Edição 19

O livro da vez

Exercícios de Ser Criança

Nestes Exercícios de Ser Criança, encontramos dois textos escritos em prosa poética — O menino que carregava água na peneira e A menina avoada — que apontam a imaginação, a liberdade e a ludicidade como elementos essenciais no processo de conhecer o mundo e de recriá-lo. O menino que carregava água na peneira fala-nos, com a beleza das palavras e das imagens bordadas por todas as páginas, do sentido do fazer poético e da própria poesia: carregar água na peneira, como o menino da história fazia, “era o mesmo que roubar um vento e sair correndo”, “o mesmo que catar espinhos na água”, “o mesmo que criar peixes no bolso”. O menino, “que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira, com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira”. É com essa bela imagem, reiterada ao longo do texto e utilizada em seu título, que o autor sintetiza a “gratuidade” do fazer poético e da poesia, caracterizando-os como uma criação que não é utilitária, que não tem uma finalidade explícita, e tratando a obra de arte como um exercício de imaginação e de liberdade para provocar os sentidos. Em A menina avoada, a “gratuidade” das brincadeiras infantis e a força da imaginação para criar um mundo a partir das coisas mais simples se apresentam na construção do carro que era feito com um caixote e duas rodas de lata de goiabada, puxado pelo irmão maior por uma corda, “mas o carro era diz-que puxado por dois bois”. Assim, a simplicidade de fatos do cotidiano é aqui recomposta por meio de uma linguagem que imprime beleza e significados mais amplos aos “Exercícios de Ser Criança”. Na apresentação do livro, o poeta sintetiza as idéias a respeito da poesia nele contida com as perguntas feitas por um menino a seus pais num aeroporto:

“— E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternura e pensou: ‘Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será?…’”

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