Edição 54

Professor Construir

Interfaces do amor nos escritos de Paulo Freire

Sandra Montenegro

Em um artigo curto, simples, mas extremamente comovente, a professora Mere Abramowicz (PUC/SP) cita uma frase de Paulo Freire, quando em diálogo com ele: “Quem não é capaz de amar tem que se rever”. Existe um impacto emocional e espiritual na frase em si, mas ela também é uma frase educativa, necessária para todos nós, educadores e educadoras, pois, a cada dia, temos que refletir sobre nosso potencial de amor, nossa capacidade de nos olharmos na nossa inteireza de sujeito, sem perdermos a percepção da importância do outro. Talvez seja óbvio demais dizer que o amor existente no ser de Paulo Freire foi generosamente compartilhado com o mundo inteiro através do fecundo trabalho que desenvolveu: nos livros que escreveu, na defesa dos direitos das minorias, na sua atuação em sala de aula, enfim, nos projetos que assumiu, é possível sentir, identificar a presença do amor na sua trajetória de vida.

Embora este artigo não tenha a pretensão de ser profundo, tentaremos trazer alguns elementos que destacam a presença do amor no trabalho escrito de Paulo Freire. Para seguirmos esse percurso, utilizamos as categorias sobre o amor elaboradas por Erich Fromm. De acordo com esse psicólogo, o amor possui quatro elementos essenciais e constantes: cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.

Não pretendemos analisar as categorias em Fromm, mas expô-las para que possamos realizar um cotejamento entre elas e os dizeres de Freire. Na primeira categoria — cuidado —, Fromm compreende que “o amor é a preocupação ativa com a vida e o crescimento do que amamos” (2006, p. 33). Esse cuidado está presente não somente nos trabalhos escritos de Freire, mas em toda a sua vida. O cuidado com a melhoria das condições de vida dos docentes, o cuidado com a dignidade da profissão, o cuidado com o aspecto físico da escola. Freire, literalmente, afirma: “Se não apenas construirmos mais salas de aula, mas também a mantivermos bem-cuidadas, zeladas, limpas, alegres, bonitas, cedo ou tarde a própria boniteza do espaço requer outra boniteza: a do ensino competente, a da alegria de aprender, a da imaginação criadora tendo liberdade de exercitar-se, a da aventura de criar” (Gadotti, 1996, p. 95). Em Pedagogia dos Sonhos Possíveis, Freire demonstra o seu cuidado com o trabalho da docência. Assim diz o nosso mestre:

“É necessário que o professor entenda que a prática autêntica do educador reside no fato de que o educador se recusa a assumir o controle da vida, dos sonhos e das aspirações dos educandos, já que, fazendo isso, poderia, com muita facilidade, recair num tipo de educação paternalista (2001, p. 78).”

É evidente o cuidado de Freire com as consequências das práticas educativas autoritárias, muitas vezes ingênuas, em que o educador ou a educadora desenvolve posturas superprotetoras que não colaboram para o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo dos seus alunos e das suas alunas. Em relação a essa questão, em um diálogo entre Freire e Ira Shor, este último diz: “A meu ver, a sala de aula libertadora é exigente, e não permissiva” (Medo e Ousadia, 1986, p. 36), com o que Freire concorda, reafirmando essa postura político-educativa.

A segunda categoria explicitada por Fromm é a responsabilidade. Em sua perspectiva, “A pessoa que ama corresponde [...] Ela se sente responsável por seus semelhantes, tanto quanto se sente responsável por si” (2006, p. 35). Mesmo na prisão, no período da ditadura militar, durante o exílio, Freire nunca esmoreceu no seu papel de educador e de cidadão politizado. Sempre esteve coerente com seus ideais político-sociais, conforme ele mesmo revela:

“Quando fui preso, aqui, quando me meteram numa cela de 1,70 m x 0,60 m, do meu tamanho — eu não podia nem me virar porque as paredes eram ásperas, de cimento —, quando me meteram num lugar como esse, eu jamais abdiquei do que pensei, eu jamais renunciei (2006, p. 18).”

Também não deixou de corresponder e de ajudar os países que a ele recorreram, como Tanzânia, Cabo Verde, Guiné-Bissau. Pisar o chão africano trouxe muitas recordações para Freire (relatadas em Cartas à Guiné-Bissau), principalmente por causa da similaridade entre os nossos costumes culturais (comidas, ritmos musicais, etc.). Em uma passagem do citado livro, Freire assim se refere ao povo da Guiné-Bissau: “Gentes andando nas ruas, seu sorriso disponível à vida” (1978, p. 13). É amorosamente cativante a forma como ele se dirigia e tratava as pessoas, principalmente aquelas em condições de opressão e sofrimento. A responsabilidade de Freire para com os oprimidos está presente em inúmeras ações que realizou. Foi responsável sua conduta de dialogar, de assinalar a importância da cultura do outro, do pensar, do fazer, da troca que há em todo o espaço social, especialmente na sala de aula, entre educadores(as) e educandos(as). Gadotti (1996, p. 92) ressalta, com bastante propriedade, que Paulo Freire destacava a importância de a cultura do aluno estar sempre presente na ação pedagógica, no ato educativo.

