Edição 58

Matérias Especiais

Filhos de pais separados

Paula Gusmão

Não dá para fechar os olhos diante de um tema sério como a separação de um casal. Afinal, esse episódio pode ser traumático, especialmente para as crianças e os adolescentes. Apesar do fim do relacionamento, os pais devem agir com respeito e dialogar com seus filhos, que precisam de amparo nesse momento.

O amor materno e paterno cooperam para uma vida plena e saudável emocionalmente, pois os pais são alicerces para a construção dos valores que o ser humano deve conhecer. Eles serão, na vida dos filhos, os responsáveis para que busquem novos espaços sociais e, dessa forma, adquiram um crescimento pessoal. As figuras do pai e da mãe, em suas essências, são necessárias para que um indivíduo possa se constituir em um ser capaz de receber e proporcionar afeto.

Ex-filho não existe

Os filhos precisam ser acolhidos pelos pais em suas necessidades. Na separação, deve existir a preocupação com os sentimentos que surgem nos filhos para, assim, preservá-los. Os pais devem proporcionar-lhes uma condição humana preservada dos entraves, até mesmo jurídicos, que venham a ocorrer. O que acontece, entretanto, é que muitas vezes, durante a separação, os filhos são usados como trincheiras dos pais, que deixaram de ter uma relação amorosa. Estes vivem, às vezes, uma relação mais comercial — em que as partes envolvidas disputam cada grão do patrimônio a que asseveram ter direito.

Como salienta a canção do grupo Legião Urbana, a separação que ocorre entre os pais atinge significativamente os filhos. Embora juridicamente haja termos como ex-mulher ou ex-marido, a expressão ex-filho não existe em hipótese alguma. Ou seja, não há como romper os laços de afeto e o vínculo entre pais e filhos. Estes, mesmo que tenham os pais separados, serão sempre filhos.

Com o tempo, eles passam a entender a nova dinâmica familiar, passam a ter a casa da mãe e a do pai. Os pensamentos podem ficar confusos com a nova maneira de viver. E, não raras vezes, essa confusão ilustra comportamentos diferentes que passam a existir nos mais variados ambientes — em sua vida escolar, por exemplo.

Outra situação que também poderá ocorrer é o filho se posicionar ao lado de uma das partes envolvidas na separação. Assim, quando os pais não esclarecem para seus filhos que o que ocorreu foi uma modificação nos afetos que existiam entre eles — como homem e mulher —, os filhos podem adquirir sentimentos diversos: raiva, culpa, mágoa e até mesmo indiferença.

Muitos filhos projetam em seus pais uma possível reconciliação e ficam na expectativa. Quando isso não ocorre e os pais estão bem-resolvidos, passam a se sentir culpados. É normal haver alterações no comportamento dos filhos envolvidos, mas, se forem amparados diante de sua fragilidade com essa nova realidade, estarão em condição de traçar o objetivo de sua vida.

É preciso amar

Então, como deverão comportar-se esses filhos? Primeiro, os pais devem compreender que eles não fazem parte da separação, ou seja, não estão se separando dos filhos. Assim, o carinho que existia entre eles continuará, mesmo em outra localidade.

Pais e Filhos
Intérprete: Legião Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

[...]
Eu moro com a minha mãe,
mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém.
Eu moro em qualquer lugar.

Já morei em tanta casa
que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.

É preciso amar as pessoas como se
não houvesse amanhã.
Porque, se você parar para pensar,
na verdade não há.
[...]

E como lidar com isso? Um bom caminho é haver um diálogo aberto entre pais e filhos. Conhecer os pontos de vista de cada um sobre a situação. Da mesma forma que os filhos partilham fatos e situações com seus amigos, os pais devem acolher o que está se passando em suas mentes. Ao revelar o que pensam sobre a situação, os filhos estarão amadurecendo, dentro deles, o que está acontecendo.

É necessário que o amor configure o respeito entre os envolvidos. É preciso amar as pessoas, porque uma auxilia a outra a optar pelas diversas escolhas que a vida oferece. Ser filho de pais separados não anula o fato de ter surgido da união de duas pessoas, num determinado momento do passado. E esses filhos levam o vínculo de afeto com eles, independentemente da casa e do lugar em que estejam.

Paula Gusmão é bacharela e licenciada em História pela UFPR, estudante de Psicologia, professora da rede pública do Estado de São Paulo. Endereço eletrônico: paulagusmao@hotmail.com.

Mundo Jovem – Um jornal de ideias. Ano 48, n. 408, julho de 2008.

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