Edição 82

Em discussão

Leitura: a seleção de texto para o ensino

Flávio Tomaz Pacheco

Introdução

A leitura nem sempre é um ato agradável, muitas vezes é vista como uma necessidade de ampliar nossos conhecimentos para obtermos informações; por isso, muitas vezes os alunos não a praticam como deveriam. Cabe ao professor provocar no aluno o interesse e a busca pela mensagem do texto, dizer o que ele irá propor e como servirá para sua realidade. O professor tem um papel muito importante na formação de leitores bons, competentes e satisfeitos. Devemos reconhecer que a seleção dos textos para a série e o nível dos alunos, além de dar importância à realidade social dos mesmos, facilitará a realização de uma prática de leitura constante e transformadora.

A importância da seleção dos textos para o ensino

leitura_a_selecao_img_1A leitura é uma atividade que deve ser prazerosa, gostosa, com objetivo e função social para que faça sentido ao leitor e assim ocorra interesse pelo texto que está sendo lido. No entanto, é sabido que não é todo tipo de texto que causa tal gosto ao aluno, e sim textos em que de alguma forma o próprio leitor acredita haver uma reciprocidade. No famoso livro Letramento Literário (2009), considerado um verdadeiro manifesto para o ensino e a aplicabilidade dos textos literários em sala de aula, Rildo Cosson nos esclarece:

A leitura é o resultado de uma série de convenções que uma comunidade estabelece para a comunicação entre seus membros e fora dela. Aprender a ler é mais do que adquirir uma habilidade, e ser leitor vai além de possuir um hábito ou atividade regular. Aprender a ler e ser leitor são práticas sociais que medeiam e transformam as relações humanas. (COSSON, 2009, p. 40)

O ato de ler não é um ato simples, e sim uma atividade complexa que deve acontecer no cotidiano escolar e principalmente fora dele, tendo em vista que o tempo na escola é bem menor do que o tempo em casa. A leitura fora da sala de aula está inteiramente condicionada pela maneira como a escola ensina a ler. No entanto, a leitura que esta objetiva processar visa mais o entretenimento que a prática de uma leitura de fruição; faz-se necessário, então, perceber a potencialidade que o aluno constrói quando participa constantemente do ato de ler. Para Cosson:

Não é possível aceitar que a simples atividade da leitura seja considerada a atividade escolar de leitura literária. Na verdade, apenas ler não é a face mais visível da resistência ao processo de letramento literário na escola. Por trás dele, encontram-se pressuposições sobre leitura e literatura que, por pertencerem ao senso comum, não são sequer verbalizados (2009, p. 26).

Com isso, percebemos que a atividade com a leitura deve ser, sem dúvida, uma prática intensiva, a partir de textos literários e não literários. Pois, para se chegar à leitura literária, é necessário que o aluno seja um leitor competente e bastante crítico em relação ao que lê e, assim, tornando-se um cidadão letrado, percebendo que a leitura é um concerto de muitas vozes e nunca algo monótono, ou seja, é uma atividade na qual percebemos as vozes dos outros. E, quando me refiro ao leitor competente e crítico, falo naquele que possui iniciativa própria, selecionando os textos de acordo com suas necessidades sociais e seu nível de leitura. De acordo com Cosson:

[...] ao lermos, abrimos uma porta entre nosso mundo e o mundo do outro. O sentido do texto só se completa quando esse trânsito se efetiva, quando se faz a passagem de sentidos entre um e outro. Se acredito que o mundo está absolutamente completo e nada pode ser dito, a leitura não faz sentido para mim. É preciso estar aberto à multiplicidade do mundo e à capacidade da palavra de dizê-lo para que a atividade da leitura seja significativa (2009, p. 27).

Fica evidente que a leitura são trocas de informações entre o leitor e o autor, ou seja, uma atividade que se estabelece a partir de vários sentidos que o texto pode oferecer ao leitor, sem se preocupar em transmitir só o essencial. Um bom texto é aquele que deixa o leitor aguçado para procurar o melhor sentido, o melhor final, as coisas que estão implícitas, para que ele viaje no texto.

Se tivermos dúvidas quanto ao texto que queremos ler, podemos consultar resenhas dos jornais e das revistas, ouvir os amigos [...], checar a propaganda sobre os lançamentos e consultar as listas de mais vendidos. Essas são algumas das maneiras pelas quais a literatura é selecionada tendo como ponto de orientação o leitor. É a chamada livre escolha, que, como se pode observar, nunca é inteiramente livre, mas conduzida por uma série de fatores (COSSON, 2009, p. 31).

