Edição 75

A fala do mestre...

Fraternidade e Tráfico Humano (Continuação da CF 2014)

Nildo Lage

pag_34_Couperfield_shu_optNas últimas décadas, uma especial bolsa de valores do mundo bateu o martelo, declarando que a mercadoria humana está em alta num mercado que cresce cada vez mais, salientando que, na era do código de barras, o contrabando de humanos aumenta mais e mais para suprir um setor que se tornou uma fonte que jorra milhões de dólares: a prostituição.

A demanda é tamanha que não importa o sexo, a faixa etária. Nesse mercado, a mercadoria humana é rotulada e etiquetada, os valores oscilam, principalmente, quando se referem ao humano “fêmea”, pois a tabela de preços da exploração estabelece requisitos físicos para crianças, jovens e adultos e extrai do humano o seu maior propósito: a liberdade. E, ao asfixiar esse sonho que alimenta, fortalece, assola a mola que o impulsiona a lutar: a esperança.

Essa dor não é apenas física. Todo ser sofre por refletir no emocional, psicológico… transformando a exploração numa tortura, onde o medo, o medo da dor de se transformar num trapo humano só pode ser comparado com o medo da morte.

Contudo, esse comércio de seres humanos se alargou de tal maneira que se enveredou pelos caminhos de todas as Américas, de todos os continentes, a destacar o europeu e o asiático; e os “displicentes” são conduzidos por caminhos bifurcados que levam a uma escravidão contemporânea, que nem os Direitos Humanos, com sua autonomia universal, conseguem abolir.

Na clandestinidade, as vítimas certificam-se de que o emprego dos sonhos jamais existiu ao serem atirados no centro de um letargo, cujas torturas são ininterruptas, e convertidas em servas. A partir desse passo, transformam-se em mercadorias; perdem identidade, pátria… dignidade… a própria honra.

Uma luz no fim do túnel… que se acende… e, no instante seguinte, se apaga…

A exploração sexual é o item top de linha e, por ser o mais rentável, agilidade é a marca dos traficantes. Nesse processo, são determinados critérios específicos, cuidados especiais e procedimentos meticulosos, que vão desde descrição do recrutamento ao perfil das vítimas, que obedecem três segmentos: mulheres, crianças e homens. A partir daí, a condução é executada com extrema rapidez, e a transferência de valores é a isca… O recrutamento é sutil, por meio de uma aproximação natural, e é feito na própria comunidade das vítimas. No Brasil, todas as circunstâncias geram essas oportunidades: a deficiência de políticas públicas restringe as oportunidades no mercado profissional e a deficiência de policiamento nas fronteiras.

Nesse balcão, o produto mulher é o mais requisitado, e os mercadores, com olhos de lince, alvejam um alvo no primeiro lance e escolhem as de baixo grau de instrução, de famílias pobres e, quanto mais jovem, melhor… Se for menor de idade, não tem problema, uma certidão de nascimento extra resolve tudo. Uma vez caídas no laço, não têm como escapar, perdem os documentos e, clandestinas, se veem impelidas a se submeter à vontade dos traficantes.

Já as crianças e os adolescentes, frágeis e vulneráveis, a maioria originária dos continentes asiático e africano — onde a miséria impele pais a entregarem os seus filhos aos mercadores —, não imaginam que a vida que levarão vai além da fome, pois muitas são mantidas agrilhoadas no cativeiro, recebem comida apenas para manter-se vivas e, antes de serem lançadas no mercado do sexo, são abusadas e até mesmo violentadas, e esses monstros não querem nem saber o que será destruído física, emocional ou psicologicamente nessas crianças e adolescentes, pois tudo que querem é prazer, e este, quando se manifesta, desconhece valores, integridade moral e individualidade.

O tráfico para adoção também é uma vergonha, a começar por um país que semeia planos sociais para ludibriar a miséria em terrenos inférteis, alargando ainda mais a distância entre as classes pela deficiência de cidadania. Mesmo sendo uma crueldade, em que a primeira perda é a da nacionalidade, a solidariedade internacional resgata muitas crianças da miséria, do abandono e dos maus-tratos de pais e tutores, pois o alvo é atender, na maioria, casais cujas esposas não podem engravidar ou os esposos são inférteis.

Todavia, o segmento do tráfico humano mais cruel é o para remoção de órgãos.

