Edição 50

A fala do mestre...

Helder Pessoa Camara, o Dom da Educação

Leda Telles

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O mundo comemorou o centenário do seu nascimento durante todo o ano de
2009. Centenas de comemorações. Países como França, Alemanha, Itália, Holanda,
Canadá e outros trouxeram, nesse ano, a memória do seu nascimento.
Cidades do interior de Pernambuco e da Região Metropolitana o homenagearam.
E, assim, também outros estados, como o Rio de Janeiro. O Senado e a Câmara,
reconhecendo a sua importância histórica, organizaram sessões solenes.
Procurando informar sobre ele, escrevemos este artigo com palavras dos seus
livros e testemunhos dos seus amigos.

Dom Helder foi um místico, um Dom de Deus abraçando
todos sem distinção. Chorava com os que sofriam, era esperança
para os aflitos, dava a voz para os oprimidos, trazia
alegria aos que estavam tristes. Ele ensinou o que era solidariedade,
a verdadeira justiça, a fraternidade. Foi uma bênção
onde fixou residência. Simples, ecumênico, um fiel seguidor
de Jesus Cristo. Acolheu a todos, e hoje uma grande parte do
mundo agradece pela sua vida.

Quem foi Dom Helder?

Helder Pessoa Camara nasceu em 07 de fevereiro de 1909,
em Fortaleza, no Ceará, membro de uma família de treze
irmãos. Filho de uma professora, Dona Adelaide Pessoa Camara,
e do Senhor João Camara Filho, guardador de livros,
ordenou-se padre aos 22 anos de idade. Em 1936, foi para o
Rio de Janeiro, onde se tornou bispo auxiliar em 1952. Foi
um dos criadores da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) e seu secretário-geral por doze anos. Teve atuação
destacada no Concílio Vaticano II. Em 1964, foi nomeado
arcebispo de Olinda e do Recife.

Durante o período do Regime Militar, Dom Helder Camara
foi perseguido e, inclusive, proibido de ter seu nome citado
na imprensa brasileira. Defensor dos direitos humanos
e com reputação internacional, Dom Helder teve seu nome
cogitado para o Prêmio Nobel da Paz por três vezes e só não
foi escolhido devido à intervenção da ditadura militar que
então governava o País.

Autor de diversos livros, a maioria ensaios e reflexões sobre
a Igreja e o Terceiro Mundo, Dom Helder Camara também
recebeu 32 títulos de doutor honoris causa de universidades
de todo o mundo, além de diversos prêmios e distinções.
Morreu em sua casa, no Recife, em 27 de agosto de 1999,
aos 90 anos, vítima de insuficiência respiratória aguda, decorrente
de uma pneumonia, depois de haver passado cinco
dias hospitalizado.

Em 1946, desligou-se do Ministério da Educação, pois o arcebispo
do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara
(substituto de Dom Leme), pretendeu nomeá-lo seu bispo
auxiliar. Essa nomeação, porém, só foi efetivada em 1952.

Em 1950, ao tomar parte do Congresso Mundial do Aposto-
lado Leigo, em Roma, tornou-se amigo do então monsenhor
Montini (futuro Papa Paulo VI) e expôs os planos de fundar a
CNBB, da qual viria a ser o primeiro secretário-geral (de 1952
a 1964) e secretário de Ação Social (1964–1968).

Enquanto bispo auxiliar no Rio de Janeiro, fundou o Banco
da Previdência e a Cruzada de São Sebastião para prestar
assistência social aos moradores das favelas cariocas.

Dom Helder foi, ainda, delegado do Brasil na Conferência Geral
do Episcopado Latino-Americano (Celam) e vice-presidente
desta entre 1958–1960 e em 1964.

Divergências com o Arcebispo Dom Jaime Câmara afastaram
Dom Helder do Rio de Janeiro. Ele chegou a ser nomeado
oficialmente para o Maranhão, mas, com a morte do

arcebispo de Olinda e do Recife, foi mandado para Pernambuco,
onde desembarcou em 12 de abril de 1964, poucos dias
após o Golpe Militar brasileiro.

Dom Helder ficou na Arquidiocese de Olinda e do Recife até
sua aposentadoria, em 10 de abril de 1985, quando foi substituído
pelo Arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho.

Pensamentos de Dom Helder sobre Educação

Escolhemos alguns pensamentos e, como os compreendemos
como dons, assim os transcrevemos.

O Dom Questionador

“Como é que programam a escola na perspectiva do verdadeiro
desabrochar humano e o aluno para a liberdade responsável?”