Abordando, ainda, a questão da responsabilidade, Gadotti confirma (op. cit., p. 90) a importância que Freire atribuía ao fato de os educandos desenvolverem sua própria responsabilidade. Todos, eles e elas, são percebidos enquanto sujeitos de sua própria aprendizagem, autoavaliação e crescimento. Ainda em Pedagogia dos Sonhos Possíveis, Freire demonstra sua responsabilidade ao escrever:

“O meu sonho de mundo é o sonho em que não há 33 milhões de brasileiros morrendo de fome… E os cientistas políticos dizendo que a “realidade é essa mesma”… Não, a realidade não é essa mesma. A realidade está sendo assim porque interessa a determinadas minorias do poder que ela continue assim (2001, p. 181).”

A terceira categoria que compõe o amor na concepção de Fromm é o respeito. Para esse autor, respeito implica a ausência de exploração. “Se eu amo o outro, sinto-me um só com ele ou ela, mas com ele como ele é, e não na medida em que preciso dele como objeto para meu uso” (2006, p. 35). Paulo Freire amou assim, dessa forma, sem fazer do outro um objeto para ser usado e descartado. Freire sempre defendia o direito do outro de dizer a sua palavra, a sua história, defendia o direito do outro de sonhar os seus próprios sonhos e de viver em uma sociedade mais justa, onde todos pudessem conviver em paz, apesar das contradições inerentes ao viver em sociedade. Freire sempre manteve o respeito pelo outro sem deixar de denunciar e anunciar as assimetrias sociais, econômicas, culturais.

Nesse sentido, Freire nega a educação bancária, pois ela não proporciona o respeito pelo outro; pelo contrário, a educação bancária torna o outro um objeto que precisa demonstrar ao professor ou à professora se os conteúdos que foram vistos em sala de aula estão dentro da cabeça dos alunos, tal qual o professor ou a professora ensinou, ou seja, sem que essa relação ensinar-aprender seja percebida em sua dinamicidade, singularidade dos sujeitos envolvidos.

Na última categoria sobre o amor, está o conhecimento. Com a palavra, Erich Fromm: “Conheço da única maneira em que é possível para o homem o conhecimento do que é vivo: pela experiência da união, e não por um conhecimento qualquer que nosso pensamento possa nos proporcionar” (2006, p. 38). Destacamos a expressão experiência da união, uma vez que Paulo Freire traz, em toda a sua obra, essa dimensão. Por exemplo, no seu livro Educação e Mudança (1994, p. 69), referindo-se ao diálogo enquanto imprescindível para o ato de conhecer:

“E o que é o diálogo? É uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Nutre-se de amor, de humanidade, de esperança, de fé, de confiança. Por isso, somente o diálogo comunica. E, quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé no próximo, fazem-se críticos na procura de algo, e se produz uma relação de empatia entre ambos.”

Freire nunca discordou da necessidade de os(as) educandos(as), educadoras e educadores construírem saberes e conhecimentos que respondessem às demandas sociais, nunca descuidou da importância do papel da escola no processo de elaborar coletivamente o seu projeto, envolvendo, de maneira comprometida, todos os seus protagonistas. Freire defendia uma proposta voltada para “o processo de conhecimento, formação política, manifestação ética, procura da boniteza, capacitação científica e técnica; a educação é prática indispensável aos seres humanos e deles específica, na história como movimento, como luta” (1993, p. 14).

As categorias sobre o amor elaboradas por Erich Fromm não estão separadas. Nenhuma pessoa pode amar sendo apenas responsável ou tendo respeito, todas as dimensões estão entrelaçadas para poderem ser consideradas amor. Assim também se pode dizer, de modo sucinto, sobre a dimensão do amor na trajetória de vida de Paulo Freire. Nada esteve pela metade, tudo estava pleno de amor em Paulo Freire; sua responsabilidade com a educação, com a liberdade, com o respeito pelo outro; sua exigência pela construção de saberes sociais sem excluir os saberes e as experiências culturais. Sua empatia e luta política pelos menos favorecidos socialmente, economicamente; sua opção pela dignidade do homem, da mulher, da criança, do educador, da educadora; sua defesa pela paz, enfim, nada em Paulo Freire foi mesquinho, feio e triste. Foi cheio de esperança na vida e nas pessoas, em especial no papel fundamental que ele atribuía aos professores e às professoras. O trabalho de Paulo Freire foi a síntese do amor.

Sandra Montenegro, Doutora em Educação pela PUC/SP. Professora
adjunta da UFPE, Centro de Educação. Departamento de
Administração Escolar e Planejamento Educacional.

Referências Bibliográficas:
ABRAMOWICZ, Mere. Amor e Perda em Tempos de Vida. In:
GADOTTI, M. Paulo Freire: uma Biobibliografia. São Paulo: Cortez,
1996, p. 204.
FREIRE, Paulo. Política e Educação: Ensaios. São Paulo: Cortez, 1993.
_____________. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
_____________. Cartas à Guiné-Bissau. São Paulo: Paz e Terra, 1984.
_____________ & Shor, Ira. Medo e Ousadia: o Cotidiano do Professor.
São Paulo: Paz e Terra, 2008.
_____________. Pedagogia dos Sonhos Possíveis. São Paulo: Unesp,
2001. Organizado por Ana Maria Araújo Freire.
FROMM, Erich. A Arte de Amar. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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