Edição 09

Matérias Especiais

Inteligência para dar e vender

Se o seu filho está apresentando problemas no desempenho escolar, ou não se saiu lá muito bem em testes de QI, não se preocupe! Ele não pode ser considerado menos inteligente por isso. Não depois da aceitação da Teoria das Inteligências Múltiplas, desenvolvida no início da década de 80 na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, pelo psicólogo Howard Gardner. Segundo ela, a inteligência humana não é algo mensurável e sim uma espécie de quebra-cabeças composto por oito peças, todas de mesmo valor e importância: são as oito inteligências, que todo ser humano possui, com exceção dos portadores de deficiências mentais profundas.

É uma mudança de ótica super-radical! Para se avaliar o quão revolucionários são os conceitos da Teoria das Inteligências Múltiplas, basta lembrar que todo esquema de ensino, adotado pela maioria das escolas do planeta, se apóia em dois – apenas dois – aspectos da inteligência humana: a lingüística e a lógico-matemática. Ou seja, aprendemos utilizando os recursos da linguagem falada, da escrita e da lógica.

Agora você pode perguntar se poderia ser de outra forma. Howard Gardner afirma que sim. O raciocínio dele é o seguinte: já que as pessoas são diferentes umas das outras, diferentes são também as suas maneiras de entender as coisas, o que derruba a idéia de que existem pessoas burras.

De acordo com a Teoria das Inteligências Múltiplas, todo o qualquer indivíduo tem potenciais diversos que precisam ser adequadamente estimulados para se desenvolver. Em termos práticos, cada uma dessas inteligências representa uma via que permite ao indivíduo compreender conceitos e manifestar o que sabe, o que pensa e o que sente. Essas vias se cruzam e interagem durante toda a vida, podendo uma se sobrepor às outras.

Herança ou estímulo?
Os pesquisadores não sabem ainda dizer qual o papel da hereditariedade e do ambiente no desenvolvimento de todo o espectro da inteligência. Asseguram apenas que um talento hereditário pode ser desvirtuado pelo ambiente onde a criança se desenvolve, da mesma forma que o ambiente pode fazer aflorar talentos latentes.

De certo, o que se sabe é que as inteligências se manifestam desde o nascimento. A primeira, que os pais podem observar, é a lingüística, quando a criança começa a falar. A partir dos três anos, a inteligência musical e a corporal já estão mais evidenciadas. Mas só a partir dos cinco anos será possível observar o desenvolvimento das demais inteligências.
Segundo Gardner, é na faixa dos três aos sete anos – que ele denomina primeira infância – que a inteligência está em sua forma mais pura. Esse período, considerado o mais fértil de toda a vida do ser humano, deveria ser aproveitado para ativar as competências que as crianças têm guardadas dentro de si. O que não significa, em absoluto, que elas devam ser bombardeadas com cursos, atividades esportivas, culturais ou musicais. Basta observar as crianças com atenção para detectar as habilidades que se destacam e estimular as que precisam se desenvolver. E isso se faz corriqueiramente, no contato cotidiano entre pais e filho.

Mudanças na educação
Não é só a relação ente pais e filhos que sai valorizada pela Teoria das Inteligências Múltiplas. Ela fala mais diretamente ainda à escola e aos professores, incentivando-os a proporcionar aos alunos alternativas que desmistifiquem matérias “cabeludas” ou chatas como matemática, geografia, gramática. Por força disso, em alguns países – incluindo aí o Brasil – as escolas estão adaptando seus currículos à Teoria das Inteligências Múltiplas.

Para os professores, Gardner manda um recado bem claro: “Olhe seu aluno por inteiro; a diferença é a regra agora, e não mais a homogeneidade, o que significa que não há alunos que não possam aprender”.

O que ler sobre inteligências múltiplas:
de Howard Gardner: Inteligências Múltiplas – a teoria na prática, Editora Artes Médicas; e
· de Kátia Smole: A Matemática na Educação Infantil – a teoria das inteligências múltiplas na prática escolar, Editora Artes Médicas.

Fonte: Texto de Solange Barreira – Revista Crescer – Março 1999 – Ano 06 – No 64·

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