Edição 39

A fala do mestre...

Kabengele Munanga. Racismo: esta luta é de todos

Por Beth Caló

kabengele

Antropólogo fala da discriminação das crianças negras nas escolas e convida a sociedade a rever seus valores para construir um país mais justo e mais rico

O antropólogo Kabengele Munanga, em entrevista exclusiva à Raça Brasil, faz um alerta contra a discriminação e os preconceitos raciais nas escolas. Professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ele nasceu em 1942, na República Democrática do Congo e se naturalizou brasileiro em 1985.

Estudioso e pesquisador incansável da temática negra no Brasil, Kabengele lembra que um racismo caracterizado pelo silêncio criminoso e pelo falso mito de democracia racial impede a conscientização e a necessária mobilização da população. A saída? “Temos que encontrá-la juntos”, garante, buscando estratégias políticas e econômicas que visem ao bem de todos. Kabengele Munanga é autor de dezenas de livros, entre os quais Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil, da Editora Vozes. Ele também organizou a obra Superando o Racismo na Escola, publicada pelo MEC.

RAÇA BRASIL – Como o senhor avalia a situação da criança negra, hoje, no País?
KABENGELE MUNANGA – O racismo no Brasil mantém os negros em péssimas condições socioeconômicas e dificulta seu acesso à educação de boa qualidade e ao mercado de trabalho, entre outros prejuízos. A conseqüência disso é que as crianças, já maltratadas pelo baixo poder aquisitivo dos pais, também sofrem ao entrar no ensino público. O sistema foi construído com base na realidade da minoria abastecida, ou seja, da classe média brasileira. Assim, além de serem excluídas das escolas particulares, não recebem, nas unidades públicas, tratamento adequado ao seu desenvolvimento intelectual e emocional.

RB – Até na escola ela sofre desvantagem?
KM – Sem dúvida. Todos os preconceitos e as discriminações que permeiam a sociedade brasileira são encontrados na escola, cujo papel deve ser o de preparar futuros cidadãos para a diversidade, lutando contra todo tipo de preconceito. Mas, na prática, ela acaba é reforçando o racismo.

RB – E como o senhor explica esse processo?
KM – Na maioria das vezes, os professores não estão preparados para lidar com as diferenças e muitos deles já se mostram predispostos a não esperar o melhor resultado do estudante negro e pobre. E tem também a questão do programa curricular e do próprio livro didático, que, além de privilegiarem a cultura européia, transmitem preconceitos de várias naturezas: de classe, de cor, de raça, de religião… Tudo isso fortalece os mecanismos de exclusão e impede que a escola cumpra seu verdadeiro papel, que é o de educar, socializar e formar verdadeiros cidadãos.

RB – O racismo da escola é pior do que o das ruas?
KM – É igual. Mas torna-se mais grave na escola porque se trata de um espaço público, e o aluno está ali para aprender. Por isso, o preconceito tem um impacto mais direto sobre a criança. Esse racismo à moda brasileira — menos explícito que nos Estados Unidos — prejudica o processo de formação de consciência e mobilização da própria vítima.

RB – Até o ensino da História é discriminador, não é verdade?
KM – Para se ter uma idéia da gravidade dessa questão, o departamento de História da Universidade de São Paulo, a maior do País, até pouco tempo não tinha professor para ensinar História da África. Foi preciso que o movimento negro e outras entidades pressionassem para que isso acontecesse.

RB – As crianças negras não conhecem sua própria história…
KM – Exatamente. E isso aprofunda sua alienação. Ela abre os livros, lê a história de outros povos e não vê a sua. Ou seja, fica sem passado. Os outros povos estão lá: os portugueses, italianos, japoneses… A dedução natural dessa criança, ainda que inconsciente, é: não sou parte da História, portanto não pertenço à humanidade.

RB – E em relação à escravidão?
KM – Alguns livros didáticos falam do papel do negro no Brasil como escravo, mas não mostram sua participação concreta na sociedade brasileira, seu espaço na economia. O negro não trabalhou só nas plantações. Trabalhou nas artes, na mineração. Aliás, foram os negros que ensinaram aos portugueses as técnicas de mineração. Essas coisas não são ditas. O silêncio também é uma forma de racismo.

RB – Isso dificulta a construção de uma identidade nacional?
KM – Claro. A diversidade é uma riqueza e não deveria criar problemas. Não podemos construir a identidade brasileira a partir de uma única cultura, considerada superior, que é a ocidental. A criança precisa aprender na escola como os portugueses, os japoneses, os negros contribuíram para o desenvolvimento do País. E que nenhuma dessas contribuições é melhor do que a outra.

