Edição 113

Fique por dentro

Inclusão real

Irene Chaves Prado

A partir da percepção das diferenças, uma professora de alfabetização conta como conseguiu integrar à turma sua aluna com síndrome de Down

Ao começar o ano letivo, recebi um grupo de 24 alunos para o segundo ano do Ensino Fundamental, e uma das crianças tinha síndrome de Down. Logo no começo, apesar de a aluna incluída estar dentro do grupo, não interagia com as outras crianças, só com os adultos. As crianças do grupo também pareciam não saber como lidar com ela: alguns a tratavam como bebê, outros demonstravam medo, alguns pareciam ter ciúmes, e todos questionavam por que algumas atividades não eram cumpridas por ela, visto que todo o grupo tinha de cumprir.

A partir dessas observações, percebi a necessidade de trabalhar essas questões, aliando-as aos conteúdos curriculares, para que eu tivesse em mãos um grupo diferente, sim, mas coeso. Resolvi desenvolver um trabalho de conhecimento e respeito às diferenças para que todos tivessem o sentimento de pertencimento ao grupo.

1a Etapa: Identificando as diferenças

Começamos no momento da roda, conversando sobre as diferenças de cada um. Esse é um momento importante da rotina diária, com o qual iniciamos o dia, no qual trabalhamos a linguagem oral, a convivência em grupo, a leitura de diferentes gêneros literários, entre outras coisas. É um espaço aberto para as crianças colocarem livremente seus pensamentos, questionamentos, desejos… Por isso, um momento crucial de desenvolvimento do grupo.

As crianças se colocaram oralmente de forma livre sobre o tema que estava em pauta: as diferenças. Durante a conversa, fui conduzindo de forma que percebessem que a diferença não é algo negativo, e sim aquilo que nos torna únicos entre os pares. Nessa conversa, as crianças perguntaram sobre a síndrome de Down, e tive a oportunidade de esclarecer algumas dúvidas em relação ao tema, aproveitando o livro de Claudia Werneck, Meu amigo Down em casa (referências na seção Saiba Mais), que havia sido enviado pela mãe da aluna com essa deficiência.img1

Após esse momento de discussão, cada aluno registrou no que era diferente dos outros, com desenho e escrita. Na hora do trabalho, as crianças voltaram seu olhar para suas próprias diferenças, tanto positivas quanto negativas, em vez de reparar apenas nas do outro. Esse movimento de autoavaliação deu o tom do desenvolvimento do trabalho.

2a Etapa: Lendo sobre diferenças

Como no momento da roda sempre existe a ocasião de leitura, procurei direcionar essa atividade para textos em que as personagens apresentassem algum tipo de diferença. Cada dia eu lia um desses livros e conversávamos sobre as personagens e suas diferenças. Obras literárias com esse enfoque existem inúmeras. Assim, selecionamos algumas obras na biblioteca da escola, tendo como critério não só o tema, mas também a qualidade do texto e a adequação à faixa etária dos alunos.

3a Etapa: Escrevendo sobre diferenças

Com o crescente envolvimento das crianças com os textos literários, resolvi aliar esse trabalho de percepção e aceitação das diferenças ao instante de letramento no qual se encontravam. No segundo ano do Ensino Fundamental, nosso objetivo básico é a alfabetização e a inserção dos alunos no mundo letrado.

Dividimos a sala em duplas ou trios, e cada grupo escolheu, dentre as histórias que eu havia lido em roda, o livro preferido. O trabalho do grupo era reler a história e, por meio da escrita e de desenhos, fazer um registro da personagem, explicando por que ela era diferente. Após a produção, cada grupo expôs seu trabalho. Como todos já haviam ouvido todas as histórias, o envolvimento e a própria avaliação dos trabalhos foi muito proveitosa, pois as crianças identificavam nas produções dos colegas as características diferentes das personagens.

4a Etapa: Crianças pelo mundo

Enveredamos pelas outras formas de diferenças: assistimos a uma apresentação em power point montada a partir das imagens do livro Crianças no mundo (Editora Ática). Este livro mostra que as diferenças entre elas também podem ser culturais, geográficas, econômicas e/ou sociais. As páginas selecionadas do livro mostravam crianças de diferentes partes da Terra e seus costumes, trajes, comidas típicas, brinquedos preferidos, além de suas famílias e escolas.

Em pequenos grupos, os alunos registraram as diferenças das crianças pelo mundo em seus aspectos mais relevantes, de acordo com o que observaram. Como um dos temas estudados no trimestre em História e Geografia era a criança e sua casa, foi produtivo perceber a diversidade no planeta.img2

5a Etapa: A montagem do nosso“livrão”

Com todo esse material em mãos, resolvemos montar um “livrão”, visando trabalhar a função da escrita no letramento das crianças em fase de alfabetização. Escrevemos para nos comunicar, para transmitir conhecimentos. A escrita sem interlocutor não tem serventia.

Esse livro foi montado e extremamente manipulado pelos alunos. Ele permanece na biblioteca da classe e, em todos os momentos de leitura livre, é retomado pelas crianças, que gostam de fazer a leitura em dupla.

Avaliação

O trabalho atingiu os objetivos propostos. As crianças perceberam que todos temos diferenças e que isso contribui para o grupo. Percebo isso, pois, após esse trabalho, não só a inclusão da aluna com síndrome de Down aconteceu de uma forma mais natural, como as diferenças entre qualquer outro aluno dentro do grupo começaram a ser vistas e entendidas de outra forma. A percepção de que todos temos habilidades e dificuldades foi a maior aprendizagem desse trabalho. Aliado a isso, incentivamos a leitura com compreensão, caracterização de personagens e registros escritos, sempre focados no tema das diferenças.

Revista Carta Fundamental -
Novembro 2009/ N°13

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