Edição 80

Como mãe, como educadora, como cidadã

Geraldo Maranhão – Tudo o que fez, fez por amor!

Zeneide Silva

Nos anos 1980, fui professora do Colégio Dom Bosco de Olinda, tendo como diretor-pedagógico o Professor Geraldo Maranhão, como gostava de ser chamado.

GeraldoMaranhao_fmtTrabalhei como professora, coordenadora e supervisora-pedagógica, vivenciei momentos bem marcantes; fiz muitos amigos e acredito ter deixado muitas pessoas chateadas, pois diziam que eu inventava muito trabalho — planejamento participativo, painéis comemorativos, festas, passeios — e fazia até questão de “tomar a lição” de todos os alunos desde a alfabetização à 4ª série (na época). Também ajudava os professores nas correções das atividades, pois assim conheceria todos os alunos pelo nome.

Tinha um carinho muito grande por Geraldo Maranhão. Acho que ele tinha comigo algo em comum: grande poder de comando, segurança excessiva no que fazia, pouca tolerância para os que não acompanhavam seu ritmo, além de ser temperamental em certos momentos. Mas, contrariando tudo isso, tinha um gigante coração que carrega a dificuldade de dizer não.

O Colégio Dom Bosco de Olinda — projetado sobre uma proposta pedagógica baseada na filosofia de Dom Bosco e de Nossa Senhora Auxiliadora, pela qual tinha grande devoção — foi um grande sonho dele.

O Professor Geraldo foi um revolucionário em Educação; acreditava numa Educação de qualidade, na capacidade dos professores e no potencial dos alunos. Gostava de participar de tudo. Nessa época, o Dom Bosco de Olinda era o colégio de referência, pois tinha banda de música, ginástica rítmica e de solo, basquete, handebol, etc. Queria ser sempre o melhor e se sentia feliz ao levar seus alunos para o desfile cívico com os carros alegóricos; e mais feliz ainda ficava na festa dos estudantes, quando levava, em carreata pelas avenidas de Olinda, mais de vinte ônibus com os alunos para um dia de lazer (seguindo sempre a doutrina de Dom Bosco) com a melodia que ecoava em nossos ouvidos:

“Dom Bosco vai mudar sua vida,
Dom Bosco sempre perto de você!”

Eram momentos felizes. Tinha tudo para ser um grande colégio, mas Professor Geraldo, por não saber dizer não se deparou com a decepção: perdeu tudo… Embora fizesse tudo com amor. Sua dedicação era tão grande que em seu colégio a quadra já foi palco de muitos eventos, tanto alegres como tristes: formatura de ABC (Em uma das formaturas ele ficou chateado comigo. Fui questionar algo para a melhoria do colégio, e ele não gostou. Disse que não iria mais participar do evento e que eu ficasse só. Realmente ele não apareceu. No outro dia, ficou com olhar de arrependido, mas não dei nenhum cartaz para ele.); reunião de pais e mestres; Páscoa dos professores e alunos; festa e jantares dos professores; festa de Nossa Senhora Auxiliadora; festa do 3º ano (Ensino Médio); festa das mães e dos pais; festa Junina; missa de 7º dia (de nossa querida supervisora Nadir Simões); velório do segurança Chocolate e de um aluno, que sofreu de morte súbita; 1ª comunhão e até cerimônia de casamento. Tudo tinha a sua aprovação. Isso porque ele sempre quis dar o melhor para seus funcionários e professores. Um exemplo disso era a bolsa de estudo integral que oferecia para os filhos de professores e de funcionários da secretaria e da limpeza, o que o deixava feliz, pois dizia que, como Dom Bosco, não queria fazer separação de classes em seu colégio.

Professor Geraldo Maranhão vivia cercado de amigos; nas festas das ladeiras de Olinda (Carnaval), bancava tudo. Porém, quando fechou as portas do colégio, isolou-se de todos. Tive a oportunidade de recebê-lo em meu escritório para conversarmos um pouco, só não sabia que se tratava do nosso último encontro. Ele foi morar fora da cidade, chegou a ser secretário de Educação de um município, tentou viver ainda de Educação, mas não conseguiu.

O tempo passou, e acredito que não nos víamos há mais de 10 anos, mas sempre pensava nele quando encontrava minhas anotações e me lembrava dos momentos especiais que vivemos juntos.

No dia 16 de fevereiro de 2014, estava no evento da igreja, quando recebi a notícia de seu falecimento. Fiquei surpresa. “Geraldo faleceu!”, pensei. E logo comecei a enviar mensagens informando às ex-professoras, e todas ficaram igualmente sentidas como eu.

Imagino que, em cada pessoa que recebia essa notícia se passava um filme dos momentos tão marcantes do Dom Bosco e Dom Bosquinho, dirigidos pelo Professor Geraldo.

Mas, em seu velório, fiquei surpresa com a ausência de tantos que se diziam “amigos” do professor e que tinham um convívio de perto. Esse fato me fez refletir sobre lembranças de muitos desses amigos, muitas pessoas abraçando-o, tirando fotos, chamando-o para ser padrinho e, nesse momento, essas ausências me levaram a pensar que Geraldo morreu no esquecimento das pessoas muito amigas em tempos atrás. E, no vácuo dessas ausências, perguntava-me: “Cadê todas aquelas pessoas que se diziam amigos e amigas do Professor Geraldo Maranhão?”.

Seguido a esse questionamento, quis organizar a missa do 7º dia, tentei preparar um caderno com fotos, pensamentos, textos sobre ele, como forma de homenageá-lo e agradecer pelos momentos marcantes no colégio. Mas, como não consegui nenhum material, fiz apenas um santinho e mandei para sua família. Tentei novamente realizar essa homenagem na missa do 30º dia, mas, infelizmente, não consegui nenhuma contribuição de material que havia solicitado a algumas pessoas. E minha percepção se confirmava: “Geraldo não tinha mais o que oferecer, logo não existia… Nem mesmo nos registros das boas lembranças”.

No próximo dia 16 de fevereiro de 2015, fará um ano de sua partida, e, até agora, por não receber nenhum material para lhe prestar a referida homenagem, resolvi escrever este texto como homenagem e agradecimento, em nome de todos os que, como eu, viveram momentos que ficam registrados em nossa mente e, às vezes, no coração. Será que nós só somos amados e idolatrados quando servimos, nos doamos sem pedir nada em troca? Isso me faz lembrar de uma grande composição de Nelson Cavaquinho, Quando eu me chamar saudade: “Por isso é que penso assim, se alguém quiser fazer por mim, que faça agora”.

Por fim, queridos educadores e educadoras, sejam sempre agradecidos e nunca se esqueçam daqueles que foram marcantes em sua vida. Leve seus alunos a serem agradecidos, pois a ingratidão fere o coração de Deus.

Deus conhecia o coração de Geraldo, por isso o guardou para ele.

P.S.: Preciso aprender a dizer não para que meus amigos no meu velório não tenham o mesmo sentimento que tive com o Professor Geraldo Maranhão.

CADÊ TODAS AQUELAS PESSOAS?

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