Edição 68

Matérias Especiais

Fraternidade e juventude

Rosangela Nieto de Albuquerque

“Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8)

O que deve caracterizar a juventude é a modéstia, o
pudor, o amor, a moderação, a dedicação, a diligência,
a justiça, a educação. São estas as virtudes que devem
formar o seu caráter.
Sócrates

Certamente, o valor universal da fraternidade permeia a conscientização do homem e seu compromisso com o bem-estar comum na vida em sociedade. Através do lema consagrado na Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, busca-se a ideia de que a relação dinâmica entre esses três princípios confere condições de possibilidade para dar efetividade aos Direitos Fundamentais na atualidade. A expectativa é de criar condições de o homem (re)construir um mundo novo, acreditar e investir na capacidade da juventude e, para isso, entender que o homem “[...] é um ser humano imbuído do sentimento de singular humanidade” (Foucault, 1976).

O que é a juventude, afinal?

pag_26_andrea michele p_fmtEmbora os estudiosos acerca da juventude enfatizem que esse é um período bastante complexo, com vários contornos de possibilidades, a literatura contemporânea busca conceitos e explicações mais definidas acerca dos estudos sobre a juventude e, assertivamente, entende que se trata de um período que necessita um olhar multidisciplinar. O que é a juventude, então? Poderíamos dizer que são jovens em transformação? Ou adultos precoces? Sabe-se que na atualidade o homem passa por uma transformação biopsicossocial, a juventude hoje se apresenta com um período de infância reduzido e com uma adolescência que se alonga até a idade adulta.

As estatísticas demonstram que as crianças das classes populares são arrancadas precocemente da condição de infância e são obrigadas a trabalhar, e muitas delas frequentam pouco a escola. Apesar dos avanços acerca dos Direitos Humanos, o Estado, a Igreja e as instituições em geral não conseguem mudar esse quadro. Na verdade, muitas crianças e jovens precisam colaborar com a renda familiar, e grande parte das famílias são monoparentais, centradas principalmente na figura materna, cujos filhos muitas vezes, não raro, têm diferentes pais biológicos. Essas crianças são obrigadas a se transformar em jovens e adultos muito cedo, convivendo com violências de todo o modo.

Em relação às crianças e aos jovens de classe média e das elites — apesar da configuração familiar enquanto referência institucional regular com figuras parentais originárias ou com seus substitutos participando do desenvolvimento do jovem —, observa-se que a adolescência também está começando mais cedo do que outrora, e a idade adulta se prolonga de maneira bem mais longa do que décadas atrás.

Nesse novo paradigma acerca da juventude, com as fases temporais multifacetadas, observa-se que os jovens não mais dominam o espaço urbano nem mesmo o bairro que moram, restringem-se ao espaço limitado das casas e sem muitas possibilidades de movimento. Esse aprisionamento, seja por questão espacial, seja por violência urbana, torna o jovem mais frágil, com sentimento de impotência e sensação de imobilidade psíquica.

Portanto, imóveis, privados da liberdade de expressão (imobilidade psíquica), ceifados da presença dos pais, ilhados pela violência urbana, cerceados nos instrumentos psíquicos de ir e vir, e, em muitos casos, privados de afetividade, sentem-se infantilizados pela condição de dependência, que se arrasta também pelas restrições do mercado de trabalho. A juventude se instaura num cenário paradoxal…

Quem são eles, afinal? Adultos ou crianças? Adolescentes protegidos ou adultos? São eles, o futuro da sociedade? A perpetuação da hominização?

A juventude sofre também com os impasses econômicos e sociais contemporâneos, a escola não prepara o jovem para o mercado de trabalho, há falta de perspectiva em relação à conquista de uma profissão, a segregação de classes é significativa, e a condição de disputa é desumana. Há, portanto, a necessidade de se estabelecer, levar uma vida de adulto e se constituir como sujeito. Hoje, é comum os jovens viverem quase que maritalmente com seu namorado ou namorada na casa dos pais, pois não conseguem estabelecer uma relação de independência econômica e psíquica, com isso, a confusão geracional se institui entre filhos e pais; evidenciam-se então as linhas de fratura de fragilidade em que os jovens se encontram, aumentando assim os efeitos de infantilização e a falta de horizonte para o futuro.

A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar.
Jean-Jacques Rousseau

A fraternidade e as aproximações de sentidos: igualdade, desigualdade e diferença

A Idade Moderna é o marco de referência para a ideia de fraternidade. O processo de evolução histórica registra, mesmo que silenciosamente, o pensamento de fraternidade com uma conotação política. Através do lema: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, constitui-se, justamente nesse momento, a dimensão política da fraternidade que, ao lado da liberdade e da igualdade, compôs os três princípios ideais constitutivos para a introdução de um mundo novo.

Abre-se, então, um espaço para transformar o homem para ser consciente e capaz de (re)construir a vida em sociedade, com condições de estabelecer com seus semelhantes uma relação de igualdade. Certamente, esse conceito é o pensamento-chave para a plena configuração da cidadania, portanto, por princípio, todos os homens são iguais. De certa forma, a fraternidade não está dicotomizada na liberdade e na igualdade, pois, para que cada uma se estabeleça, é preciso que as demais sejam configuradas.

A fraternidade é expressa no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem quando ela afirma que “Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (Sarlet).

O compromisso de tornar a sociedade mais fraterna requer, além da mudança de postura, um olhar multidisciplinar em torno do valor humano. As múltiplas faces da concepção de valor se pautam na formação do sujeito como valor universal e estabelece conexão com o Direito e, consequentemente, com a efetivação dos Direitos Fundamentais.

