Edição 62

Lendo e aprendendo

Indicações para a ação transformadora no mundo da saúde

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Introdução

As ações de Jesus para com os doentes inspiraram a Igreja no exercício da caridade fraterna. Nesse sentido, lemos no Guia Pastoral, que o mundo da saúde, em suas múltiplas expressões, ocupou sempre um lugar privilegiado na ação caritativa da Igreja. Através dos séculos, ela não só favoreceu entre os cristãos o nascimento de diversas obras de misericórdia, como também fez surgir de seu interior muitas instituições religiosas com a finalidade específica de promover, organizar, aperfeiçoar e estender a assistência aos doentes, fracos e pobres.

É importante salientar que muitos religiosos e religiosas vivem sua consagração a Deus e se incorporam na missão da Igreja por meio do serviço aos doentes e àqueles que sofrem. “O discípulo missionário abre seu coração para todas as formas de vida ameaçada, desde o seu início até a morte natural.” Trata-se de uma multidão de pessoas dedicadas a trabalhar em situações difíceis e precárias, em solidariedade aos irmãos afetados pela doença, pela dor e pela morte, ajudando-os a encontrar sentido humano e cristão nessas realidades.

A Pastoral da Saúde

A Pastoral da Saúde representa a atividade desempenhada pela Igreja no setor da saúde, é expressão de sua missão e manifesta a ternura de Deus para com a humanidade que sofre. A Igreja, ao meditar a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 25–37), entende que não é lícito delegar o alívio do sofrimento apenas à medicina, mas é necessário ampliar o significado dessa atividade humana.

No Brasil, a Pastoral conta com cerca de 80 mil agentes voluntários, grandes motivadores desse trabalho de evangelização. Ela se constitui em entidade de ação social, vinculada à CNBB, como sociedade cívico-religiosa sem fins lucrativos, reconhecida oficialmente desde 09 de maio de 1986 como Pastoral Social, organizada por tempo indeterminado, conforme seu Estatuto e Regimento Interno.

O enfermo, em seu leito de dor e de angústia, necessita de apoio solidário. Os agentes, inspirando–se nas ações de Jesus e promovendo a construção de uma sociedade solidária, fazem chegar a esses irmãos o consolo do próprio Senhor, o bom samaritano.

Dentre os grandes desafios da Pastoral da Saúde nos dias de hoje, destaca-se o de ampliar a concepção de cuidados aos doentes. O avanço das técnicas médicas propiciou grande evolução no tratamento das doenças. No entanto, há o perigo de se submeter à vida técnica, trazendo alguns problemas, como a fertilização assistida, o aborto eugênico, a distanásia e a eutanásia, e sobretudo o perigo de se descuidar do devido calor humano àquele que sofre.

A dignidade de viver e morrer

img-1778-2Por mais que trabalhemos para que o ser humano tenha uma vida longa e saudável, chegará o momento em que as forças diminuirão, envelheceremos e seremos confrontados com nossa própria finitude. A mortalidade faz parte de nossa existência, não há como negá-la ou considerá-la como inimiga. Precisamos de sabedoria e ética samaritana para cuidar das pessoas que estão se aproximando do final de sua existência. O desafio ético é considerar a questão da dignidade no adeus à vida.

Os agentes da Pastoral da Saúde

Os profissionais de saúde cristãos católicos (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, etc.), que são os agentes naturais da Pastoral da Saúde, deveriam ser convidados a assumir evangelicamente sua profissão, bem como a liderança nas comunidades onde atuam. Para se atuar nessa área com eficácia, é preciso a formação especializada que eles têm. Nesse sentido, temos um grande desafio pela frente. Tais profissionais devem ser exortados a assumirem o protagonismo pastoral na área da saúde, sendo animados a continuarem a missão de Jesus, assim expressa: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (cf. Jo 10,10).

Como as famílias podem colaborar para a saúde se difundir

A família ocupa o lugar primário na humanização da pessoa e da sociedade. Por isso, é chamada a ser uma comunidade de saúde, a educar para viver bem, a promover o bem-estar de seus membros e do ambiente que a cerca. É importante recuperar a família como colaboradora essencial no cuidado e no acompanhamento de seus membros (GPS, p. 96, 2010). Vários dos condicionantes e determinantes da saúde dependem da adesão das famílias e da educação prática das crianças.

Seguem algumas propostas de ação concreta para essa esfera:

a. Incentivar o cuidado pleno com os extremos da vida (crianças e idosos), buscando atendimento digno, humano e com qualidade nos serviços de saúde, nos três níveis de governo.

b. Garantir que a prevenção avance para além da informação. É necessário visar não só ao bem-estar individual, mas também ao familiar e ao de todos, através de ações educativas abrangentes.

c. Buscar a sensibilização e a mobilização de familiares e amigos quanto às ações básicas de prevenção e promoção da saúde, como manter o cartão de vacinas atualizado.

d. Estimular a adoção e a manutenção de padrões e estilos de vida saudáveis, a abolição de hábitos inadequados, a reeducação alimentar e a atividade física regular.

e. Estimular o uso dos serviços de saúde de forma consciente, organizada e cuidadosa, visando à otimização de recursos públicos.

f. Estimular a disseminação do conceito de que a prevenção ao uso de drogas é responsabilidade de todos, ou seja, pais, professores, empresários, líderes comunitários, sindicatos, igrejas e autoridades.

g. Incentivar e difundir programas de coleta seletiva e de reciclagem como suporte a projetos de pesquisa na área ambiental e no estímulo a práticas sustentáveis divulgadas em empresas, escolas e comunidades.

img-1778-3Em relação à sociedade em geral

É necessário fortalecer canais de participação efetiva da sociedade e de suas entidades representativas na formulação, implantação e no controle das políticas públicas de saúde. Os conselhos de saúde, em suas diversas instâncias, constituem espaços privilegiados para o alcance desse objetivo.

Para o avanço na implantação de mecanismos de gestão estratégica e participativa eficazes, indicamos ainda:

a. Incentivar a intersetorialidade das ações (saúde, educação, desenvolvimento social, justiça, esporte, emprego e renda) para promoção, prevenção, proteção, tratamento, reabilitação e recuperação da saúde, construindo uma sociedade justa e saudável.

b. Comunicar sistematicamente problemas não resolvidos nos serviços de saúde à ouvidoria do SUS (difundir o Disque-Saúde 136).

c. Reivindicar atendimento humanizado, acolhedor e digno a todo cidadão em qualquer unidade de saúde.

 

Fonte: livro da CNBB.

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