Então, para Cosson, é fundamental a escolha do texto que irá ser lido pelo leitor, um texto que traga ao mesmo uma vontade de ler, um desejo pelo novo, pela descoberta, pela novidade, pela história contada, a imaginação, a sedução, o prazer. A escolha da leitura depende de fatores que contribuem de forma positiva e que instigam o leitor a ir até o fim do texto. Leitura é, acima de tudo, um conjunto de significados, como nos fala Marisa Lajolo apud Geraldi:

[...] ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações, o sentido de um texto. É, a partir do texto, ser capaz de atribuir-lhe significado, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significativos para cada um, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a esta leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo outra não prevista (2004, p. 91).

O ato de ler é uma atividade de compreensão e interpretação, sem práticas de achismos, e sim dos sentidos que estão ditos no texto ou implícitos nas entrelinhas. A leitura, então, é um processo de interlocução entre autor e leitor, sendo mediado pelo texto. Ela deve proporcionar reflexões, sendo estas progressivamente complexas para que o indivíduo possa crescer como um bom leitor crítico e social.

A leitura é o resultado de uma série de convenções que uma comunidade estabelece para a comunicação entre seus membros e fora dela. Aprender a ler e ser leitor são práticas sociais que medeiam e transformam as relações humanas [...], a leitura deve ser pensada como um processo linear (LAJOLO apud GERALDI, 2004, p. 91).

É indispensável não perceber a leitura como um processo resultante de convenções que acontecem na sociedade e que interferem de forma positiva na vida cotidiana de qualquer indivíduo que a pratique de forma intensa. Pois é através dela que descobrimos, que aprendemos novos conhecimentos a partir das diversas interpretações que a mesma nos proporciona.

A interpretação depende, assim, do que escreveu o autor, do que leu o leitor e das convenções que regulam a leitura em uma determinada sociedade. Interpretar é dialogar com o texto tendo como limite o contexto. Esse contexto é de mão dupla: tanto é aquele dado pelo texto quanto o dado pelo leitor; um e outro precisam convergir para que a leitura adquira sentido (COSSON, 2009, p. 41).

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As interpretações, então, dependem de cada leitor, de como realiza a leitura, pois são diversas as interpretações que o texto oferece; faz-se necessário, assim, um olhar mais crítico, com uma leitura que faça o leitor chegar à ideia principal do texto, extrair e inferir informações, estabelecer relações entre outros textos já lidos, porque leitura é reflexão e, às vezes, é diversão. Ler é conhecer, compreender, entender o mundo à sua volta.

A leitura torna o homem completo, a conversação torna o homem alerta, e a escrita torna o homem preciso. Eis por que, se o homem escreve pouco, deve ter uma boa memória; se fala pouco, deve ter muita malícia para parecer que sabe o que não sabe (COMPAGNON, 2009, p. 29).

A partir do discurso de Compagnon, percebemos que a leitura é parte integrante do ser humano social, aquele que é cercado por textos, por palavras, por contextos que ajudam a viver no mundo letrado. Então, “[...] a leitura evita que tenhamos de recorrer à dissimulação, à hipocrisia e à falsidade; ela nos torna, portanto, sinceros e verdadeiros, ou simplesmente melhores” (BACON, apud COMPAGNON, 2009, p. 30). E, para Fischer (2006, p. 11), “[...] leitores frequentes sempre se tornam leitores fluentes, os quais passam a minimizar o som e a maximizar o significado”. Sendo assim, a leitura não é apenas a junção de sons, e sim um conjunto de significados que não precisa recorrer ao som. Ainda, segundo Fischer (2006, p. 309), “A leitura capacita a humanidade de modos, muitas vezes, inesperados. A memorização da leitura, um tipo de sistema de arquivos cerebral, ajuda muitas pessoas a, por exemplo, reter e organizar o conhecimento”.

Há um tipo de leitura que, sem dúvida, é indispensável para a formação de leitores sociais: a leitura de imagem, pois ela é o primeiro contato que o aluno tem do texto, ou seja, um conhecimento para começar o processo da leitura. Observando a leitura de imagens em textos publicitários, esclarece Rossi:

[...] a compreensão das imagens publicitárias desenvolve um olhar crítico que pode desmistificar ideias veiculadas pela mídia. Assim, justifica-se a inclusão de uma propaganda no material a ser analisado pelos alunos, pelo conhecimento que isso pode trazer aos professores de arte (2009, p. 29).

