Edição 99

Espaço pedagógico

Ideias e criatividade são os grandes diferenciais

Raúl Candeloro

No mundo inteiro, existem milhares de pequenas empresas, comandadas por empreendedores, ganhando muito dinheiro. Com o barateamento dos custos de computadores e a democratização dos recursos de informática, pequenos empresários têm aproveitado sua agilidade para ocupar nichos de mercado e responder rapidamente às necessidades e exigências do mercado. Essa agilidade fica muitas vezes comprometida em empresas maiores, porque existe uma burocracia a ser seguida que inibe fortemente a criatividade de seus funcionários. É como se estivessem trabalhando com o freio de mão puxado.

Mas, afinal, o que é ser criativo? Podemos encontrar mais de oitenta definições diferentes para criatividade. A que mais me agrada é a da psicóloga Eunice Soriano de Alencar, que define criatividade como: o processo que resulta na emergência de algo novo e original, aceito como útil, satisfatório ou de valor por um número significativo de pessoas em algum ponto do tempo.

Resulta na emergência de algo novo e original porque todos nós conhecemos na faculdade os filósofos de bar, que, reunidos geralmente em torno de uma mesa e bebendo cerveja, diziam que iam mudar a estrutura socioeconômica da nossa sociedade injusta e opressora. E, como só falavam e não faziam nada, a sociedade continua exatamente igual. Só falar não adianta.

Útil, satisfatório ou de valor porque resolve um problema. Não precisa ser um produto ou bem no sentido econômico da palavra. Pode ser uma ideia, um título de livro, uma chamada ou até mesmo a resolução de um problema interpessoal.

Número significativo de pessoas porque a criatividade só é criativa dentro de um grupo social, mesmo que pequeno. Ser criativo é trilhar, de maneira diferente, um caminho que já foi trilhado antes. Assim como beleza e inteligência, que são padrões de comparação (se você fosse o único ser humano na face da Terra, não seria bonito nem inteligente, porque não haveria outros para comparar; você apenas seria), a criatividade depende do grupo no qual ela se insere.

Em algum ponto do tempo porque nem todo esforço criativo é aceito imediatamente, muito pelo contrário. Rembrandt, Botticelli, Bach e Van Gogh estão aí para provar isso. Pasteur e Freud foram vaiados quando apresentaram suas teorias revolucionárias, e os filhos de Darwin eram atacados na escola — chamavam sua mãe de macaca.

Isso acontece porque existe uma grande resistência às mudanças. A sociedade tem sua própria inércia e rejeita a criatividade exacerbada e radical que questiona conceitos arraigados e aceitos historicamente. Isso não está necessariamente errado, mas é um freio, e deve ser levado em conta. Dentre os fatores psicológicos, de natureza individual, que tendem a promover a resistência à inovação, podemos salientar:

- o conformismo às regras.

- o dogmatismo.

- a baixa tolerância à ambiguidade
(tudo tem que ser preto ou branco).

- o medo de correr riscos.

- o medo do desconhecido.

- o comodismo.

Criatividade é sinônimo de inovar, ou seja, 415346.jpg 415347.jpg. E todo mundo pode fazer isso. Vygotsky, um expert no assunto, comparou a criatividade com a eletricidade. Diz ele: “Percebemos que a eletricidade está presente em eventos de diferentes magnitudes. Existe em grande quantidade nas grandes tempestades, com seus raios e trovões, mas ocorre também na pequena lâmpada, quando acionamos o interruptor. A eletricidade é a mesma, o fenômeno é o mesmo, só que expresso em intensidades diferentes. A criatividade se processa da mesma forma. Todos são portadores dessa energia criativa. Alguns vão apresentá-la de forma magnânima, gigantesca; outros vão irradiar a mesma energia, só que de maneira suave e discreta. A energia é a mesma, a capacidade é a mesma; ela é apenas distribuída de forma diferenciada”.

Resumindo, como disse Szent-Györgyi um ganhador do Prêmio Nobel: “Criatividade consiste em ver o que todo mundo viu e pensar o que ninguém pensou”. E, é claro, agir. Notamos, porém, que muitas empresas tolhem a criatividade de seus funcionários, muitas vezes até mesmo sem querer. São pequenos comentários que matam ideias constantemente.

99 maneiras de “matar” uma ideia

Quem criou esta coletânea foi meu amigo e conterrâneo, especialista em Criatividade, o professor J. C. Bembenutti. Como diria ele, “Nenhuma ideia nasce perfeita. Dê-lhe uma chance para crescer”. Proíba que estas frases sejam ditas e faça a criatividade na sua empresa explodir.