“Se estamos tentando descer ao âmago dos problemas, uma
pergunta se coloca à nossa reflexão: a educação que gerou o
nosso mundo liberta ou escraviza?”

O Dom Motivador

“Não podemos pensar em educação socialmente eficaz sem
professores adequadamente preparados, condignamente
remunerados, para que possam desempenhar uma profissão
fundamental não só para a formação das pessoas, mas
igualmente para a definição do tipo de sociedade que se pretende
construir próspera e equilibrada.”

“O segredo de ser sempre jovem — mesmo quando os anos
passam, deixando marcas no corpo —, o segredo da perene
juventude de alma, é ter uma causa a que dedicar a vida.
Quando se fala em causa a que se dedicar a vida, é óbvio que
é preciso distinguir entre causa e causa. Abraçar uma grande
causa, ser fiel a ela, sacrificar-se por ela é tão importante
quanto acertar na escolha da vocação.”

“Quando os problemas parecem absurdos, as soluções tornam-
se desafiantes.”

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< O Dom Revolucionário

“Refletir apenas não basta. É preciso ação!”

“Todo homem, cada homem, é responsável pelo destino da
humanidade — por suas ações ou omissões.”

“À escola, compete tornar-se veículo de valores como a solidariedade,
além de internalizar a noção de indivíduo não
como um ser isolado, mas como parte integrante desse conjunto
amplo e diverso que é a própria sociedade.”

“Cabe à escola também fomentar o espírito de partilha, sem

o qual o egoísmo e as desigualdades continuarão imperando
em nosso mundo.”

“[...] A escola não deve ser formadora apenas de indivíduos,
mas, prioritariamente, deve tornar-se formadora de cidadãos,
indivíduos conscientes dos direitos e deveres que lhes
são inerentes como pessoas humanas.”

“Creio na educação como instrumento de uma revolução
pacífica que, por não lançar mão de meios violentos, preferiria
chamar resistência ativa não violenta contra a opressão
da miséria e da injustiça.”

Pensamentos de Amigos

O Dom (assim era chamado pelos mais próximos) foi, para
muitos, um caminho, um exemplo do fazer uma educação
libertadora.

Escolhemos alguns depoimentos de pessoas que conviveram
com o Dom buscando ressaltar, assim, os aspectos importantes
para a educação:

Educação e Cultura

“Dom Helder chegara ao Recife nos primeiros dias do movimento
militar e, poucos dias passados, pediu que eu fosse
à sua presença: queria abrir as portas do Palácio Arquiepiscopal
para as pessoas ligadas à cultura, desejava que, disso,
eu me encarregasse.

Atendi ao seu pedido, e passamos a organizar, à noite, uma
vez por semana, conferências, recitais de poesia e audições
de música instrumental e canto.” Ariano Suassuna, escritor
e dramaturgo.

Educação e Esperança

“A capacidade de Dom Helder de, mesmo nos momentos
mais difíceis, acreditar que estavam construindo uma saída
e que havia uma luz no fim do túnel — essa coragem ou,
mais propriamente, essa disposição de sempre buscar alternativas,
de jamais conformar-se ou entregar-se à dificuldade,
à adversidade do momento — poder-se-ia pensar como
marca maior de sua utopia. Em termos cristãos, o sinal do
profeta.” Antonio Torres Montenegro, professor e pesquisador
do Departamento de História da UFPE

Para os educadores, sinal de esperança, de confiança. Certeza
de que uma educação libertadora faz uma grande nação
apesar das dificuldades, que devem ser enfrentadas, pois
sempre hr>á luz, mesmo que esteja distante.

Reflexão, Oração e Ação

“Dom Helder era uma pessoa em que contemplação e ação tiveram
todas as chances. Ele vivia as duas em grande equilíbrio
e profunda ligação. Muito se falou e escreveu sobre o seu agir.
Graças a Deus! As pessoas que viveram bem perto dele são
unânimes em atestar que tudo o que fazia nascia de reflexão e
era sustentado por oração.” João Pubben, padre holandês que
atua na comunidade de São Vicente, na periferia do Recife,
e foi o padre escolhido por Dom Helder para acompanhá-lo
quando a sua saúde começou a enfraquecer (de 1994 a 1999)

Educação e Diálogo

“Dom Helder também foi, à sua maneira, um educador. Apesar
do poder de arcebispo, do reconhecimento nacional e
do internacional, dirigia-se a todos de forma simples e natural,
procurando descobrir, em cada pessoa, em cada grupo,
em cada situação, uma maneira de contribuir e também de
como poderia aprender. Esses dois movimentos, para ele,
eram indissociáveis.” Antonio Torres Montenegro, professor
e pesquisador do Departamento de História da UFPE

Educação e Criança
Histórias que Dom Helder contou:

Gente grande não entende…

A mãe do garoto cismou que ele é quem tinha perdido a chave
da casa. Exigiu, então, que ele virasse pelo avesso os dois bolsos
de sua calça curta e os dois bolsos do seu jaleco.