Então, através da leitura de imagem e fotografia de um texto publicitário, o educando irá tirar suas conclusões associando a realidade à sua volta. O texto publicitário é a combinação entre imagem e palavra usada com a intenção de vender o produto, em que o leitor, mesmo sem dominar a grafia, associa a imagem ao texto. Uma forma de seduzir e chamar a atenção do consumidor, despertando a curiosidade de comprar determinado produto, induzindo e estimulando o leitor a ler o texto e visualizar a imagem para não só compreender o texto, mas com a intenção da compra, desejando o produto. Portanto, as imagens que os aprendizes veem em seu dia a dia, na televisão, nos outdoors, pôsteres, cinemas, gibis, quadrinhos e nas revistas, devem estar presentes nos recursos didáticos na sala de aula, para melhor compreensão e interação dos alunos na leitura.

Consonante ao que foi citado anteriormente, cabe ao professor escolher quais tipos de imagem deve trazer para sala de aula, mas não esquecer que diferentes tipos de imagem, como fotografia e jornais, estimulam as ricas interpretações nos alunos. Isso significa que a imagem contribui e serve como material de leitura, possibilitando seu hábito e auxiliando na formação de um leitor crítico. Sobre isso, falam-nos Brandão e Rosa:

O jornal pode, portanto, despertar o interesse dos alunos, não apenas por informar, mas também por problematizar e discutir sobre o que está acontecendo no mundo hoje. De fácil acesso, instrumento conhecido e presente em todas as classes sociais, se adequadamente utilizado, poderá servir como fonte estimuladora de uma infinidade de atividades que venham a promover o desenvolvimento da criança tanto em relação à leitura, à compreensão, como na produção de textos, proporcionando, dessa forma, uma visão da língua escrita numa perspectiva sociocultural, ou seja, a linguagem como objeto de interlocução (2007, p. 103).

Então, a partir da leitura de imagem selecionada pelo leitor nos diversos suportes sociais, consegue-se ir à informação, entendendo e compreendendo o fato através dos vários textos, assim como nas notícias e reportagens, interpretando o que entendeu, expondo suas ideias e opiniões pelo seu ponto de vista, tornando-se um cidadão crítico. Dessa forma, a leitura ajuda a compreender melhor o mundo, através da associação imagem-escrita.

Cabe ao educador escolher/selecionar os textos a serem lidos com os alunos de acordo com suas habilidades de domínio da leitura. O bom é trazer para sala de aula textos que auxiliem os aprendizes nas suas dificuldades para que eles mesmos desenvolvam estratégias de leitura nos diversos tipos de texto, assim como nos poemas, contos de fadas, histórias de ficção, gibis que os encantem, para estimular sua imaginação. Para Brophy apud Boruchovitch:

[...] um objetivo motivacional viável dos professores para o dia a dia das classes é buscar o desenvolvimento e a manutenção da motivação para aprender com as atividades acadêmicas, isto é, devem fazer com que os alunos considerem tais atividades significativas e merecedoras de envolvimento, buscando obter os benefícios de aprendizagem achem ou não interessantes tais atividades ou prazerosos os processos (2010, p. 14).

Para os leitores, a atividade de leitura é de profunda importância; e os professores, na sua prática escolar, necessitam buscar uma forma criativa para motivá-los. Percebe-se que muitos deles chegam à sala de aula sem motivação alguma para aprender, desinteressados. Sugere-se fazer atividades que estimulem a motivação na leitura, como solicitar a leitura de livros e revistas sobre temas populares que os alunos gostem — como aquecimento global, veículo, moda, esportes, tecnologia, música — e, sobretudo, ler para os alunos.

É importante termos em mente que a primeira leitura de um texto, em determinadas situações, deve ser do professor, o grande incentivador dessa prática, pois, a depender da forma como o mesmo desenvolve a leitura frente à sala de aula, os alunos sentirão desejo de ler. Essas atividades têm o objetivo de instalar nos discentes o gosto pela leitura. Pode-se pedir atividades relacionadas aos temas propostos, como relatos e redações, para motivá-los a escrever e praticar a leitura e a escrita, incluindo seu ponto de vista, suas críticas, soluções, sugestões e estratégias a partir de seus conhecimentos.