É importante ressaltar que fraternidade não deve ser confundida com caridade ou solidariedade, que certamente representam significados diferentes. A fraternidade expressa a dignidade de todos os homens, considerados iguais, e assegura-lhes plenos direitos (sociais, políticos e individuais). Nesse contexto, há aproximações de sentidos, porém, um sutil contraste.

A noção de igualdade é muito antiga e complexa, pois se opõe à diferença, que, por outro lado, se contradita com desigualdade. Essa sutil distinção nos remete ao âmbito em que, para o indivíduo considerar sua igualdade ou diferença em relação ao outro, é necessária uma perspectiva semiótica, isto é, uma leitura simbólica que se relaciona com a subjetividade do sujeito.

No contexto da pós-modernidade, a ideia de igualdade tem sido gradualmente abandonada e preterida pela ideia de diversidade.

Certamente, o homem deseja (re)construir um mundo melhor, uma sociedade mais “humana”…

Fraternidade: direito de ser humano

Entender que o homem “é um ser humano”, que pensa e busca a realização e dignificação de ser, é o primeiro passo para refletirmos acerca do que é homem. Quem é o homem? Qual a sua essência? É fruto do meio? Esse ser existencialmente individualizado, complexo, plural e híbrido, certamente, busca entre os Direitos Humanos o direito de ser humano.

Embora em outros períodos da vida o homem busque explicações para a sua existência, é na juventude que se iniciam as indagações e buscas de reconhecimento. Enquanto os Direitos Humanos são reconhecidos como uma forma de defesa dos Direitos Fundamentais do homem, o direito de ser humano perpassa pelo direito mínimo de se tornar mais humano, humanístico, com humanidade, isto é, de possuir uma dignidade de vida.

A dignidade de ser homem está no direito de ser humano através da preservação da própria individualidade, sendo que esta constitui um dos elementos do seu bem-estar. O homem não pode ser reduzido a um objeto. Ele deve buscar ingredientes não somente para ser humano, mas para progredir.

O fato é

Ser homem não garante a representação de um legítimo ser humano. É preciso ser imbuído daquele “sentimento de singular humanidade”. Para que o homem tenha a compreensão de sua humanidade, é preciso, primeiro, encontrar a sua essência (Sarlet).

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Fraternidade: um valor universal a ser
(re)construído

Na estrutura social contemporânea, a espontaneidade individual, valor intrínseco da individualidade, não se configura como fundamental, ou primordial, para o desenvolvimento humano. Portanto, é necessário que o homem se reconheça singular e original, capaz de se conhecer e de compreender a si mesmo e aos outros para construção e (re)construção do homem fraterno. À medida que a individualidade é desenvolvida, a sociedade atinge um patamar de bem-estar e aperfeiçoamento da humanidade, “[...] pois não se determina ao homem livre que seja feliz, mas se propõe que ele seja ele mesmo” (Birman).

A individualidade…

[...] cada pessoa se torna mais valiosa para si mesma e, portanto, capaz de ser mais valiosa para os outros. Há uma maior plenitude de vida na sua existência e, quando há mais vida nas unidades, há mais vida no todo que delas se compõe.
Birman

Para uma (re)construção dos valores fraternos, precisa-se (re)construir a sociedade; assim, é preciso que o homem se coloque em uma atitude de aprender sempre que possível, em respeito a si próprio e aos outros, em um verdadeiro processo de construção que se dá pela soma do estudo e das experiências.

Segundo Sarlet, a possibilidade de ser do homem só se constitui quando ele tem a compreensão de si mesmo e se torna consciente da condição íntegra de construir a si mesmo: “Assim como o homem só se constitui como tal na possibilidade de ser, a sua representação como homem só se qualificará na dignidade de fazer-se”.

Como a juventude contribuirá para um mundo mais fraterno?

Para (re)construir um mundo melhor, antes, o homem deverá construir sua existência singular e concreta, estruturar-se como sujeito, como ser do existente humano, “O homem haverá de ser um mundo pleno, puro, até onde possa alcançar a pureza e a plenitude humana. Ele haverá de ser digno” (Kant).

A construção de uma mentalidade fraterna não depende somente de estabelecer filosoficamente se a natureza do homem é ser justo ou ser bom, mas de superar os seus próprios limites interesseiros e individualistas. Assim, a fraternidade vivenciada na prática, não somente na teoria, torna-se condição para sua (re)construção a cada dia, numa constante dialética de conscientização do homem em relação a si mesmo e aos outros, portanto o direito de ser e de se comprometer com a vida em sociedade, transformando-a num bem-estar social.

É através das novas gerações, da formação de novos sujeitos, que a sociedade se desenvolverá como um todo e, certamente, sairá do seu estágio ainda “primitivo” acerca do bem-estar social. Assim, nesse processo dialético de construção e (re)construção através de novas gerações, o jovem terá um papel fundamental no devir a ser. Para Kant, o filósofo do devir a ser, “As coisas têm preço, mas só o homem tem dignidade”.

Não importa o que fizeram comigo, importa o que eu faço com aquilo que fizeram comigo.

Rosangela Nieto de Albuquerque é doutoranda
em Educação, Mestre em Educação, Mestre em
Ciências da Linguagem, psicopedagoga, pedagoga
e professora universitária.
Endereço eletrônico: rosangela.nieto@gmail.com

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