Edição 69

Em discussão

Interfaces da avaliação do desenvolvimento profissional de professores

Dirceu Antonio Ruaro

mulheres_cadernoSe adotarmos a concepção de que a Avaliação Institucional é a discussão permanente sobre as práticas vivenciadas na escola, que é um processo intrínseco à busca da construção da autonomia da escola e da qualidade na Educação, certamente estaremos adotando ideias que superam a conceitualização de medida utilizada durante muito tempo, principalmente no meio educacional. Estaremos adotando também a superação de “punição”, tão presente historicamente nos processos avaliativos, sejam eles das escolas ou não. Institucionalmente era uma “desculpa” para se mandar embora algum funcionário ou professor que não “vestisse a camisa” da instituição de forma apaixonada.

Os sistemas educacionais, via de regra, utilizaram-se da avaliação de desempenho funcional, durante muito tempo, disfarçadamente ou não, para punir funcionários e professores. Desculpas, das mais ingênuas às mais sofisticadas, eram (ainda o são) usadas para justificar transferências e acomodações de acordo com as “vontades” dos dirigentes, especialmente nos sistemas públicos de ensino.

Em que pese os sistemas proclamarem que a Avaliação Institucional é regida por princípios de “adesão, não premiação ou punição, globalidade, legitimidade, continuidade, publicidade, respeito à identidade e diversidade”, entre outros, percebemos que na prática as coisas não são bem assim, especialmente se considerarmos o Sistema Privado de Ensino, no qual, quer queiramos ou não, as mantenedoras detêm o poder de aceitar ou não os indicadores e achados das comissões de avaliação.

Por outro lado, ainda há que se considerar diferentemente questões na avaliação institucional com relação à avaliação do desempenho docente. No nosso entendimento, para se poder avaliar a atividade docente, não basta avaliar o desempenho didático do saber e do saber ensinar, ou seja, meramente o uso de metodologias ou estratégias de ensino.

Não, no nosso entendimento é muito mais complexo. É preciso ter como ponto de partida a própria formação profissional do docente. Falamos de formação profissional entendendo que já está suficientemente clara, com status próprio, a profissão docente, sabendo ao mesmo tempo que é urgente que esses profissionais tomem nas mãos as rédeas de sua profissão, pois essa é uma das profissões com um valor social dos mais significativos.

Em se tratando de avaliação do desenvolvimento profissional dos professores, é importante salientar que o desafio parece ser o de “ressignificar a formação do profissional docente”, ou seja, é preciso rever concepções, objetivos e funções buscando dar novo rumo ao desenvolvimento profissional dos professores. Isso nos leva, certamente, a pensar a formação do profissional docente em outra perspectiva que não a de simples “arranjador de estratégias de ensino”.

Se assim entendemos, podemos, então, conceber o desenvolvimento profissional dos professores como um processo de desenvolvimento do conhecimento profissional (da profissão em si) e do seu “eu” profissional, rumo ao que poderíamos denominar de profissionalismo.

Tal como outra profissão, a profissionalidade docente exige um campo de competências, habilidades, normas, saberes, conhecimentos e valores específicos, que são construídos em distintos tempos e espaços, mas que não podem ser fragmentados. Assim, avaliar o desenvolvimento profissional de professores implica pensar numa ação individual e organizacional a respeito desse profissional nos campos específicos de atuação, porém tendo clareza que uma coisa é avaliar o desempenho da função docente e outra coisa é avaliar o desenvolvimento profissional sem cair na tentação de premiação pela frequência a cursos, congressos, seminários, como se o profissional devesse ser uma “máquina de buscar diplomas” para acessar níveis de vencimentos melhores na carreira.

Dirceu Antonio Ruaro é Doutor em Educação pela Unicamp na área de Ensino, Avaliação e Formação de Professores.

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