Segundo Boruchovitch, “Os professores precisam conhecer, dominar, usar e pesquisar tudo o que possa motivar a leitura e facilitar o desenvolvimento do aluno, tendo validade para todos os níveis de ensino” (2010, p. 183). Para motivar os discentes na leitura, os docentes, hoje em dia, têm várias opções de materiais e estratégias, como revistas, jornais, panfletos, bula de remédio e descrição de produtos; são textos narrativos, ritmados e informativos, que podem ser trabalhados individualmente ou em grupos, com dramatização e apresentação.

A exemplo dos panfletos, pode-se trabalhar a leitura com discussão – estimulando o aluno a ser crítico sobre as propagandas, que chamam a atenção do consumidor a comprar os produtos – e elaborar paródias sobre a descrição do produto; na bula de remédio, deve-se observar as informações, para que serve, posologia; com uma receita de um bolo, pode-se estimular a ler os materiais necessários e como fazer. Essas são algumas atividades que os alunos podem fazer e que estão em seu cotidiano. Segundo Leal e Albuquerque:

[...] o professor, ao estimular o desenvolvimento dos modos de ler a obra literária, além de contribuir para a aprendizagem da literatura, ampliando o acervo textual de cada aluno, seus conhecimentos sobre a história da humanidade, os autores, os estilos, contribui para o desenvolvimento pessoal, das subjetividades, do “ser no mundo”, promovendo, ainda, o desenvolvimento de estratégias de leitura que podem ser usadas em muitas e variadas situações de interpretação textual (2004, p. 94).

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Assim, é fundamental desenvolver o trabalho com a literatura. A leitura de obras, sendo realizada diariamente e estimulada pelo professor, é uma ótima oportunidade de aprofundar a capacidade do conhecimento do leitor. Os educadores costumam recomendar aos alunos a leitura de obras literárias para fazer trabalhos, com finalidade de incentivar o interesse dos educandos pela literatura e o desenvolvimento do senso crítico sobre a obra. Portanto, o importante nessa prática é que os alunos exponham suas opiniões e ideias, contribuindo, assim, para sua aprendizagem, sabendo que o ato de ler é indispensável para práticas sociais.

Ler é estabelecer relações; trata-se de tentativas de retomar os sentidos pretendidos pelo autor em meio à configuração textual. Assim, a leitura não está no texto nem fora dele. Trata-se de um espaço de interlocução entre aquele que escreve e aquele que lê, mediado pela estrutura textual [...]. Ler consiste, portanto, em exercer uma tarefa. Nesse caso, pensamos nas ações, no trabalho de alunos e professores sobre os textos (COSSON et al., 2010, p. 28).

De acordo com o discurso dos autores, é notório perceber que a atividade de leitura deve ser uma prática interativa entre autor e leitor, uma atividade de interação, de questionamentos, de concordâncias e discordâncias. Ainda segundo os autores:

[...] leríamos na escola, espaço de produção cultural, para ocuparmos o lugar de sujeitos, para questionarmos os sentidos colhidos nas configurações textuais e propor-lhes outros sentidos. Nunca para acharmos, diante dos textos partidos, as previsíveis respostas. Leríamos estabelecendo relações com experiências herdadas da vida em sociedade, arriscando alcançar além de nosso conhecimento de mundo (2010, p. 29).

Então, a leitura na escola deve ser uma prática na qual os indivíduos se encontrem enquanto sujeitos participantes do processo educativo, seres capazes de opinar, de refletir, de conhecer o que é certo e errado na sociedade onde estão inseridos, articulando a leitura aos fatos vividos e lembrados de forma coerente com as situações proporcionadas pela leitura.

Ela deve ser ligada à vida social do aluno/indivíduo para que não haja distinções entre teoria e prática, e sim uma completude entre as mesmas e, assim, ocorra experiências de leitura, nas quais o leitor possa guardar e perceber a importância dela para sua vida social.

Ao longo da vida, as experiências de leitura de uma pessoa serão diferentes, dentre outros fatores por que seu conhecimento de mundo terá mudado. Portanto, a releitura de um texto metafórico ou simbólico ou irônico poderá suscitar diferentes percepções e interpretações em momentos distintos (COSSON et al., 2010, p. 37).

Durante a vida social, o aluno se depara com diferentes situações comunicativas que requerem dele uma habilidade com a leitura, compreensão e interpretação, para que haja entendimento daquilo que está exposto de forma escrita. A interpretação depende da maneira de ler e do conhecimento de cada leitor, o qual deve estar atento aos elementos linguísticos presentes no enunciado, aplicando-lhe seu conhecimento de mundo ou outros conhecimentos, para que tudo seja esclarecido no ato da leitura, principalmente dos textos literários que são formados por muitos elementos metafóricos e com várias possibilidades interpretativas, caso o aluno/leitor não tenha prática com esse tipo de texto. Por isso que a leitura na escola deve ser uma atividade que capacite os alunos a lerem com facilidade qualquer tipo de texto.

