Edição 16

Matérias Especiais

Filhos reais ou virtuais?

Cláudia Werneck

Presidente da República. Astronauta. Atleta olímpico. Maior jurista do Brasil. Desde crianças, imaginamos o futuro brilhante de nossos filhos. Gestação, parto, primeiros dias em casa… tudo quase perfeito. Alguns recém-nascidos são bem diferentes daqueles acalentados em sonhos. Em vez de um bebê moreno e cabeludo, nasce outro, de pele clara, careca. No lugar do roliço, chega um pelancudo, magro demais. O olho azul do avô não veio, mas… e daí? “Importa é que tenha saúde.” Santa frase. Diante dela, agradecemos a um Deus a graça recebida, e a frustração desaparece.

E o que acontece quando o bebê real é muito, muito diferente do bebê desejado? Nem pior nem melhor, apenas muito diferente. E se o recém-nascido não tiver nada de lindo ou de saudável (na concepção mais comum, mesmo que dúbia, desse vocábulo)? Que mancha enorme e avermelhada é aquela bem na face do bebezinho? E se ele chegar sem um dedinho, for prematuro, precisar se operar com urgência, tiver uma disfunção qualquer? Uma alteração genética? Nesses casos, perderá sua humanidade? Desânimo, susto, medo, choque. Incentivados por toda a vida para receber filhos virtuais, é natural que os pais sintam dificuldade em lidar com esse filho real. Culturalmente, somos ensinados a planejar o futuro de um filho-sonho. Mas, ao receber nos braços um bebê com algum tipo de comprometimento, seremos capazes de imaginá-lo sentado na cadeira do presidente da República? Ou ganhando o Prêmio Nobel de Física? Ou simplesmente — e o mais importante — sendo um cidadão (ou cidadã) e pai (ou mãe) de família produtivo(a) e feliz?

Pediatras, enfermeiros, obstetras, com freqüência, também costumam ser inábeis diante do recém-nascido que não corresponde à expectativa dos familiares e da equipe médica. Em vez de fortalecerem os vínculos afetivos entre mãe, pai e filho que se iniciam naquele instante, muitos profissionais da área de saúde (os primeiros a ter contato com a família), por falta de informação (não de conhecimento técnico) e de consciência sobre a importância de seu papel, agem constrangendo, dando àquele bebê o lugar do “doente”, do “diferente”, do “deslize da natureza”, como se a humanidade fosse absolutamente homogênea, previsível, imutável. O ranço da homogeneização permeia humanos de qualquer idade. Até mesmo os adolescentes, que hoje se rebelam por seus pais exigirem deles comportamentos estereotipados, já se exercitam nos sonhos de um filho idealizado.

Voltando ao recém-nascido, se a limitação é séria, ou pelo menos visível, até as visitas, tão gentis e bem-intencionadas, também se enrolam. Perdem a naturalidade e evitam fazer perguntas costumeiras, que toda mãe adora responder: “Ele está mamando bem?”, “Chora muito?”, “Tem cólicas?”, “Parto normal ou cesariana?”. Poucos amigos se arriscam a fazer o clássico jogo que dá ao recém-nascido o direito de ser percebido, genética e afetivamente, como prole: “Olha a boca, é do pai”, “Tem uma implantação de cabelo igualzinha à da avó materna”, “Lembra demais o irmão quando nasceu”, “Guloso que nem a prima”.

Tantos equívocos de abordagem refletem a cerimônia que temos com aquela que deveria ser a mais estimulada de todas as reflexões desde a infância: a ética do indivíduo com sua espécie, a antropoética, reflexão que deveria anteceder às próprias questões sociais. Ao contrário, o tema diversidade humana, que até já entra nas discussões comunitárias, nas salas de aula e no currículo das faculdades, entra por força de lei como algo menor ou algo a mais, quase sempre um requinte, um detalhe, uma especialização, uma matéria optativa, um extra. Discutir diversidade humana não tem o status de discutir desigualdade social, diferença racial, opção sexual, etc. Mas que absurdo! Como assim? Pois se a diversidade é a característica mais intrínseca do gênero Homo, da sapiens espécie. Reconhecer que a humanidade sempre buscou e buscará diversas formas de se manifestar é assumir um novo eixo ético em todas as relações sociais que nos permitirão ser pais, arquitetos, jornalistas, professores, médicos e psicólogos muito melhores, mais lúcidos, mais eficientes. O bebê nos surpreende com suas diferenças porque é humano. Repito: nem pior nem melhor, apenas surpreendente. Também os filhos adotados, os sobrinhos que ajudamos a criar, os alunos que nos recebem na sala de aula exigirão de nós sabedoria diária para suportar suas diferenças, porque é neles que se legitimam e é através deles que nos renovam. O chamado momento da notícia, aquele no qual reconhecemos o filho que nos cabe, é um exercício que, até a nossa morte, será diário.

Lamentavelmente, famílias inteiras baixam imediatamente suas expectativas em relação a seus recém-nascidos reais por não conseguirem adequá-los a seus recém-nascidos virtuais. Inabilidade que tende a se replicar no relacionamento familiar, iniciado naqueles instantes. Que pena! O futuro de qualquer pessoa é inimaginável. Sem exceções, todo filho, quando chega, é um enigma que nos encanta e amedronta desvendar.

Cláudia Werneck é jornalista, escritora e diretora-executiva da Escola de Gente (Artigo publicado no jornal O Globo, em fevereiro de 2001, inspirado no livro Mas ele não é mesmo a sua cara?, de Cláudia Werneck/WVA Editora).

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