Edição 92

A fala do mestre...

Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida

Nildo Lage

menina_asiatica_planta__optConsumir! Consumir! Consumir! A palavra de ordem retiniu por todo o universo. A indústria fast food agiu com presteza e acionou as suas potentes máquinas na eficácia máxima. A missão era matar a fome de uma geração que nunca se sacia. Produzir! As máquinas do consumo tornavam-se cada vez mais eficazes. “Não desliga! É preciso produzir!” Consumir tornou-se status. O planeta entrou na onda: “Vamos comer, abocanhar, gastar mais energia, mais alimentos, mais água. Poluir rios, mares. O mundo é uma indústria que trabalha em alta rotatividade para nos empanturrar!”. A humanidade foi se desenvolvendo; e os biomas, perdendo terreno para a construção de habitação; áreas colossais foram destruídas para criar, plantar. Quando a ficha caiu, o mundo trilhava o caminho que conduzia a um suicídio planetário. O pânico deu início à temporada do dedo em riste: “Foi você!”. “Não, foi ele!” “Eu não, foi você!” Em resumo, fomos nós! Poucos tiveram a integridade de admitir os próprios erros e assumir que estão degustando a própria casa — o planeta.

O comilão

Muitos bem que avisaram: o mundo está impregnado, abordando o limite de produção. Todos os dedos mudaram de direção. São vocês, Estados Unidos! A verdade é que todos são responsáveis por adotarem um modelo de consumo insustentável, impelindo o planeta a produzir mais e mais para saciar uma sede incontrolável.

Para ostentar a imagem de bons moços, acionaram os alarmes dos órgãos de defesa do meio ambiente, e estes desencadearam — ainda na década de 1960 — a revolução ambiental norte-americana.

Uma década depois, o continente europeu abriu um olho e viu que não poderia permanecer na berlinda. Então, disparou os alarmes alertando outros que avançavam em franca evolução, como Nova Zelândia, Canadá, Japão, Austrália, salientando apreensão com a vida, o que aparentou ser tão somente euforia, pois muito pouco foi feito.

Abordamos a década de 1980. Novos alarmes, novos movimentos percorrem, chegam à América Latina, à Europa Oriental, enveredam pelo sul e leste da Ásia e alcançam a União Soviética. A apreensão alça voo, inquieta os grandes; grupos globais começam a se formar com o intuito de conter o avanço, proteger o meio ambiente. Um mal-avisado brada: “Se o meio ambiente é garantia da vida, vamos proteger o ambiente inteiro!”.

Foi o grito. Conferências e mais conferências. Um fórum após o outro. Poucos deram ouvidos. As empresas, num dissimulado “Oh que desgraça!”, interromperam os passos para apreciarem a destruição. Meras farsas para ostentar as aparências, camuflar ações e intenções (salientando que “cumpriam” o protocolo do mercado verde).

A deglutição aumentou, a produção seguiu o ritmo. A devastação avançou a passos largos e, num piscar de olhos, surgiu uma realidade drástica. O planeta emanou sinais de que estava febril. A Eco-92 atraiu para a cidade do Rio de Janeiro as potências consumidoras do planeta. A realidade apresentada acendeu pânico, tremores. Depois de bate-bocas acalorados, a reconciliação. Dessa união, nasceu a Agenda 21. Badalada, discutida. Mal os glutões regressaram para casa, ela foi esquecida no capítulo seguinte da saga Vamos devorar o planeta e avançaram para não perderem o contato com aquele que afirma ser o futuro. O professor.

Investimentos e mais investimentos. Desmatamento e mais desmatamento. Uma nuvem negra abrolha no horizonte. Os precavidos ambientalistas bradam: “Parem com o avanço. A temperatura vai ascender; e a água, esvaecer!”. O arrogante moço do progresso debochou: “Isso é papo de jacaré tomando sol à beira da lagoa!”. Máquinas foram religadas, e a devastação prosseguiu.

Não teve jeito. As trombetas soaram proclamando o Juízo Final. Mudanças climáticas que provocaram cadências de catástrofes com inundações assoladoras, estiagens intermináveis. E o tão anunciado monstro Aquecimento Global abriu suas fornalhas para assar uma espécie que, prestes a morrer de sede, não sabe o que fazer para reverter a situação.

Conter ou recuperar?
Corra! Quem sabe ainda dá tempo!