A atividade de leitura desenvolvida na escola deve ter objetivos claros em cada etapa: não é possível, ao leitor iniciante, perceber de uma só vez todas as sutilezas de um texto — ambiguidades, ironia, lirismo, estratégias de persuasão, referências de sua estrutura, da linguagem utilizada ou construída, relações entre o texto e as imagens que compõem seu projeto gráfico, etc. (COSSON, 2010, p. 37-38).

leitura_a_selecao_img_4Sendo assim, a leitura de um texto deve ser realizada mais de uma vez caso seja necessário, para que se possa interpretá-lo e entendê-lo de forma clara e sem deixar dúvidas na sua compreensão; deve ser realizada de acordo com a capacidade de cada leitor, podendo relacionar o texto à imagem, e, então, haverá uma experiência prazerosa da leitura, pois será entendida pelo leitor.

A leitura é um processo de interlocução entre leitor/autor mediado pelo texto. Encontro com o autor, ausente, que se dá pela sua palavra escrita. Como o leitor, nesse processo, não é passivo, mas agente que busca significações, “[...] o sentido de um texto não é jamais interrompido, já que ele se produz nas situações dialógicas ilimitadas que constituem suas leituras possíveis” (AUTHIER-REVUZ apud GERALDI, 2004, p. 91).

É possível perceber que o texto por si só não é suficiente para o processo de leitura, pois o leitor do texto o reconstrói para produzir suas significações, através da compreensão, interpretação, sua imaginação e sua necessidade comunicativa. Mas não de “adivinhações”, como nos diz Lajolo apud Geraldi: “Ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações, o sentido de um texto” (2004, p. 91). Ler é entender de modo significativo a mensagem do texto, é conhecer, é saber, é compreender e interpretar. E, para que haja essas habilidades/competências, é necessário que esse aluno/leitor seja maduro, maturidade atingida a partir das leituras possíveis:

É por isso que se pode falar em leituras possíveis, e é por isso também que se pode falar em leitor maduro e “[...] a maturidade de que se fala aqui não é aquela garantida constitucionalmente aos maiores de idade. É a maturidade de leitor, construída ao longo da intimidade com muitos e muitos textos. Leitor maduro é aquele para quem cada nova leitura desloca e altera o significado de tudo o que ele já leu, tornando mais profunda sua compreensão dos livros, das gentes e da vida” (LAJOLO apud GERALDI, 2004, p. 91-92).

Com as práticas constantes de leitura, o aluno/leitor consegue produzir suas conclusões a partir dos textos lidos, pois é um leitor proficiente, distinguindo o tipo do texto, a função social, seus significados, o tema e os objetivos que quer transmitir; é um leitor consciente do que lê e para que lê. Articula o que fora lido para compreender e interpretar a sua realidade cotidiana, dialogando sempre com o texto para extrair dele informações. Nessa temática, Geraldi propõe soluções didáticas e metodológicas para a inserção do texto em sala de aula numa reunião de artigos no livro O texto na sala de aula:

[...] uma “leitura que busca informação” não precisa ser necessariamente aquela que se faz com textos de jornais, livros científicos, etc. Também com o chamado texto literário essa forma de interlocução é possível. Pense-se, por exemplo, na leitura de romances para extrair deles informação a propósito do ambiente da época, da forma como as pessoas, por intermédio dos personagens, encaravam a vida, etc. (2004, p. 94).

As informações são encontradas nos diversos suportes e gêneros textuais, textos literários e não literários em diversas formas de estrutura; são informações que ajudam o leitor a entender o mundo à sua volta, são desejos e sensações novas, a partir de uma leitura que ultrapasse a decodificação e que chegue ao significado do texto. De acordo com Orlandi apud Rossi:

[...] ler é fazer implicitamente perguntas ao texto. Mesmo quando não nos damos conta de que estamos interpretando um texto, estamos lhe perguntando algo. Compreender um texto é ter as perguntas respondidas por ele. Fazemos perguntas, sempre, mesmo que inconsistentemente. Fazemos para significar o mundo, pois o ser humano tem necessidade de interpretar tudo, desde a mais tenra idade. “Ler é produzir sentido.” E, complementando esse pensamento, pode-se dizer que “não há sentido sem interpretação” (2009, p. 18).

