Edição 38

Matérias Especiais

Ler e compreender… eis a questão

Mônica Cavalcanti

Saber ler e escrever, já entre os povos gregos e romanos, era um diferencial de classes sociais. A pessoa que dominava esses conhecimentos ocupava um lugar de destaque na sociedade e tinha condições de efetivamente pertencer a um grupo elitizado da minoria de homens livres; portanto, o objetivo de alfabetizar-se não visava apenas ao desenvolvimento intelectual, mas também ao ingresso mais facilmente à sociedade.

Numa acepção dicionarizada, ler é “percorrer com a vista e interpretar o que está escrito” (Cunha, 1986, p. 471). Nessa visão, a relação leitor–autor não é ponto de relevância, o foco apenas está no leitor, e, geralmente, quando falamos em leitura, vêm à nossa memória pessoas lendo revistas e jornais, porém o mais comum é relacionarmos o ato de ler com os livros. Também é inevitável não lembrar da relação existente entre autor e leitores que buscam constituir sentidos para o texto a partir de suas experiências de mundo, dos conhecimentos prévios e do contexto sócio-histórico a que pertencem. Um dos pensamentos do educador Freire (2002) sobre o processo de leitura é que “A leitura do mundo precede a leitura da palavra…”.

Lemos e compreendemos em três níveis básicos: através do canal sensorial, do emocional e do racional. Durante a leitura, os três canais se inter-relacionam simultaneamente, podendo um ou outro ser privilegiado; isso ocorre a partir da aproximação do leitor ao objeto lido — suas expectativas, necessidades e seus interesses pela leitura — e das condições de produção e contexto geral em que se inserem.

Ainda no tocante aos níveis de leitura, Martins (1994) defende que eles estão distribuídos da seguinte maneira: leitura sensorial (que representa momentos iniciais da relação da criança com o mundo); leitura emocional ou subjetiva (que enfatiza as emoções do leitor misturadas às emoções do autor, situação de empatia); leitura de passatempo (lazer); leitura de evasão (usada como válvula de escape); e leitura racional (que enfoca o intelectualismo e tende a ser unívoca). Vale destacar a leitura instrumental (que fornece subsídios às cantorias da literatura de cordel), sob a perspectiva de Possenti (1999).

A leitura se constitui em um processo amplo e gradativo que proporciona ao indivíduo o uso de suas potencialidades, enriquecendo suas próprias idéias e promovendo experiências intelectuais. Compete à escola e à sociedade incentivarem a prática de leitura como um instrumento de libertação e de aprimoramento humano. Para isso, devem ser usadas estratégias e técnicas educacionais criativas e eficientes que despertem o interesse no estudante, motivando-o a não se limitar a ler somente no universo escolar, mas também fora dele.

As relações entre os povos se estreitaram com a globalização. O mundo passa por profundas transformações, e o foco hoje está centrado em um leitor que não apenas decodifica palavras, mas que passa a exercer uma relação interativa com o autor, refletindo e opinando criticamente sobre a produção textual ofertada.

Será que nossas escolas estão formando novos leitores? Ou ainda: será que nossas escolas estão preparadas para esse novo paradigma? Para responder a essas perguntas, devemos considerar que é necessária uma grande mudança comportamental que tenha como objetivo democratizar o processo de leitura. Sabemos que, durante a vida escolar, a leitura tem sido colocada de forma compulsória e ditatorial, os alunos lêem avidamente na busca de assimilar o maior número de informações possível para realizarem um exame posteriormente, sem se dedicarem a uma reflexão sobre o assunto, e sim a uma rotina mecânica de aprendizagem.

Formar leitores não é tarefa fácil, e essa responsabilidade não poderá ficar restrita à escola. Os pais podem e devem participar dessa construção do novo leitor, incentivando a leitura, tornando-a um momento de integração familiar e de lazer, sentando ao lado dos filhos para contar histórias, encantando e mexendo com o imaginário dos pequenos leitores por meio de recursos como fantoches, dedoches, entre outros que darão vida e movimento aos personagens de maneira que esse momento poderá se tornar uma brincadeira significativa para todos. O processo de leitura deve ser estimulado desde a infância, antes mesmo de a criança ser alfabetizada. O incentivo e o estímulo facilitarão seu aprendizado, permitindo que ela, no futuro, seja uma leitora assídua, atuante e consciente do seu papel na sociedade.

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Referências:

BARZOTTO, Valdir Heitor (org.). Estado de Leitura. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 43. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 19. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. Discurso e leitura. São Paulo: Cortez, 1988.
POSSENTI, Sírio. A leitura errada existe. In BARZOTTO, Valdir Heitor (org.). Estado de leitura. Campinas: Mercado de Letras,

Mônica Cavalcanti é professora com habilitação em Língua Portuguesa/Espanhol, graduada pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduada em Docência do Ensino Superior e Língua Estrangeira (Espanhol). Atua como tutora do ensino a distância da Universidade do Norte do Paraná (Unopar), é professora de língua espanhola para o Ensino Fundamental I e é consultora pedagógica da Editora Construir para a coleção Construindo e Aprendendo (Infantil e Fundamental).

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