Edição 42

Matérias Especiais

Jogos Infantis: A Influência Indígena

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O sentido do jogo como conduta típica de crianças não se aplica ao cotidiano de tribos indígenas. Atirar com arco-e-fl echa não é uma brincadeira, é um treino para a caça. Imitar animais é um comportamento místico tanto de adultos como de crianças. Ambos dançam, cantam, imitam animais, cultivam suas atividades e trabalham para sua subsistência. Mesmo os comportamentos descritos como jogos infantis não passam de formas de conduta de toda uma tribo. As brincadeiras não pertencem ao reduto infantil.

Durante os dois primeiros anos, a criança fi ca permanentemente sob os cuidados da mãe ou avó, descansando na faixa de algodão amarrada às costas da mãe dela. A vida da criança transcorre sem violência. Não há serviçais. A vida em grupo estimula a cooperação e a solidariedade. Quando uma das crianças ganha uma fruta, imediatamente divide-a com outras, mostrando a assimilação de tais valores. A tranqüilidade das crianças e a ausência de brigas são também refl exos do modo de vida dos índios. Brincando, as crianças índias aprendem diversas atividades do cotidiano.

Em algumas tribos, as mães fazem para os fi lhos brinquedos de barro cozido, representando fi guras de animais e de gente, estas “predominantemente do sexo feminino”, nota o etnólogo Erland Nordenskiold, em estudos entre tribos do Norte do Brasil. O que parece, entretanto, é que essas fi guras de gente e de animais não são simples brinquedos, mas elementos de religiosidade.

A tradição indígena das bonecas de barro não se transfere à cultura brasileira. Prevalece a boneca de pano, de origem talvez africana. Mas o gosto da criança por brinquedos de fi guras de animais é ainda de traço característico da cultura brasileira, embora vá desaparecendo com a padronização das indústrias.

A prática de utilizar aves domésticas como bonecos, bem como o uso do bodoque e do alçapão para pegar passarinhos e depois criá-los, é uma tradição que permanece na infância brasileira.

Essa característica também é comentada, em 1847, por Fernão Cardim (1925, p. 155), quando se refere às brincadeiras indígenas:

Há muitos jogos ao seu modo, que se fazem com muito mais alegria que os dos meninos portugueses: nesses jogos, arremedam pássaros, cobras e outros animais. Os jogos são muito graciosos e desenfadadiços, e não há, entre eles, desavenças, queixumes, pelejas; nem se ouvem pulhas ou nomes ruins e desonestos.

O predomínio de brincadeiras junto à natureza, nos rios, em bandos, é outra característica do modo de brincar indígena. É ainda Cardim (apud Freyre, 1963, p.103) que descreve:

[...] os meninos de aldeia tinham feito algumas ciladas no rio, as quais faziam a nado [...] com grita e urros, e faziam outros jogos e festas n’água a seu modo mui graciosos, umas vezes dentro da canoa, outras mergulhando por baixo, e saindo em terra. Todos com as mãos levantadas, dizendo: “Louvado seja Deus Cristo”: vinham tomar a bênção do padre [...]

Da tradição indígena, fi cou no brasileiro o gosto pelos jogos e brinquedos imitando animais. Diz, Freyre (1963, p. 14), que o próprio jogo do bicho, tão popular no Brasil, tem suas origens nesse resíduo animista e totêmico da cultura indígena, reforçado, posteriormente, pela africana.

Entre os preferidos estão, segundo Koch-Grünberg (1979, p.138–139):

Jogo do Gavião

Consiste em colocar meninos e meninas em fi la grande, um atrás do outro, cada um agarrando o corpo do da frente. O menino maior representa o gavião. Este se coloca diante da fi la e grita “piu”, a chamada da ave de rapina que quer dizer: “Tenho fome”. Logo, o primeiro dos meninos estende adiante uma perna e, depois, a outra e pergunta: “Quer isto?”. Ele contesta: “Não”. E assim segue com os outros, até o último da fi la. Ao último menino, o gavião diz: “Sim”, e, então, trata de pegar o menino correndo para a direita e a esquerda ao longo da fi la. Os demais procuram impedir, voltando a fi la rapidamente de um lado a outro, momento em que os menores acabam caindo ao chão no meio do alvoroço. Se o gavião não consegue nada, tem que voltar a seu posto para tentar de novo. Quando consegue, leva triunfantemente o cativo para o lugar que é seu ninho e prossegue o jogo até que o último tenha sido pego.

