Edição 19

Lendo e aprendendo

Heitor Villa-Lobos (1887–1959)

Nasceu no Rio de Janeiro a 5 de março de 1887, no bairro de Laranjeiras. O seu pai, Raul Villa-Lobos, desde cedo o iniciou nos estudos da música erudita, oferecendo-lhe no solfejo, na teoria musical e na prática da clarineta e do violoncelo os primeiros contatos com essa fascinante arte.

Na casa dos Villa-Lobos, todos os sábados, nomes respeitados da época reuniam-se para tocar até altas horas da madrugada, o que influenciou marcadamente a sua formação musical.

Com 12 anos, já tocava profissionalmente violoncelo e, aos 13, já se tornava assíduo freqüentador de serenatas, integrando os mais famosos conjuntos seresteiros da época. Nesse período, adquiriu conhecimento do violão. Para esse instrumento, escreveu, mais tarde, vários estudos, prelúdios e um concerto, dedicados a Segovia.

Através de sua Tia Fifinha, foi apresentado às obras de Johann Sebastian Bach, compositor que acabou por lhe servir de fonte de inspiração para a criação de um de seus mais importantes ciclos, o das nove Bachianas Brasileiras.

Villa-Lobos residiu com a família em cidades do interior do Rio e também de Minas Gerais, o que o levou a entrar em contato com modas caipiras, tocadores de viola, etc., despertando o seu interesse pela música folclórica brasileira, que, através de suas obras, tornou-se internacionalmente conhecida.

Quando voltou a morar na sua cidade natal, Villa-Lobos entrou em contato com a música praticada nas ruas e praças e, mais uma vez, ficou fascinado. Isso é um traço característico de um verdadeiro artista: ficar fascinado por tudo o que lhe é novo e toca o seu íntimo. A música praticada naquela época, nas ruas do Rio de Janeiro, era o choro, composto e executado pelos “chorões”, músicos que se reuniam regularmente para tocar em festas, durante o carnaval ou por puro prazer. Tal fascinação levou Villa-Lobos a estudar violão escondido de seus pais, que não aprovavam sua aproximação com os “marginais” do choro, como eram considerados aqueles músicos.

Desse seu contato com o choro, no início dos anos 20, Villa-Lobos compôs um ciclo de quatorze obras, para as mais diversas formações, intitulado Choros. Através da junção daquela música urbana com modernas técnicas de composição, Villa-Lobos fez surgir uma nova forma musical.

Ainda fascinado pela música e pelo folclore brasileiros, Villa-Lobos, em 1905, fez viagens pelos estados do Espírito Santo, da Bahia e de Pernambuco. Fez, ainda, outra excursão pelo interior dos estados do Norte e Nordeste, que durou três anos.

Ficou apaixonado pela Amazônia e, por onde passava, ia recolhendo temas folclóricos que utilizaria em suas composições, como no Uirapuru. Como fruto dessas viagens, publicou, mais tarde, um trabalho de educação musical, através da coleção Guia Prático.

Apesar de já ter uma vasta obra, só no ano de 1915 é que Villa-Lobos inicia a sua apresentação oficial como compositor, marcada com uma série de concertos no Rio de Janeiro. Nessa época, estava casado com a pianista Lucília Guimarães. Ganhava a vida tocando violoncelo nas orquestras dos teatros e cinemas cariocas e, ao mesmo tempo, escrevia suas obras. A modernidade de sua música encantava e assustava a todos: os jornais publicavam críticas, os intelectuais aplaudiam, e o povo, mesmo sem às vezes entender, ficava fascinado. Em resposta às críticas, Villa-Lobos fez o seguinte comentário:
Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias.

Villa-Lobos teve o privilégio de participar do movimento modernista, que, em 1922, na cidade de São Paulo, é consagrado com a Semana de Arte Moderna. Nesse início do século XX, a juventude sofria uma enorme influência de idéias européias que a fazia entrar em choque com o espírito conservador do final do século passado. Nesse fértil terreno de conflitos, o movimento modernista floresce como o grito de liberdade para essa juventude que clamava por avanços e transformações “modernas”. A Semana de Arte Moderna, através das artes, possibilitou a culminância dessa liberdade. Atividades de vários campos da arte foram apresentadas no Teatro Municipal de São Paulo. Convidado por Graça Aranha, Villa-Lobos aceitou participar dos três espetáculos da Semana, apresentando, entre outras obras, as Danças Características Africanas.