O quadro não é nada animador, pois estudos da World Wide Fund for Nature (WWF), uma das mais respeitadas organizações na área de investigação, conservação e recuperação ambiental, apontam que o planeta perdeu mais de 70% das suas espécies de mamíferos, aves e répteis entre 1970 e 2012, alertando que, se não contermos o avanço, o próximo passo nos levará a um ponto irreversível. Daí por diante, não adiantará chorar ou pedir socorro, pois o responsável por destruir tudo pagará o preço, visto que não terá tempo para chorar a própria dor — o homem que deixará de existir por falta de condições para ostentar a vida no planeta.

planta_plantando_sement_optComprimidos nesse paredão de vida artificial, os biomas brasileiros não têm voz, não são notados, muito menos respeitados. O alerta disparado desde a Eco-92 recrutou poucos adeptos. Silenciou no instante seguinte. O desmatamento aumentou, ainda que os estudos alertem insistentemente sobre o aquecimento global e a ausência de água. Instituições aqueceram à medida que a temperatura subia. O Brasil deu as costas para si mesmo. Numa última tentativa, os órgãos salientaram números alarmantes, comprovando que o brasileiro ingere 5,2 litros de agrotóxico por ano, e o governo, que deveria alçar barreiras de proteção aos biomas para garantir a vida, incentiva e investe. Investe tão alto que mais de 80% dos créditos são direcionados ao agronegócio, que 76% das áreas onde se pratica o agronegócio já estão envenenadas e, assim, a agricultura familiar, que garante 72% do alimento à nossa mesa, não tem suporte e transita na contramão, numa constante quebra de braço com o agronegócio, que só entrega míseros 30%.

É preciso consciência, ação conjunta para formar o exército para a defesa da vida, um despertar coletivo. A floresta amazônica, o bioma mais importante do planeta, cuja biodiversidade é desafio para pesquisadores, está sendo devastada; a mata atlântica, que garante um índice pluvial superior ao da Amazônia, restringirá a cada dia o volume das chuvas, fazendo com que a prática da agricultura em algumas áreas reduza drasticamente; o cerrado, mesmo ostentando um clima quente e seco no Brasil Central, é vítima do predador agronegócio que o abocanha para cultivar a soja; a caatinga, que, por ocupar grandes áreas, excepcionalmente no Nordeste, é o menos agredido por uma razão simples: altas temperaturas e longos períodos de estiagem, assim não desperta — por enquanto — o desejo dos latifúndiários e do agronegócio; os pampas, que predominam no território rio-grandense e se alastram por terras ricas, são perseguidos pelo agronegócio por serem propícios ao cultivo do trigo, da soja, do milho e do arroz. A pecuária. O pantanal. Ninguém sobrevive. Todos os nossos biomas estão sendo devastados e suprimidos.

O Código Florestal foi engavetado, suas regras não refreiam o avanço de ocupações e explorações em áreas de preservação nos diversos biomas, pois as degradações dos bens naturais não preocupam a grande maioria que não pensa no planeta. Até mesmo órgãos e instituições fazem vista grossa ante os crimes descomunais.

Amanhã pode ser tarde demais para agirmos, pois hoje não existe absolutamente nada além do cumprimento de acordos de fachada. Falta tudo, compromisso, responsabilidade. Respeito à vida, excepcionalmente, com as novas gerações. Por um fator que todos conhecem, carência de iniciativas para gerarem mecanismos que atenuem o aquecimento de um planeta prestes a explodir, por não suportar produzir para saciar a fome de seus habitantes que se fartam e nunca se saciam.

Falarmos de consciência ambiental é perda de tempo; muito mais, em desenvolvimento sustentável. Temos certeza de que estamos destruindo, compreendemos que a sustentabilidade é o caminho de produzirmos sem devastar. A lei que os governantes mais conhecem é a Lei de Responsabilidade Fiscal. Contudo, desviam recursos, e quem deveria punir faz vista grossa. E, no fritar dos ovos, não sai nada. Esse nada pode fritar outros ovos de espécies raras, pois o aquecimento global promete chegar a um nível cuja temperatura fritará ovos na pedra. É questão de tempo. E o governo? Os órgãos competentes? De braços cruzados e olhos voltados para os próprios interesses. Os biomas? Abandonados na UTI ou devorados dia após dia.

E, assim, a consciência se vai, pois certeza todos temos. Certeza de que, se não reduzirmos a devastação, atrairemos tragédias inimagináveis — secas infindáveis e enchentes assoladoras, e o tão temido aumento da temperatura sobrevirá, especialmente se ocorrer a savanalização da Amazônia, pois o solo amazônico é riquíssimo em ozônio, o que provocará um aquecimento global sem domínio no planeta.