1. Isso não me entusiasma nem um pouco.

2. Ninguém vai comprar isso!

3. A gente já tentou isso antes e não funcionou.

4. Isso não se adapta ao nosso sistema.

5. E quem é que vai fazer?

6. Essa merda vai custar uma grana!

7. O diretor não vai gostar…

8. Não está de acordo com nossos padrões.

9. Nós estamos preparados para fazer isso?

10. Pelo amor de Deus!

11. Foi isso que você quis dizer, no duro mesmo?

12. Não se mexe em time que está ganhando.

13. Ah, mas o computador não vai conseguir processar!

14. Isso não faz parte da nossa imagem.

15. Não é do nosso jeito.

16. É simples demais!

17. É complicado demais!

18. Mas até que ponto isso é válido?

19. Não vai dar tempo de fazer.

20. O que é que o pessoal vai dizer em Juquiá?

21. Não é a nossa…

22. A gente está encompridando demais.

23. O último que apareceu com essa ideia não está mais aqui.

24. Boa ideia, mas implica em alguns custos.

25. Isso é uma bobagem!

26. O que é que isso tem de novo? E daí?

27. Espere só até a gente ver quanto custa.

28. A gente nunca fez nada igual a isso.

29. Alguém já fez alguma coisa igual?

30. Você sabe que a gente está numa bruta recessão!

31. De cara, eu não gosto.

32. Você deve estar brincando!

33. Eu ligo pra você depois, tá?

34. Ninguém vai dar bola pra isso.

35. Fica melhor assim, quer ver?

36. Desculpe, mas isso é uma droga.

37. Argh!

38. Isso cria mais problemas do que soluções.

39. (Riso)

40. (Silêncio)

41. Essa não é sua função.

42. Isso não é trabalho seu.

43. Isso não está de acordo com o jeito como a gente faz as coisas aqui.

44. Eu já ouvi essa história antes!

45. Vamos formar um grupo de trabalho para estudar esse assunto.

46. Vamos fazer uma pesquisa…

47. Semana que vem a gente fala nisso.

48. Isso só vai trazer ‘‘pepinos’’.

49. De onde é que você tirou isso?

50. Os ‘‘homens’’ não vão deixar.

51. Uma má ideia.

52. Hummm…

53. Por mim tudo bem, mas…

54. Ah, realmente, era só o que faltava!

55. Eu pensei que você fosse dizer outra coisa.

56. Deixa comigo, que eu vou estudar o assunto.

57. Lembre-se de que nossos clientes são muito caretas.

58. Isso vai foder com nossa imagem.

59. Não é factível e pronto.

60. Vamos ser realistas…

61. Isso não é do meu departamento.

62. Não vem que não tem.

63. Tá fora de questão e ponto-final.

64. Não bagunce o coreto…

65. Vamos lá, fale sério.

66. Você está realmente propondo isso?

67. Grande ideia, mas não para nós.

68. Eu tenho uma ideia melhor.

69. Todo mundo vai dizer que somos uns idiotas.

70. Todo mundo vai dizer que somos uns apressadinhos.

71. O que todo mundo vai dizer?

72. Vamos ver isso no próximo mês.

73. Estão falando nisso há anos.

74. Não vai vender…

75. Não vai funcionar…

76. Não vai emplacar…

77. Vai passar em branco…

78. Vai pisar no calo de muita gente.

79. O que é que o pessoal de cima vai dizer?

80. Deixe-me brincar de advogado do diabo.

81. As feministas vão cair matando.

82. Obviamente, você interpretou mal o problema.

83. Você pensou nisto a fundo?

84. Nós precisamos de alguma coisa mais excitante.

85. Você realmente acha que funciona?

86. Ninguém vai entender sobre o que você está falando.

87. De onde você tirou essa?

88. Esse é um assunto para outra reunião.

89. Papo furado…

90. Pô, outra vez!

91. Isso resolve apenas uma parte do problema…

92. Desse jeito, nós vamos ficar na merda.

93. Pra que se esquentar com isso?

94. Tente outra vez. O caminho é esse, mas…

95. Tem o outro lado da história.

96. Isso é muito tentador, mas…

97. Isso é muito interessante, mas…

98. Isso é realmente fantástico, mas…

99. Tá bom, mas…

Fonte: Profissão Mestre. N° 9. Ano 9. CURITIBA: HUMANA EDITORIAL, 2008.

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