Edição 47

Lendo e aprendendo

Gentileza gera Gentileza

Luiz Caversan

profeta4

Todas as manhãs eu o via. Era por volta de 1992, 1993, eu morava na zona sul do Rio e trabalhava no centro, na Avenida Presidente Vargas. Não me lembro bem qual era o caminho que pegava, mas o certo é que aquela figurinha magra, mirrada mesmo, chamava a atenção na paisagem cinza de viadutos e avenidas centrais, com sua bata branca, branquíssima, tão alva quanto suas longas barbas.

Carregava uma placa escrita em preto, verde e amarelo, com dizeres que em nada combinavam com o trânsito ou com o corre-corre das pessoas, a maioria delas ignorando-o solenemente.

Eu não conseguia ignorá-lo, intrigava aquela figura que pregava gentileza na plaqueta singela e também nos grafites que pespegava nos muros da redondeza, bem como nas colunas dos viadutos.

Era o Profeta Gentileza, um desses homens, maluco para muitos, mas que para mim são aqueles seres que simplesmente resolvem ir, deixar para trás tudo, seja lá o que for, e simplesmente ir. No caso dele, foi em direção a uma atitude de vida absolutamente pacifista e de sã insensatez, branca como sua barba e sua bata: gentileza gera gentileza.

Ele talvez nunca tenha lido nada referente a budismo, cujos preceitos contemplam essa assertiva. E provavelmente não estivesse nem aí se todo aquele povaréu que passava apressado levava a sério ou na chacota a sua mensagem — passada a ele sabe-se lá por quem ou por quais desígnios.

Mas o Profeta Gentileza era e tornou-se cada vez mais uma figura daquelas carimbadas, referência naquele centro do Rio. Virou personagem de reportagens, deu entrevistas nas quais tentava justificar inexplicavelmente seus dogmas, até que morreu não sei ao certo quando.

Outro dia, passando naquela área do Rio próxima à rodoviária, zona portuária deteriorada como quê, lá estavam os escritos do Profeta, preservados por outros malucos, na pilastra do viaduto.

Fiquei feliz com aquilo. Havia, portanto, mais gente interessada na simplicidade do que o homem dizia e que pode ser, no fundo, uma grande verdade: gentileza gera gentileza…

profeta5

profeta6

Por que não?

Eis que, mais recentemente, andando pelos orkuts da vida, entro na página de uma amiga e o que encontro por lá? A reprodução da mensagem do Gentileza, tal e qual ele carregava em sua placa profética.

Daí a querer transformar o dito espirituoso que me conquistou para sempre em mensagem foi um passo.

Portanto, aí está: gentileza gera gentileza.

Que este seja o mote para 2009!

Fonte: Folha Online.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de Comunicação Corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br

Gentileza

Marisa Monte

Apagaram tudo,
pintaram tudo de cinza.
A palavra no muro
ficou coberta de tinta.
Apagaram tudo,
pintaram tudo de cinza.
Só ficou, no muro,
tristeza e tinta fresca.
Nós que passamos apressados
pelas ruas da cidade
merecemos ler as letras
e as palavras de Gentileza.
Marisa Monte
Por isso eu pergunto
a você no mundo
se é mais inteligente
o livro ou a sabedoria.
O mundo é uma escola,
a vida é o circo.
Amor, palavra que liberta,
já dizia o Profeta.

cubos