Essa via é a passagem mais desumana, em que alguém tem que morrer para que o outro viva.

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É preciso redirecionar valores, impor direitos, punir infratores para que os destinos da humanidade ganhem um novo curso e a fraternidade encontre espaço entre os homens. Assim, será redesenhada uma nova rota de regresso, para que felicidade, amor e realizações não sejam tributados e originem, como preço, a honra, a dignidade, a liberdade, a própria vida, que são postas sobre um balcão para serem negociadas.

A carência de amor, de respeito pelo próximo, vem gerando um distanciamento entre as pessoas, a ponto de o outro não ser notado, e essa ausência de afeto impele os comerciantes a agirem com profissionalismo e uma presteza que mal dá tempo para as vítimas — na maioria mulheres — reagirem ou para cair a ficha.

Quando despertam, estão em outro país, em outro continente… completamente à mercê dos traficantes: sem dinheiro, sem entender a língua, sem compreender a cultura e impelidas a obedecer às severas regras, entreveem o sonho de uma vida digna ser estilhaçado pelo martelo do impiedoso tribunal do tráfico, que posterga sentimentos, ultrapassa valores, princípios… O próprio humano transforma homens, mulheres, adolescentes e crianças em mercadoria, ludibriando-os com promessas mirabolantes, que refletem a realidade de um país onde a pobreza é alimentada por migalhas lançadas pelos programas sociais de um governo que não oferece oportunidades de trabalho, principalmente aos jovens que permitem ser seduzidos por anúncios e até mesmo vendidos por familiares ou partem sem rumo definido para tentarem a sorte em outro país.

Maria Z. Z. — nome fictício —, por exemplo, do sertão da Bahia, nasceu no seio de uma família muito pobre. Três irmãs já haviam sido levadas por turistas para São Paulo e foram induzidas a ir para a Europa Oriental pelo mercador José Y. Y., o mesmo aconteceu com ela e mais duas primas que ambicionavam construir o futuro no continente europeu.

Eram muitos sonhos: o maior deles, construir uma casa para os pais e lhes proporcionar uma velhice digna num ambiente onde a vida se debate para resistir entre secas intermináveis e a fome assoladora.

Dois dias após a chegada, foram obrigadas a desfilar nuas na passarela de uma casa noturna, sendo contempladas por mercadores de todo o mundo. Mal sabiam que estavam numa vitrine para serem arrebatadas num leilão; e assim aconteceu, quando o proprietário de uma casa de prostituição arrematou o “lote” das três — ela e as duas primas. Na noite seguinte, foram submetidas à escravidão sexual.

Meses depois, tentaram uma fuga, ainda conscientes das consequências de que uma falha poderia agravar a situação por saberem da acirrada monitoração; como temeram, foram surpreendidas e castigadas com extrema violência.

As primas insistiram e tiveram o final previsto.

Maria foi dominada pelo pânico.

Foi então que teve uma ideia. Traçar uma rota de fuga para regressar ao Brasil.

Entregou-se à prostituição e sempre que excedia nos programas, escondia o dinheiro sob o vaso do banheiro. Com uma chave, folgava os parafusos do assento sanitário, elevava-o e colocava o dinheiro num saco plástico.

Sempre usava notas de euro de alto valor para não aumentar o volume das cédulas escondidas e, assim, comprou a passagem.

Num sábado à noite, saiu para um programa na capital do turismo sexual Amsterdã e nunca mais voltou.

Contudo, nem todas têm a sorte de Maria e são obrigadas a ser mercadoria na indústria que mais se desenvolve no planeta. Esse pesadelo não é mito, é uma realidade que se converteu num impacto econômico, superando o tráfico de armas e de drogas, pois, todo ano, milhões de pessoas de todo o mundo são traficadas e, ao serem arraigadas para outro país, não apenas o seu corpo se vai, mas a essência humana, que inspira e aspira sonhos, vidas…

O tráfico humano — para o trabalho escravo ou para o mercado do sexo — salienta uma vergonha enrustida na constituição de um mundo que permite transformar a criação em produto, pois a perda da liberdade é apenas um detalhe ante a transgressão da dignidade no instante em que arremessam as vítimas para um universo de humilhações e tratos desumanos.

Crise do homem ou crise de valores?