QUE PLANETA? Uma terra sem rumo, sem clima definido, pois o único ser consciente que a habita, responsável por protegê-la para garantir a existência da própria espécie, não está nem aí para a vida, por dar preferência ao econômico, e tais atividades — pecuária e plantações de cana-de-açúcar, palma de azeite, grãos e outros — são imprescindíveis. O Brasil e o mundo têm fome de progresso, e o predador avança na contramão dos biomas, exigindo o seu espaço para que as super-hidrelétricas abram novas vias para escoamento da produção, a extração de minérios. O progresso avança projetado pelo megaGPS que não desvia a sua rota nem para a direita nem para a esquerda, pois seu martelo, quando bate, dá uma sentença implacável: condenar os biomas em prol de seu avanço.

Enquanto o capital competir com a vida, alçando mais e mais o dióxido de carbono na atmosfera; enquanto o lucro for mais cotado do que o próprio existir, não teremos contenções. O alvo será sempre o ter, o acumular. Ganhar mais. Essa é a ótica do capitalismo, que vislumbra tudo como oportunidade de aumentar a receita, afrontando o limitado planeta como fonte inesgotável de matérias-primas e, para saciar a fome de ter, ataca brutalmente os biomas. O clima que se adapte ao seu sistema, pois este não pode mudar; é mais fácil gerar capital para controlar os incêndios florestais, debelar as enchentes, suprir as secas e amenizar os furacões. O que não pode ser contido é a ostentação capitalista, por ser a pedra fundamental da organização da sociedade humana. Todavia, na paisagem pintada pelo capitalismo, salienta-se um planeta com tonalidades cinza, de paisagens áridas, onde o aroma das flores será substituído pelo odor da morte.

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O reflexo do descaso é a tragédia de Mariana. A Samarco foi alertada, notificada. Fez vista grossa. O prenúncio da tragédia não sensibilizou os responsáveis. Não teve jeito, sobreveio. Passou-se um ano, e quem foi punido? Ninguém! A Samarco afiança de que está fazendo tudo certinho, e as consequências do maior desastre ambiental do País salientam as suas vítimas completamente desamparadas. Para se ter noção da destruição, basta iniciar por Gesteira, no município de Barra Longa, no Estado de Minas Gerais; o verde do pasto desmereceu. Não se vê animais pastando, apenas desolação; não há mais riacho, pois o vale por onde corria converteu-se numa lagoa de lama de rejeitos de minérios de ferro e manganês. E a Samarco? Operando para reverter a situação, segundo seus gestores.

Os impactos do rompimento, não abalaram os predadores, que cruzaram os braços e, confortavelmente, apreciaram as inúmeras toneladas de lama tóxica progredirem pelo leito do Rio Doce, assolando a vida aquática. Dias depois, a alegria das margens esvaeceu. Imperou o silêncio. Tudo o que se ouvia eram soluços, gemidos das comunidades ribeirinhas que pranteiam a morte do Rio Doce. Foi-se a vida, foi-se o sustento. E a Samarco? Agindo!

O tempo transcorre, a agricultura e a pecuária recuam. Milhares de famílias estão sem água. Essas famílias, que se instaram nos mais de seiscentos quilômetros de ambas as margens, apreciam desoladas a fonte de vida avançar cansada, arrastando os rejeitos tóxicos que afetaram um dos maiores pontos de desova de peixes marinhos do mundo. Como todo rio corre para o mar, o Rio Doce não poderia ser uma exceção, vazou no Atlântico impregnado de resíduos venenosos.

Enquanto isso, as espécies do bioma planalto central, resistentes a todas as variações climáticas, engalfinham-se pleiteando divisas; outros correm de um lado para o outro, esquivam-se, elevam barreiras, fazem delações para sobreviver às operações das predadoras Lava Jato, Acarajé, Custo Brasil, Zelotes, Acrônimo… A caçada é de uma dimensão que deixou completamente à vontade os predadores dos nossos biomas, e tudo o que se ouve são brados do bioma amazônico que grita: “Socorro!”. O bioma cerrado que grita: “Socorro!”. O bioma mata atlântica que grita: “Socorro!”. O bioma caatinga que grita: “Socorro!”. E a vida? Esta pede licença para prosseguir de encontro ao fim. Agronegócio, extração mineral e vegetal, pecuária e hidrelétricas são mais importantes para um ser que necessita dos biomas preservados para ostentar a própria vida: o homem.

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