Jogo do Jaguar

Forma-se a cadeia de meninos e meninas como no jogo anterior. O maior representa o jaguar. Apoiado nas mãos e em uma perna, com a outra perna estirada imitando o bicho, vai saltando e grunhindo de um lado a outro, diante da fi la. Os meninos cantam: Kaikú si mã gele tape-wai (“Este é um jaguar”), movendo a fi la de lá para cá. De repente, o menino que representa o jaguar se levanta de golpe e trata de agarrar o último da fi la. Os que são pegos passam a representar distintos animais, presas do jaguar, como o cervo, o javali, o jabuti, a capivara e outros.

O Jogo do Jaguar foi posteriormente divulgado pelo Conselho Nacional de Proteção aos Índios, em publicação do Ministério da Agricultura denominada Brinquedos de nossos Índios.

Jogo do Peixe Pacu

Em princípio, é como os anteriores. Um menino representa o pescador. Os que tomam parte da cadeia, ao serpentear a fila, cantam: Waitá ma-ge lé ta-pe-wai (“Este é um pacu”). O pescador trata de correr ao longo da fi la e tocar o último menino com um pedaço de cana ou madeira que representa a flecha.

Jogo do Jacami

Nesse jogo, as crianças, de mãos dadas, formam uma longa fila e vão cantando: Ye-matã paná po u’yo-ká la-mã! Ta nã yakã i pi zulúz hm-hm-hm (“Ao lado do caminho, vão correndo os jacamis assustados”). Subitamente, todos saltam o mais rápido possível e voltam atrás.

Segundo Aurélio (1975, p. 793), jacami é a designação comum a várias aves gruiformes da família dos psofi ídeos, gênero Psophia crepitans, da região amazônica, cujas penas da cabeça são curtas e retas. Das sete espécies descritas para o gênero, seis existem no Brasil e se adaptam muito bem ao cativeiro, tornando-se autênticos vigias de terreiro ou de habitações de caboclos.

O Jogo dos Patos Marreca “Wawin”

É um jogo que simula a caça aos patos. Como nos anteriores, forma-se uma fi la grande. Os mais fortes, na frente, vão correndo rápido para todos os lados, fazendo “Schschwsh schbschwsch”, de modo que o extremo posterior da fi la se agita, e os pequenos caem com freqüência.

De repente, todos param. É a simulação do momento em que os patos entram na água. Em seguida, vêm os caçadores, e os meninos maiores atiram: “Tac-tac-tac”. Os patos, um, dois, três, aqueles tocados com a mão estendida, morrem e são levados como presas até que não sobre nenhum.

Jogo do Casamento

Muito alegre e divertido. Em frente a uma fi la de meninas, encontra-se uma fi la de meninos. A primeira menina pergunta ao primeiro menino, indicando sua vizinha: “Queres casar com esta?”. Ele responde: “Não, ela é feia”. Assim passa por toda a fi la de meninas até chegar à última. Frente a esta, o menino responde: “Sim”, e muda de lugar com ela. Depois, repete-se a cena. Há muitas situações engraçadas e risadas.

Os vários jogos envolvendo fi guras de animais, sempre colocando em oposição grupos ou elementos — enfi m, jogos que envolvem o pegador —, incluem sempre a imitação de gestos, movimentos, cantos e grunhidos dos animais ou das aves.

Muito semelhante ao Jogo do Jaguar, há uma brincadeira na região central de Mato Grosso, descrita por Alexandre Moraes de Mello, em Jogos Populares Infantis como Recurso Pedagógico de Educação Física, publicado em 1985. Ali, ele descreve a brincadeira denominada O Gavião e os Pintinhos, ou também chamada A Galinha e o Gavião. (Veja Jogos de Perseguição.)

Cascudo (1958, p. 83), ao comentar a presença do elemento indígena nas brincadeiras do menino brasileiro, afi rma que, em qualquer registro dos séculos XVI e XVII, sabe-se que os meninos indígenas brincavam, logo cedo, com arcos, fl echas, tacapes, propulsores; enfim, o arsenal guerreiro dos pais. O divertimento natural era imitar gente grande, caçando pequenos animais, abatendo aves menores, tentando pescar.

Outro brinquedo para meninos é uma matraca, confeccionada com um disco de totuma, com muitas concavidades na borda e uma cavidade no centro, por onde passa um fio, unido nas extremidades. O movimento de virar e esticar o fi o produz um ronronar que diverte os meninos.

Entre os uapixanas, Grünberg encontra um brinquedo também presente no alto do Rio Negro, no Amazonas. Trata-se de uma pequena mangueira, trançada elasticamente, como uma prensa para mandioca (tipiti). Aberta por um lado, a outra extremidade desemboca em um aro trançado e a ele ligado. Quando se põe o dedo na abertura e se estica a mangueira pelo aro, esta se contrai e o dedo fi ca enroscado no trançado. O dedo só fi ca livre quando a mangueira se dilata.

