Edição 83

Como mãe, como educadora, como cidadã

Laço de lagartixa

Zeneide Silva

Estávamos eu e Cau, meu marido, conversando e relembrando as brincadeiras de nossa infância. Depois de tantas lembranças, uma em especial chamou a nossa atenção: Como dominar e brincar com a lagartixa?. A brincadeira “laço de lagartixa“era da seguinte maneira: primeiro, preparávamos a palha de coqueiro, raspando a tira da folha, deixando apenas o fio. Em seguida, dava-se um laço folgado, na parte mais fina, para laçar a lagartixa. Quando envolvida pelo laço, ficava presa pela cabeça, passando a ser conduzida pelo comando daquele que conseguia prendê-la. Depois de um tempo, o laço era desfeito, e a lagartixa era solta. Nessa brincadeira, não havia maldade, era apenas para ter o comando do animal em nossas mãos. Ela, presa no laço, simplesmente obedecia.

A lembrança dessa brincadeira nos levou a refletir sobre a questão do obedecer — uma palavra muito comentada, na escola, entre professores; em festas de aniversário, entre pais; em roda de amigos, mesas de bar e também nos encontros religiosos. “Os alunos não obedecem”, dizem os professores. “Meu filho, escute-me e me obedeça”, dizem os pais. “Esse menino não obedece aos pais, como vai obedecer a esse animador?”, são os comentários na festa. “O povo não teme a Deus, por isso não Lhe obedece”, falam os líderes religiosos.

Como em toda conversa, uma lembrança puxa outras. Lembramo-nos de um fato bastante engraçado que aconteceu comigo, meu irmão Nado e nosso pai, que começa assim: Morávamos numa casa muito simples e, com a chegada do calçamento, ela ficou muito baixa, basicamente dentro de um buraco. No inverno, a água da chuva que descia pelo morro invadia nossa casa e ficávamos ilhados. Para evitar que a água entrasse de uma vez, papai costumava colocar duas lajotas na porta de entrada e, no meio, entre a lajota e a porta, muita areia. Certo dia, quando eu chegava da faculdade, na época eu tinha entre 19 e 20 anos de idade, chovia muito; meu pai pediu para que eu e meu irmão Nado fôssemos buscar areia a uns 200 metros de distância da minha casa. Sem questionar nada, simplesmente obedecemos, pois sabíamos que era necessário para o bem de todos.

Seguindo o comando do nosso pai, fui empurrando o carro de mão, e Nado levava a pá. Conversávamos no caminho, quando, de repente, ouvimos um trovão seguido de um relâmpago bem forte, daqueles de clarear tudo. O susto foi tão grande que soltamos o carro de mão e a pá e voltamos correndo para casa. Nado, que já tinha tomado algumas, ficou bom logo com o tamanho do susto e medo do raio.

Nosso reflexo foi largar tudo e correr para casa. Mas papai estava à nossa espera e, quando nos viu, logo perguntou: “Onde estão o carro de mão, a pá e a areia?”. Ainda assustados, respondemos que havíamos deixado lá, pois ficamos com medo, e ele nos olhou e disse: “Voltem e tragam a areia”. Olhamos um para o outro, baixamos a cabeça e, simplesmente, obedecemos, pois sabíamos que era necessário, embora continuássemos com muito medo.

Mas não é o que acontece hoje. Vivemos numa sociedade formada, em sua maioria, por desobedientes, por falta de pais que assumam seu papel de ter, em suas mãos, a rédea, o controle necessário para a convivência em família. Como não bastasse toda a falta de controle, os pais atribuem a culpa à falta de tempo para estar ao lado dos filhos, tornando-se, assim, reféns de seus próprios filhos, permitindo todos os seus pedidos e sem comando.

Professores pais, professoras mães, a falta de tempo não explica nem justifica a falta de comando na educação de seus filhos, nossos alunos. O tempo não é uma questão de quantidade, e sim qualidade em seu uso, e sempre há tempo para estabelecer limites e regras em seu convívio na família e na sua sala de aula. Reflitam…

cubos