RB – A imagem negativa acaba interferindo no aprendizado?
KM – Muitas vezes a criança já chega na escola como derrotada. Ela já tinha a auto-estima baixa. Aí os preconceitos e as discriminações que aconteciam na vizinhança e na comunidade se reforçam e se repetem na sala de aula. Isso mina o processo de aprendizagem.

RB – Vem então a repetência, a evasão, a sensação de fracasso…
KM – Costuma vir também a constatação racista de que o negro é menos inteligente. Um completo absurdo. O que acontece é que a criança simplesmente não encontra no espaço da escola condições adequadas para se desenvolver intelectualmente. Além disso, existe o despreparo dos professores, o conteúdo dos livros didáticos, a discriminação, a cultura elitista. Tudo isso contribui para que essa criança se sinta insegura, desestimulada e acabe se mostrando incapaz.

RB – E as crianças brancas? Como se comportam em relação às colegas negras?
KM – Em alguns casos, reagem com certa estranheza, que pode ou não evoluir para um comportamento preconceituoso. Ninguém nasce racista. Crianças negras, em sua maioria, moram bem longe dos bairros de classe média branca. É difícil esses meninos conviverem. Com isso, brancos, negros, todos nós acabamos sendo vítimas. Um sistema social caracterizado pelo racismo precisa sempre criar novos racistas para se manter. Assim, a sociedade reproduz carrascos com pouca chance de escolha.

RB – Esse nosso racismo à brasileira, como o senhor chama, deve deixar a criança bastante confusa.
KM – A humilhação e os estragos são enormes. Eu costumo dizer que o preconceito é um iceberg, e a gente só vê a ponta. Nada é explicitado à criança, mas o tom da voz, os gestos ou mesmo o silêncio dizem que ela é um ser inferior. E o discurso, ao contrário, afirma que somos todos iguais. Precisamos assumir que somos um país racista.

RB – Como assumir?
KM – Temos o mito da democracia racial. Olhem o exemplo do Pelé. Dizem, é verdade, que o Pelé conseguiu ser respeitado, venceu vários obstáculos, tornou-se um ídolo. Mas sua ascensão tem limites. Hoje, por mais que quisesse, ele não seria eleito presidente da República. O preconceito existe e é muito forte. Alguns acreditam que a discriminação acontece apenas por razões econômicas, porque o negro, no Brasil, é pobre. Eu afirmo o contrário disso: o negro continua pobre e marginalizado, justamente por causa dos preconceitos.

RB – Dá para explicar melhor essa relação?
KM – As pesquisas comprovam: um cidadão brasileiro branco e um cidadão brasileiro negro com o mesmo nível de formação têm uma diferença salarial em torno de 30%. Já uma mulher negra ganha, em média, 46% a menos que o homem branco. Logo, há racismo na sociedade brasileira. E a primeira condição para se lutar contra ele é assumi-lo.

RB – O processo de mestiçagem no Brasil ajuda ou atrapalha?
KM – A mestiçagem faz parte da história da humanidade. Por todas as partes onde os seres humanos se encontraram, existem as relações inter-raciais. O que não existe é raça pura. Até populações em guerra, como os americanos e os vietnamitas, deixaram mestiços. E também não podemos ser contra as uniões, os casamentos entre pessoas de raças diferentes. O que preocupa, isso sim, são aqueles que se sentem derrotados diante do processo de dominação e buscam a miscigenação como única saída. Tentam “branquear” a família para sofrer menos. Temos que aceitar que somos racistas e lutar coletivamente até encontrar nosso caminho.

RB – Já avançamos no sentido de encontrar esse caminho?
KM – A transformação é lenta, mas conseguimos muitas coisas. Temos uma lei que pune ações racistas. Os editores de livros didáticos também já foram convidados a rever suas obras pelo Ministério da Educação. Existem mudanças curriculares aqui e ali, mas precisamos caminhar mais.

RB – Racismo na escola, na mídia, nas ruas… A família acaba sendo, então, o único porto seguro da criança negra?
KM – O papel dos pais é fundamental nesse processo todo, embora nem sempre eles consigam assumir os comportamentos adequados. Alguns negros se identificam tão profundamente com a imagem negativa de inferioridade que passam isso para os filhos. Os pais que dizem à criança que somos todos iguais, somos filhos de Deus também não ajudam a enfrentar a realidade. Ela vai encontrar obstáculos, discriminação, sem estar preparada para isso. Deveriam ensiná-la a lutar pelos seus direitos, não a baixar a cabeça. Um dos papéis fundamentais dos pais é o de reforçar a auto-estima da criança. Ela precisa gostar de si, saber que tem apoio e que pode derrubar muitas barreiras, sim. Ainda que seja difícil.

Extraído do site: http://www2.uol.com.br/simbolo/raca/1000/entrevista.htm, acesso no dia 07/12/07, às 15:50.

cubos