Ainda para se divertir, os meninos taurepangues sopram sobre uma folha dobrada, tal como fazem os caçadores para atrair veados. Outro jogo observado entre eles é o Enigma: um pedaço de cana cortado, de modo artístico, em três partes independentes que, somente com muita força, podem ser separadas.

Grünberg observa entre eles o Jogo do Fio, atualmente conhecido também por Cama-de-gato e presente até hoje no rol de jogos tradicionais infantis do Brasil. Os distintos desenhos que fazem têm, todos, denominações, lembrando objetos, animais e situações de seu cotidiano. Entre os taurepangues, o autor vê jogos de fi os representando raízes da palmeira paxiúba, entrada da casa, mandíbula de macaco e espelho.

Herbert Baldus (1970, p. 409) observa, também, o Jogo do Fio entre os tapirapés, tribo tupi residente no Brasil central, denominado inimá paravuy. Consiste em formar uma multiplicidade de fi guras com um fi o de algodão. Os xamacócos do Chaco fazem o mesmo jogo, utilizando o polegar do pé e os dentes. Entre eles, o Jogo do Fio não fica restrito às crianças, mas é praticado por todos — meninos, meninas e até adultos.

É interessante observar como cada comunidade tem, juntamente com os jogos, crenças que os acompanham. Os jogos infantis de algumas populações da zona rural não apresentam o espírito de competição que caracteriza as crianças de zona urbana (Garcia, 1981, p. 193). Mesmo entre os adultos, não há competição nas situações de jogo. Baldus (1970, p. 409) comenta a ausência desse comportamento nas corridas dois a dois, na festa indígena denominada Apachirá. Apesar do esforço manifestado pelos participantes, após o término da contenda há apenas uma troca de sorrisos, típica dos jogos de movimento.

Os meninos tapirapés gostam de fazer correr uma argola de tamancurá, com auxílio de um bastão. Assim, vão de um lado para outro, sem nunca, porém, lhes ocorrer fazer uma competição ou brincar de arremessar a argola e apanhá-la no ar.

Del Priore (1991, p. 20) observa também a presença dessa brincadeira de rodar argolinhas entre os indígenas catequizados pela Companhia de Jesus, em 1550, no Brasil:

No Banquete, de Xénephon, é encontrada uma descrição típica desse exercício: Eu vejo, diz Sócrates (cap. II), uma criança com arcos e começa a expectativa. Logo que a fl auta se põe a tocar música, a pessoa que se coloca perto da dançarina lhe passa doze aros. Ela os toma e se põe a dançar ao mesmo tempo que joga ao ar, imprimindo um movimento de rotação e calculando a força com aquela que dança para receber em cadência…

Há ainda, entre os jogos indígenas, segundo relato de Paul Ehrenreich (1948, p. 65), os da tribo carajá, do Rio Araguaia, na região do Estado de Goiás, região Centro-Oeste do Brasil. Nessa tribo, também predomina a imitação de atividades dos adultos nos jogos de arco-e-fl echa, na pesca e nos trabalhos domésticos. Entre os brinquedos, há a produção de fi guras de argila, piões, canoas, remos e vasilhames de cozinha.

Um jogo bastante apreciado, inclusive pelos adultos, é a peteca, feita com palha de milho e o miolo em forma de argola, além do Jogo do Fio.

Uma constante que permanece nas brincadeiras é a predileção dos curumins pela imitação de pássaros e animais.

Que prazeroso é para nós, “brancos”, ter conhecimento de tão grande riqueza indígena! Precisamos aprender com sua cultura que, em jogos e competições, o mais satisfatório é a diversão, o conviver, o dividir e que uma das mais importantes lições é a socialização como um todo e para todos, daí podemos dizer, ou até mesmo afi rmar, a construção para a formação do ser.

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Referências Bibliográficas

Jogos Infantis/KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Petrópolis: Vozes, 1993.
Curumim yanomami: foto de Leonide Príncipe, publicada por Amazon Multimedia Stock.
Menina marubo: foto de Renato Soares, publicada em Brasil Indígena 500 Anos de Resistência / Bendito Prezia, Eduardo Hoornaert. São Paulo: FTP, 2000.
Meninos tukanos: foto de Hélio Nobre, publicada no calendário 2003 do Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas (Ideti).
Mulher kulina: foto de Heiner Heine, publicada em Brasil Indígena 500 Anos de Resistência / Bendito Prezia, Eduardo Hoornaert. São Paulo: FTP, 2000.
Cama-de-gato: Ilustração de Hamilton Botelho Malhano para o Dicionário do Artesanato Indígena / Berta G. Ribeiro. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1988.
Pião: foto de Ângelo Zucconi – Coleção do autor.
Tipiti: foto de Ângelo Zucconi – Coleção do autor.

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