Que o homem é um ser arredio desde a sua criação, todos sabemos; que é capaz de tudo para sobrepujar o outro e se dar bem, não é inovação… O alvo? É o óbvio: ser destaque. Nessa altercação, negociar valores tornou-se o caminho para satisfazer ambições, mesmo que esses valores sejam o outro — a exemplo de José do Egito, que foi vendido como escravo pelos próprios irmãos. Em meio a essa complexidade, que é um misto de sentimentos, ambições e propósitos pessoais, a matéria humana se converte em produto comercializável em pleno século XXI, cuja ferramenta — a tecnologia — proporciona condições de muitos realizarem desejos jamais experimentados na era humana.

Essa evolução gerou mecanismos que transformaram o homem num ser globalizado, politicamente posicionado. O vazio existencial provocado pela busca isolada fez com que o homem se convertesse num indivíduo estrategicamente focado no Eu. Tantas fontes jorrando à sua volta, o conhecimento abriu-lhe os olhos, ampliou a sua ótica de mundo, a plataforma comercial, e tudo que esse Eu quer é se dar bem.

Agarrado a essa ambição, o homem correu, correu sem olhar para trás para não perder a oportunidade de empunhar seus propósitos e, ao voltar o olhar, notou-se sozinho… perdido no seu próprio universo… Ao se redirecionar para a frente, percebeu que sua ótica de mundo havia se ampliado a ponto de lhe proporcionar a visão sobre o ser ou estar feliz, mas não percebeu que estava se enveredando numa crise de valores… Descobriu o mundo, mas estava solitário e, quando descobrimos que estamos sozinhos em meio à multidão, percebemos a dimensão da distância entre o que somos e o que ambicionamos, pois, ao contabilizarmos as conquistas, percebemos que o que temos é tão pouco que não podemos dividir, compartilhar com o outro, que avança em nossa direção, movido pela mesma vontade de ter.

Tudo que resta é continuar correndo para garantir o que se tem em mãos, e, nessa disputa, o tempo se torna uma joia rara; perdê-lo com escolhas pode acarretar altos prejuízos… pois, nesse estágio da vida, sobreviver é a regra… portanto, não se pode parar para contabilizar perdas. Muitos, quando percebem, perderam o que tinham de mais precioso, a família, ao deixar pessoas amadas à beira do caminho e partir em busca de conquistas. A maioria fica tão perdida que não consegue discernir a crise do homem da crise de valores, por se encontrar num cruzamento cujas vias se fecham. Horizontes se restringem por não ter mais estrutura para compreender que a liberdade é uma fera indomável.

Mas de onde vem essa ideia de traficar pessoas?

De um ponto deturpado da mente daqueles que entreveem em tudo a oportunidade para tirar proveito, como negociar a própria espécie… Sem fraternidade, que é a base que ostenta o amor pelo próximo, é impossível reconhecer que o outro é vida e, assim, assolam direitos, permitindo que a própria essência humana se esvaia.

O fato é que, para muitas vítimas — principalmente mulheres e crianças — o caminho de volta é obstruído, e elas se veem impelidas a seguir adiante para satisfazer o mercado do prazer, e a primeira lição que aprendem é que sonhos criam asas, impulsionam, içam voo… mas não têm uma rota definida, e, nesse percurso, aprendem a segunda lição: há desejos que cobram um alto preço e feridas que o tempo não cicatriza, pois os contínuos momentos de ameaças e humilhações obstruem o canal que conduz à energia para lutar: o da autoestima.

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E, quando a autoestima morre, todo o ser mergulha na escuridão da própria existência, e o maior desejo — de estar ao lado dos que ama — se torna um sonho impossível; na ausência desse calor, o gelo dos “usuários” é uma sentença implacável: esqueça você e seja tão somente o que o mercado do prazer lhe determina.

É nesse instante que perguntas como “De onde vem essa ideia de traficar pessoas?” encontram resposta: “Do fluxo do mal, que permite o trânsito de sentimentos que destroem e fertilizam um terreno, que germinam ideias em mentes dominadas pela ambição, em que ganhar dinheiro é a única meta”.

Nesse terreno fértil, a linha do destino do outro é traçada nos mínimos detalhes… Detalhes tão atraentes que seduzem, e muitos se deixam levar, com a certeza de ter descoberto a rota da fortuna, até aprenderem a lição mais dura: temos liberdade para fazermos escolhas, mas não autonomia para revertermos situações.