Pode-se dizer, então, que a leitura é uma atividade decorrente de interpretações e troca de informações, uma verdadeira fusão de horizontes. E, se o texto apresentado responder às nossas interrogações, podemos dizer que o texto foi lido e que foi alcançado o sentido pretendido. Tais interrogações dependem das condições socioculturais que aplicamos de acordo com as nossas experiências e que são individuais, ou seja, de cada leitor.

As perguntas que emergem são sempre as oportunas, para cada pessoa, em cada momento da vida, pois a compreensão é diferente do conhecimento da verdade, pois esta é uma coisa que está certa ou errada; é sim ou não. Mas interpretar é significar. E o significado surge a partir do mundo do leitor, pois não existe interpretação desconectada do mundo em que vive (ROSSI, 2009, p.19).

Não podemos, então, negar que compreender é diferente de interpretar, pois, enquanto o primeiro está dito no texto, ou seja, é aquilo que está escrito, o segundo vai mais além, precisando de significações, de leitores mais competentes, que possuam um hábito de leitura, que apliquem seus conhecimentos adquiridos durante a sua vida para entender o texto em sua totalidade.

O professor como mediador nas práticas de leitura

A prática constante de leitura é fundamental na atualidade, e o docente como formador de ideias torna-se indispensável. Então, é necessário estar informado de tudo que acontece para motivar e incentivar os discentes a ler no cotidiano para conhecer as novidades. O professor deve ser um exemplo de um bom leitor para que o aluno/leitor possa enxergar na leitura uma atividade de descoberta.

A mediação do professor é fundamental, portanto, para formar o leitor proficiente. Isso significa que, para o leitor ainda em formação, é preciso que os objetivos de leitura sejam estabelecidos pelo professor, o que implica, em primeiro lugar, a escolha adequada dos textos a serem lidos em sala de aula. Se essa escolha não é feita pelo livro didático, mas pelos professores, este passa a ocupar então o papel principal na mediação entre o leitor e o texto (DEPIETRI, 2009 p. 53).

Sendo assim, o professor é um elemento de grande importância para a aprendizagem de leitura dos alunos, pois “[...] aprendemos a ler fluentemente nas relações estabelecidas em sociedade e nas trocas e aprendizagens promovidas na escola” (MARTINS e SILVA, 2010, p. 23). Ou seja, a escola é um espaço onde as práticas de leitura devem acontecer, devem existir e devem fazer sentido para os educandos, porque elas acontecem de formas diversas de acordo com as condições sociais e econômicas de cada leitor.

As primeiras experiências de leitura ocorrem no ambiente escolar, mediadas pelo livro didático, pela metodologia de leitura desenvolvida pelo professor/a, baseada na leitura em voz alta, nas perguntas e nas respostas relacionadas à interpretação dos textos (MARTINS e SILVA, 2010, p. 26).

Sabemos que a escola e o professor são indispensáveis no processo de leitura e escrita dos alunos, embora alguns aprendam a ler em outros contextos; mas, afinal, a escola reserva o papel de promover tais práticas de acordo com as metodologias aplicadas e selecionadas pelos profissionais da educação. O mais importante é propor atividades de leitura na escola em consonância com aquelas que são desenvolvidas na vida social, de modo a torná-las mais significativas para o alunado. Ainda em Martins e Silva:

A vida em sociedade requer inúmeras e visíveis ações dos sujeitos leitores: ler para nos informarmos das notícias diárias, para exercermos atividades rotineiras, como tomarmos um ônibus, escolher direções na cidade; também para entretenimento, como acompanhar a charge do jornal diário, os quadrinhos ou as colunas sociais e notícias, que, com frequência, utilizam a piada, a ironia, de modo a colocar pelo avesso a realidade circundante (2010, p. 29).

Então, não podemos estar distantes dessa prática, pois faz parte da nossa vivência, do nosso dia a dia e requer leitores atentos às situações sociocomunicativas. Por mais moderno que o mundo à nossa volta possa se tornar, a leitura é fundamental, e a escolha do que leremos depende da necessidade de cada leitor, porque as possibilidades são inúmeras, a diversidade de suportes e gêneros é imensa e o professor faz parte do processo.