Após a Semana de Arte Moderna, os amigos de Villa-Lobos apresentaram à Câmara dos Deputados um projeto para financiar sua ida a Paris. Pois, naqueles anos 20, Paris era o centro da cultura modernista mundial. A proposta foi aprovada, e Villa-Lobos partiu em 1923. Chegou com mentalidade própria e se impôs em menos de um ano. Foi apresentado, por amigos, aos editores Max-Eschig, ao pianista Arthur Rubinstein — que já o conhecia do Brasil — e à soprano Vera Janacópulus, que divulgaram suas obras em recitais por vários países. Viveu em Paris de 1923 a 1925, onde foi influenciado pelo impressionismo.

De volta ao Rio de Janeiro, em 1925, Villa-Lobos foi assim saudado pelo poeta Manuel Bandeira:
Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que chegue cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos chegou cheio de Villa-Lobos. Todavia uma coisa o abalou perigosamente: a Sagração da Primavera, de Stravinski. Foi, confessou-me ele, a maior emoção musical da sua vida (…)

Numa segunda temporada na Europa, de 1927 a 1930, torna-se amigo de músicos como Igor Stravinski, Serguei Prokófiev e Varèse. Nesse período, organizou concertos e publicou várias obras. Suas feijoadas aos domingos, na capital francesa, ficaram famosas, e artistas de renome freqüentavam sua casa. Ganhou prestígio internacional, apresentando suas composições em recitais e regendo orquestras nas principais capitais européias. Suas obras provocavam reações e causavam forte impressão por suas ousadias musicais.

Em 1930, Villa-Lobos retornou provisoriamente ao Brasil para a realização de um concerto em São Paulo. Nesse seu retorno, voltou os olhos para o ensino da música e espantou-se com o descaso com que era tratado nas escolas brasileiras, o que o fez apresentar um revolucionário plano de Educação Musical à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Com a aprovação do seu projeto, mudou-se definitivamente para o Brasil.

Organizou, em 1931, uma Concentração Orfeônica chamada Exortação Cívica, com a participação de cerca de doze mil vozes.

Em 1933, Villa-Lobos foi convidado oficialmente pelo secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro — Anísio Teixeira — para dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística (Sema), que introduzia o ensino da Música e o Canto Coral nas escolas, o que o fez mudar-se para o Rio de Janeiro.

Viajou em 1936, de zepelim, para a Europa, representando o Brasil no Congresso de Educação Musical em Praga, onde teve a oportunidade de mostrar o seu trabalho educativo no Brasil.

De volta ao País, recebeu total incentivo do então presidente da República, Getúlio Vargas, e organizou Concentrações Orfeônicas grandiosas que chegaram a reunir, sob sua regência, até quarenta mil escolares.

Criou, em 1942, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, cujos principais objetivos eram: formar candidatos ao Magistério Orfeônico nas escolas primárias e secundárias, estudar e elaborar diretrizes para o ensino do Canto Orfeônico no Brasil, promover trabalhos de musicologia brasileira e realizar gravações de discos.

Apesar da sua resistência à cultura americana, Villa-Lobos foi convencido pelo maestro Leopold Stokowski, seu amigo desde Paris, a aceitar o convite do maestro norte-americano Werner Janssen para uma turnê pelos EUA, em 1944. Era o momento da chamada “política da boa vizinhança” praticada pelos EUA com aliados na 2ª Guerra Mundial. E não seria de bom-tom rejeitar o convite daquele país. Mas antes da viagem, declarou:
Irei aos Estados Unidos somente quando os americanos quiserem me receber como eles recebem a um artista europeu, isto é, em razão das minhas próprias qualidades, e não por considerações políticas…

Ainda retornou àquele país várias vezes, onde regeu e gravou suas obras, recebeu homenagens e encomendas de novas partituras, além de ter travado contato com grandes nomes da música norte-americana, fechando, assim, o ciclo de sua consagração internacional.

Em 17 de novembro de 1959, morre de câncer, no Rio de Janeiro, Heitor Villa-Lobos, um dos maiores nomes da música erudita do Brasil, reconhecido internacionalmente.

Sites Consultados:
www.alternex.com.br/~mvillalobos/mvl1.htm
www.prossiga.com.br/anisioteixeira/artigos/villalobos.html
www.dombarreto.br/novas_exp_villa_lobos_bar_20_05_03.htm

Referências bibliográficas
Almanaque Abril: Quem é quem na história do Brasil. São Paulo: Abril Multimídia, 2000.
RIBEIRO, João Carlos (Org.). O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos. São Paulo: Martin Claret Editores, 1987.
VILLA-LOBOS, Heitor. Educação Musical. Presença de Villa-Lobos. Rio de Janeiro: Museu Villa-Lobos, 1991. 13. v.

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