Em meio à tempestade, muitos encontram a resposta que silencia: somos o que escolhemos, e não o que sonhamos. Pois a fé — que nos impele às conquistas e alimenta os sonhos — pode nos conduzir a um caminho que é o princípio do fim.

Afinal, a fé se modifica no respeito, na convivência e no amor “philes” e, assim como a vida, requer ambiente propício e nutrientes para ostentar a fé, que exige uma haste — doutrinária — para que psicológico e emocional superem as fraquezas da carne e, portanto, estabilizem, por meio da maturidade, o viver; quando esse viver não é feliz, uma pergunta inquietante ecoa: “Todo mundo tem um preço?”.

Em meio a tantas crises existenciais, perdas de valores levam-nos a crer piamente que o homem verdadeiramente tem um preço… e este é fixado pelo nível de ambição e deficiência de escrúpulos das duas partes: o que se deixa vender para se dar bem e o que paga o preço para atingir propósitos. Um ditado popular nos conduz a esse ponto de partida: “se Quer saber quem é seu amigo, mostre-o a chance de ganhar dinheiro”. Esse reflexo é notado nos telejornais, quando vemos filhos que matam os pais, esposas que destroem o esposo para herdarem fortunas.

E, quando o assunto é ganhar, as negociatas se desdobram por todos os pontos da vida humana. O homem paga um preço para ganhar fama, dinheiro… poder… status… E, nessa trajetória de conquistas, o próximo tem dois focos: uns são usados como escada; outros, destruídos, por se tornarem obstáculos. A globalização fez com que o código de barras se tornasse referencial, decompondo o humano em mercadoria, e o setor de telemarketing desse mercado faz a sua ininterrupta pesquisa de campo, com a tradicional pergunta: “Qual o seu preço?”.

Depende do caráter, da necessidade… No Brasil, por exemplo, muitos têm o preço de uma cesta básica, de uma cerveja no botequim da esquina, pois poucos conservam valores para ostentar a dignidade e resistir às tentações do mercado interno brasileiro, que oferece favores em troca de um voto, da redução de impostos, para antecipar um processo. E, como tudo funciona com um Toddy passado debaixo da mesa, negociam direitos e não apenas se vendem, entregam como gorjeta o nosso município, o nosso estado, o próprio

País nas mãos de mercadores — o julgamento do mensalão é um exemplo do preço do humano —, homens que compraram homens com elevadas quantias para chegar ao poder e continuar amortizando para permanecerem no poder.

Nessa vitrine dissimulada denominada sociedade, ruas, praças, lares e gabinetes converteram-se em balcões, onde, a cada instante, um se vende: filhos compram pais para atingir propósitos pessoais, pais compram filhos para quitar dívidas da deficiência de afeto; empresas compram fiscais, fiscais compram chefes do Executivo… e, se ambicionarmos nos aprofundar nesse negócio para sabermos exatamente quanto vale um homem, basta avaliarmos os montantes despejados… Alguns são tão baratos que o preço chega à bagatela de uma pedra de crack, que para obtê-la, é capaz de destruir o outro; essa quantia irrisória é o seu preço.

É em meio a essas transações que se compreende a dimensão da decomposição dos valores e princípios humanos, pois, para atender à demanda, o mercado é cada vez mais concorrido, e foi necessário esvaziar o homem, comprar do outro a autoestima perdida, para não perder tempo ruminando fracassos nem reconstruindo os valores desgastados pela ausência de caráter, de honestidade e de amor pelo outro. A trivialidade tornou-se aliada do humano, que não quer nem saber por que o dedo do outro dói… “O que eu vou ganhar com isso? Nada!” E, quando o assunto é vida humana, pouco vale em brigas, discussões de botequins, estádios, trânsito, por pouco ou por quase nada, pessoas se vendem… se matam…

Mas a humanidade não está decomposta… Ainda tem jeito, pois não está completamente enfileirada na alfândega à espera da etiqueta… Embora restem — mesmo em zonas isoladas — humanos capazes de doar a vida pelo outro, aqueles que se deixam ser levados por uma amizade sincera, conduzidos por um sentimento puro, e até mesmo que se deixam aproximar do outro, comovidos com a sua dor, com o seu problema; estes não são super-heróis, são humanos que permitem o agir de Deus na sua vida… e é exatamente pelo agir de Deus nestes que a vida da espécie humana ainda perdura neste mundo, mesmo entre propostas licenciosas pagas com parcelas a perder de vista.

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