O papel do professor e de outros mediadores da leitura é fundamental desde o momento da seleção dos textos e materiais de leitura em diferentes suportes (livros, revistas, jornais, recortes, cartas, e-mails, blogs, cartazes, panfletos, bulas, etc.) e numa diversidade de gêneros (literários, jornalísticos, científicos, publicitários, epistolares, etc.). Qualquer que seja o nível da turma com que se trabalhe, o planejamento da leitura e, dentro dele, a organização do tempo pedagógico para as atividades de leitura são peças-chave para o bom resultado do trabalho do professor (MARTINS e SILVA, 2010, p. 33).

O professor possui papel importante nos processos de ensino-aprendizagem dos educandos, é ele o responsável pelas atividades de leitura que serão realizadas durante o ano letivo, que organizará e avaliará todo o processo do aluno na sala de aula, observando o que este apreendeu, quais as dificuldades e quais as facilidades nas práticas de leituras.

Além de decidir sobre o que ler e para quê, o professor também imprime maior qualidade ao seu trabalho quando se dedica a pensar em como ler para seus alunos ou com eles. Afinal, sabe-se que as primeiras experiências de leitura da criança são marcantes não só pela compreensão dos significados do texto, mas também pelos modos de ler, pela entonação de voz do leitor, pela relação afetiva com o leitor-mediador e com o ambiente em que a leitura se desenvolve (MARTINS e SILVA, 2010 p. 33-34).

Percebemos, então, que o professor é indispensável como modelo de leitor, um leitor proficiente, que seleciona os textos de acordo com as necessidades comunicativas, de acordo com os alunos, com as realidades sociais dos indivíduos relacionados ao contexto da sala de aula. O professor é peça-chave para auxiliar o aluno na compreensão e interpretação do texto; ele é mediador do conhecimento entre o aluno e o desconhecido, o novo e as descobertas dos diferentes tipos de texto.

O leitor, à medida que se desenvolve, pode escolher textos a partir de seus interesses: ou artísticos, como a música, a pintura, a literatura, a escultura, ou escolher textos por outros interesses, como o de disciplinar a sociedade, o de manter a saúde, o de transmitir conhecimentos científicos. Mas, para o leitor que acredita na criação, na fantasia, a escolha recairá em aspectos como a apreciação, a admiração, a comoção diante de algo que lhe pareça muito bonito, diferente e instigante (OLIVEIRA, 2010, p. 43).

A seleção do que vai ler é muito importante para qualquer leitor, pois é de acordo com sua escolha que a atividade de leitura começa a fazer sentido, a partir do interesse daquilo que está escrito, que está nas entrelinhas do texto. A diversidade de textos é imensa e cabe ao leitor selecionar aqueles que são fundamentais para sua vida social, crítica e moral, e o professor deve proporcionar o entendimento dessas questões nas práticas de leitura.

Em suas mediações, o professor pode usar estratégias para deixar brotar a sensibilidade dos leitores. A dramatização é uma dessas estratégias, pois propicia a exposição de um tema que os impactou, pelo inusitado de seu enredo ou pelo drama existencial que afeta qualquer ser humano (OLIVEIRA, 2010, p. 46).

O professor é o indivíduo que vai levar possibilidades concretas de leitura para seu aluno, fazendo com que ele sinta a realidade de uma maneira diferente, e são as atividades levadas por ele para a escola que farão os alunos terem mais interesse. Uma boa prática é a roda de leitura, que proporciona uma leitura diversificada, compartilhada com os alunos e que é um instrumento mediador na formação de leitores.

Favorecer o desenvolvimento do gosto pelas histórias, poesias, entre tantos gêneros literários, implica a determinação do professor em promover momentos apropriados ao ato de contar ou ler histórias. Assim, nada de propor conhecimentos utilitários, que sirvam para isto ou para aquilo; o que importa é o desenvolvimento de uma oralidade expressiva e a experiência com a leitura (OLIVEIRA, 2010, p. 47).

O momento de leitura deve ser uma situação que provoque nos alunos a vontade de usufruir das mensagens dos textos, e a criatividade do professor é fundamental, com o uso de fantoches, peças teatrais, entre outras formas concretas de cativar o aluno para o espetáculo da leitura. Para atividades práticas, é importantíssimo que o professor se movimente, leia em voz alta, conte histórias, dramatize, recite poesias quando necessário, com entusiasmo, para que haja efetivamente motivação e entendimento da leitura.

Para que o trabalho de mediação do professor seja eficaz, será necessário que ele leia com atenção como um leitor comum, deixando-se levar espontaneamente pelo texto, sem a priori pensar em sua utilização na sala de aula. Somente após ter lido o texto e sentido o que ele pode oferecer é que o professor poderá planejar sua atuação no momento da atividade de leitura (OLIVEIRA, 2010, p. 48).