Quanta coisa saiu de dentro! Tudo, menos a chave.

A mãe do menino foi ficando furiosa com as bugigangas com
que ele enchia os bolsos… Como é difícil entender as crianças!

Tive tanta saudade dos meus bolsos de menino! Eram iguaizinhos!
Um carretel vazio! A mãe podia lá entender que aquilo parecia
um carretel, mas era um telefone eletrônico para ser usado na
travessia dos desertos!

Um pedaço de cordão… Como gente grande podia aceitar que
não se trata de um cordão, mas de uma corda mágica que pode
ser estendida de montanha a montanha ou por cima da águas
quando fosse preciso atravessar rios caudalosos!?

Pedras de tamanhos e cores diferentes: aqui é que gente grande
ia mesmo torcer o nariz, sem poder de modo algum acreditar
que eram pedaços de lua oferecidos por um astronauta!

Vendo sempre mais sair de dentro dos bolsos as coisas mais absurdas
e inesperadas, menos a chave da casa, a mãe do garoto,
quando viu aparecer um guizo, não se conteve e disse: “Afinal,
uma coisa que eu entendo… Guizo! Você merece andar de guizo
no pescoço, nas mãos, nos pés, seu palhaço!”.

O garotinho ficou triste, mas não disse nada. Eu é que quase
me metia para dizer: “Vai ver que se trata de um guizo mágico,
trazido por algum peixe do fundo do mar… Vai ver que é um
guizo que espanta a tristeza e atrai a alegria…”. Tive vontade
de dizer, mas calei. Não iam entender. Gente grande é tão difícil
de entender as coisas mais simples…

Ainda lembro que, dos bolsos do garoto, saíram: sementes,
um prego, um pião, uma tira de pano, um retrato de Roberto
Carlos…

A tira de pano, estava na cara que era para o papagaio… O
pião devia ser campeão de dança no mundo dos piões… Semente,
com imaginação criadora, dá nascimento a tudo o que
se quiser…

O prego! Ora, o prego… Mas que mania de querer explicar
tudo! Por que não deixar o prego para alguma surpresa? Vai
ver que, antes da noite, ele vai ser usado e aproveitado uma
dúzia de vezes…

Seria o cúmulo perguntar a razão da presença do retrato de
Roberto Carlos!

Que paciência as crianças precisam ter com gente grande!

A outra história é O Diálogo do Dom com as Formigas, mas
fica para uma próxima vez. Enfim, o Conselheiro, as palavras
do pastor Helder, do padre Helder, do irmão dos pobres.

O Dom Conselheiro

Partir… caminhar…

Partir é, antes de tudo, sair de si. Romper a crosta de egoísmo
que tende a nos aprisionar no próprio eu.

Partir é não rodar permanentemente em torno de si, uma atitude de
quem, na prática, se constitui centro do mundo e da vida.

Partir é não rodar apenas em volta dos problemas das instituições
a que pertence. Por mais importantes que elas sejam,
maior é a humanidade, a quem nos cabe servir.

Partir, mais do que devorar estradas, cruzar mares ou atingir
velocidade supersônica, é abrir-se aos outros, descobri-los, ir-
lhes ao encontro.

Caminhar é ir em busca de metas, é prever um fim, uma chegada,
um desembarque.

Caminhar significa mover-se e ajudar muitos outros a moverem-
se no sentido de tudo fazer por um mundo mais justo e
mais humano.

Dom Helder, com certeza, reconheceu que muitos professores
faziam parte das minorias abraâmicas. Como ele dizia,
são as minorias chamadas por Deus a servir e que, como
Abraão, respondem ao máximo e servem a uma grande
causa. Os professores humanistas ateus devem traduzir a
sua linguagem. Mas, todo aquele que experimenta fome de
verdade, de justiça e de amor, saiba que caminha com as
minorias abraâmicas.

Professor, professora, é tempo de partir, é tempo de caminhar…

Referências Bibliográficas

O Deserto é Fértil, Dom Helder Camara, Civilização Brasileira.
Palavras e Reflexões, Dom Helder Camara, Ed. Universitária da
UFPE.

Um Olhar sobre a Cidade, Dom Helder Camara, Civilização Brasileira.
Dom Helder, Peregrino da Utopia: os Caminhos da Educação e da
Política. Série Educação e Cidade, Prefeitura do Recife.

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