade de uma abordagem global, sistêmica, que dê conta da compreensão das enfermidades do sujeito, da complexidade das relações e da educação em família, surgindo, assim, o pensamento sistêmico nos estudos dos sistemas humanos.

Partindo da concepção linear-mecanicista de Descartes e Newton, a teoria sistêmica tem caminhado lado a lado com a física quântica, uma mudança na visão de mundo, portanto, da concepção linear-mecanicista para uma visão holística e ecológica.

Maturana e Varella, em 1980, já enfatizavam em seus estudos a teoria da autopoiese, originada da biologia, que emerge da relação do ser vivo como um sistema autopoiético, caracterizado como uma rede fechada de produções moleculares (processos). Pode-se dizer então que este estudo remete à relação da autopoiese à vida familiar. Portanto, a conservação da autopoiese articula-se à adaptação de um ser vivo ao seu meio, condição sistêmica para a vida.

Do ponto de vista conceitual, a teoria sistêmica pode ser caracterizada como resultado de uma integração de elementos que interagem e se influenciam mutuamente. Um sistema pode ser definido como um complexo de elementos em interação mútua. Esta definição pode ser aplicada para o indivíduo, para a família ou mesmo para a sociedade (BERTALANFFY, 1976). Na teoria clássica, predominava o pensamento técnico, como o da teoria comportamental, que tinha como ênfase da sua abordagem os fatores sociais.

A concepção sistêmica baseia-se na “[...] consciência do estado de inter-relação e de interdependência essencial a todos os fenômenos físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais, formando redes” (CAPRA, 1995, p. 85).

Para Capra, o pensamento sistêmico é um pensamento “contextual”, isto é, ‘‘[...] sempre que olhamos para a vida, olhamos para redes”, é a teia da vida; as relações são contextualizadas e encontram-se conectadas como uma teia, redes conectadas com nodos com redes menores, num sentido de entrelaçamento e interdependência entre os fenômenos — na família, o sistema (pais) e os subsistemas (parentes). A Teoria Geral dos Sistemas foi desenvolvida por Ludwig von Bertalanffy, na década de 1930, e pretendia explicar os eventos complexos da realidade.

Para educar os filhos na atualidade e nas complexas estruturas da realidade, a família funciona como um sistema, envolvida na própria estrutura de valores, princípios e disciplina. Para Bertalanffy, a realidade é composta de sistemas, que se arranjam por elementos interdependentes, e, certamente, o seu funcionamento (da realidade) não pode ser visto de forma isolada.

Se para Munhoz (2001) a família é como uma célula social que faz a ponte entre o indivíduo e a sociedade na qual está inserida, a importância da família é grandiosa na formação do sujeito, que, em constante interação, promove mudanças por meio dos ciclos vitais individuais e familiares.

Em vários conceitos de família, de forma geral, a ideia é de um grupo de pessoas que vivem numa casa e compartilham elos comuns, ou seja, elos com laços consanguíneos ou não; para a psicologia, família envolve os aspectos interpessoais e a responsabilidade no desenvolvimento da personalidade dos filhos. Nesse contexto, há, numa relação familiar, sistema (pais) e subsistemas (parentes).

A família como um sistema ativo em constante transformação, como um organismo complexo que se altera com o passar do tempo e participante do desenvolvimento psicossocial de seus membros, tem sua base na educação. E, assim, vive o desafio de educar.

Nesse contexto, a teoria de família sistêmica teve suas origens na teoria dos sistemas; portanto, na perspectiva sistêmica, todos os elementos estão conectados dentro de um mesmo padrão, e a ênfase é colocada na totalidade e na interação entre as partes. Há uma influência, mesmo que não seja visível. A concepção sistêmica da família perpassa a lógica de que nenhuma família é igual a outra, e cada uma tem a sua complexidade. É o que chamados de identidade familiar. Portanto, cada uma tem uma identidade, e cada sujeito tem o sentimento de pertencimento.

Após essas reflexões, é natural compreendermos a complexidade do ato de educar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atualmente há uma ansiedade dos pais quanto à educação dos filhos: preocupam-se com o futuro e focam em selecionar boas escolas com ensino de qualidade. Nessa busca, envolvem-se em muitas horas de trabalho, delegando a educação a subsistemas (parentes, babás, creches e escolas).

Numa análise generalista, cada família constrói a sua história, e, nesse contexto, há ganhos quanto à perspectiva social, cognitiva e sociocultural, pois família, como sistema e subsistemas, fomenta a multidisciplinaridade, que oportuniza ações integradoras, interações, desenvolvimento nas relações interpessoais e, consequentemente, desenvolvimento humano.

ALMEIDA, M. C. & CARVALHO, EA. (Orgs.) Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2002.

BATESON, G. Mente e natureza: a unidade necessária. Rio de Janeiro: Francisco Alves, Editor, 1986.

BERTALANFFY, L. Teoria geral dos sistemas: aplicação à psicologia. In: BERTALANFFY, L. et al. Teoria dos sistemas. Rio de Janeiro: FGV, 1976.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. Trad. Álvaro Cabral. 14. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.

FERNANDEZ, A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

MATURANA H. R., VARELA F. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. Trad. de Jonas Pereira dos Santos. Campinas: Psy II; 1995.

MUNHOZ, M. L. P. Casamento: ruptura ou continuidade dos modelos familiares. 2. ed. São Paulo: Expressão & Arte, 2001.

______ . Bases teóricas da visão sistêmica. In: Andrade, M. S. A produção de conhecimentos: métodos e técnicas de pesquisas em psicopedagogia. São Paulo: Memnon, 2002.

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