O professor deve, de início, estar entusiasmado com o texto que irá ler para seus alunos; caso isso não ocorra, deve ir em busca de outro, porque um texto que não seja interessante, que não fará diferença, não trará nada de novo, deve ser descartado. O professor deve ser um entusiasta da leitura, transferindo o entusiasmo aos alunos e, assim, possibilitar que eles sejam seduzidos pela leitura, pela curiosidade, pelo novo do que está sendo dito ou lido.

Como mediador da leitura, o professor é o especialista que precisa conhecer, selecionar e indicar livros para o aluno, mas é preciso que ele próprio seja um usuário assíduo do ato de ler. [...] É necessário que o professor tenha coerência no processo de mediação do desenvolvimento intelectual do aluno que estiver sob sua responsabilidade profissional (OLIVEIRA, 2010, p. 52).

O professor é um leitor de diversos textos, livros, mensagens, não por obrigação, mas para seu próprio enriquecimento como pessoa e como profissional, ampliando seus conhecimentos pedagógicos, compreendendo o mundo com mais facilidades, melhorando a sua prática educacional. Todo professor deve tornar a leitura algo indispensável no seu cotidiano, pois ler é conhecer, é inovar, é criar e recriar informações.

Muitas vezes, na escola, as pessoas querem “obrigar” os estudantes a ler determinados textos que não lhes agradam naquele momento de sua vida. Acreditamos que a oferta de textos para leitura é uma ação que implica paciência e capacidade de lidar com as negativas dos alunos. Podemos oferecer algumas obras que eles não queiram ler naquele momento, mas se sintam motivados a ler em outros (LEAL e ALBUQUERQUE, 2010, p. 91).

Se quisermos constituir leitores proficientes na escola, é importante estimular leituras diversificadas, desenvolver atividades com determinados gêneros, mas sem obrigar os alunos a ler, e sim instigando o seu gosto individual. É preciso ofertar leituras diversas para que possam ter prazer na escolha dos textos que serão lidos. Entretanto, o professor deve estar atento às escolhas dos alunos, porque, muitas vezes, a falta de conhecimento destes leva ao preconceito na escolha de determinados tipos e gêneros textuais.

São várias as possibilidades de inserir na escola atividades de leitura numa concepção mais global de inserção social, formando leitores que não só sintam o desejo de ampliar os saberes e informações proporcionados pela leitura, mas também tenham prazer nela [...] É fundamental que os espaços de leituras sejam multiplicados, constituindo comunidades de leitores na escola e no seu entorno (Idem 2010, p. 103-104).

Para isso, o professor pode estimular a leitura em diferentes espaços da escola e do bairro, envolvendo não apenas os alunos, mas também a comunidade. No entanto, para que haja eficácia, faz-se necessário o professor ter um bom domínio em estratégias didáticas para, assim, proporcionar experiências significativas de leitura aos alunos, construindo coletivamente o gosto pela leitura, percebendo a importância do desempenho do papel como mediador entre o aluno e os diferentes textos, livros, escritores e leituras.

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Considerações Finais

Através da leitura, chegamos à compreensão de que, em cada texto lido, as opiniões são diversas e cada leitor percebe as particularidades de um mesmo texto de maneiras diferentes, pois a forma como a leitura é realizada depende do objetivo que o aluno/leitor precisa para dada situação comunicativa. No entanto, devemos, nós profissionais do ensino, preocuparmo-nos com como ela vem sendo desenvolvida nas escolas; os textos que estão sendo lidos e trabalhados; as técnicas usadas pelos professores que a torne prazerosa, e não mais uma atividade avaliativa, capaz de penalizar o aluno caso ele não atinja o objetivo esperado pelo professor. A leitura, sendo trabalhada corretamente, trará bons resultados à vida dos estudantes, pois ler é conhecer, e deve ser realizada com prazer para que se torne algo comum no dia a dia dos leitores.

Flávio Tomaz Pacheco é Pós-graduado em Práticas Pedagógicas Aplicadas à Língua Portuguesa na Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Graduado em Letras pela Faculdade São Miguel (FSM). Professor da rede estadual na Escola Professora Gercina Fernandes Rodrigues, em Itapissuma, e do Educandário Francisca Sales, em Igarassu.

Endereço eletrônico: flaviopacheco123@hotmail.com

Referências

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