Edição 61

Professor Construir

Língua portuguesa: A comunicabilidade da língua através das variedades linguísticas

Ednaldo Gomes da Silva

Na formação de toda ação comunicativa do ser humano, está a linguagem, que é a mera capacidade de se comunicar por meio de uma língua. Esta é um sistema de signos usados por indivíduos de uma mesma comunidade, ou seja, um grupo social torna-o comum (convencional) e faz uso de um conjunto organizado de elementos representativos. A língua não é usada de uma única forma por todos os seus falantes. O emprego dela muda de época para época, de região para região, de classe social para classe social. Nem mesmo individualmente pode-se afirmar que o seu emprego seja uniformizado. Dependendo da situação, uma pessoa pode fazer uso de diferentes concepções e variedades da língua. Esta, na concepção da sociolinguística, é simplesmente heterogênea, múltipla, variável, mutante, instável e está sempre em desconstrução e reconstrução. Ao contrário de um produto pronto e acabado, a língua é um processo, um fazer-se permanente e nunca concluído. É uma atividade social, um trabalho coletivo produzido por todos os seus falantes cada vez que eles interagem por meio da fala ou da escrita.

A língua, “sistema de sons vocais que se processa numa comunidade” (Câmara Jr., 1968, p. 223), é renovação, pois expressa a vida. Se ela para, pode-se dizer que ela está morta, porque a história de uma língua é a história de um povo. Nenhuma língua permanece uniforme em todo o seu domínio e, ainda num só local, apresenta um sem-número de diferenciações de maior ou menor amplitude. Porém, essas variedades não prejudicam a unidade da língua ou a consciência daqueles que a utilizam como instrumento de comunicação ou emoção.

De acordo com Travaglia (1996), “um signo linguístico é um elemento representativo que apresenta dois aspectos: um significante e um significado, unidos num todo indissolúvel”. Quando ouvimos uma palavra, logo reconhecemos os sons que a formam; esses sons se identificam com a lembrança, formando uma verdadeira imagem sonora armazenada no cérebro (é o significante que está atrelado à palavra). Logo pensamos numa descrição física que é particular a cada uma delas. Por exemplo: sabemos que uma árvore é diferente de um sofá por causa de suas características; este é o significado.

Bagno (2002) afirma que “a língua é um patrimônio social”, portanto os signos e as formas de combiná–los são conhecidos e acatados pelos membros da comunidade que a emprega. Individualmente, cada pessoa pode utilizar a língua de seu grupo social de maneira particular, personalizada, desenvolvendo assim a fala, que deve estar contida num conjunto social mais amplo, que é a língua portuguesa; caso contrário, estará deixando de empregar a sua língua e não será compreendida pelos membros da sua comunidade.

Cunha (1998) diz, a respeito das variações da língua, “que, nessa dimensão, incluem-se as diferenças linguísticas observadas entre pessoas de regiões distintas que falam a mesma língua”. Exemplo claro dessa variação são as contradições encontradas entre as regiões do Brasil (Região Sul, com os falares gaúcho e catarinense; e a Região Nordeste, com os falares baiano e pernambucano).

No uso de uma língua, será permissível sempre uma variação. Dependendo da situação, uma pessoa pode usar diferentes variedades de uma só forma da língua. A língua portuguesa não se apresenta de maneira uniforme em todo o território brasileiro.

A língua, em nenhuma circunstância, pode permanecer a mesma, ou seja, ela sempre está apta a variações, pois apresenta suas diferenciações; e essas variedades são de ordem geográfica, de ordem social e individual, pois procura-se utilizar o sistema linguístico de forma que melhor sejam exprimidos o gosto e o pensamento. Elas não prejudicam a unidade superior da língua nem a consciência que têm os que a falam.

É importante observar que o processo de variação ocorre em todos os níveis de funcionamento da linguagem, sendo mais perceptível na pronúncia e no vocabulário. Esse fenômeno se torna mais complexo porque os níveis não se apresentam de forma linear:

Nível fonológico: por exemplo, o L no final de uma sílaba é pronunciado como consoante pelos gaúchos, enquanto que, em quase todo o restante do Brasil, é vocalizado, ou seja, pronunciado como um U.

Nível morfossintático: muitas vezes, por analogia, algumas pessoas conjugam verbos irregulares como se fossem regulares: “manteu”, em vez de “manteve”; “ansio”, em vez de “anseio”. Certos segmentos sociais não realizam a concordância entre o sujeito e o verbo, e isso ocorre com mais frequência se o sujeito estiver posposto ao verbo. Há ainda variedade em termos de regência: “eu lhe vi”, em vez de “eu te vi”.

Nível vocabular: algumas palavras são empregadas em sentido específico de acordo com a localidade. Assim, uma mesma palavra ou expressão, como os ditos populares, podem conter significados diferentes de acordo com a região.

Partindo da perspectiva dos níveis de variação, pode–se perceber que os desvios acima citados se dão em função do desconhecimento das regras e também com certo objetivo de sintetizar algumas expressões, tornando-as mais simples e comunicativas.

Existem tantas variedades linguísticas quanto grupos sociais que compõem uma comunidade de fala. Essa variação pode acontecer de formas diferentes, até mesmo dentro de um único grupo social. Porém, ela não é aleatória, fortuita ou caótica, pelo contrário: apresenta-se organizada e condicionada por diferentes fatores. Essa heterogeneidade ordenada tem a ver com a característica própria da língua: o fato de ela ser altamente estruturada e, sobretudo, um sistema que possibilita a expressão de um mesmo conteúdo informacional por meio de regras diversas, todas igualmente lógicas e com coerência funcional. É um sistema que proporciona aos falantes todos os elementos necessários para a sua plena interação sociocultural.

A variação de uma língua que um indivíduo usa acaba sendo determinada por todo um conjunto de fatores. O falante aprende tanto a sua língua materna como uma outra língua particular, que é a variedade da língua de sua comunidade linguística. Essa variedade pode ser diferente em algum ou em todos os níveis de outras variedades da mesma língua, aprendidas por outro falante dessa mesma língua. Identificada segundo essa dimensão, essa variedade chama-se dialeto. Nenhuma língua, na sua dimensão linguística, permanece estática. Ela apresenta variedades geográficas, sociais e individuais e históricas, já que o falante procura utilizar o sistema idiomático da forma que melhor estabeleça uma comunicação. Com essas diferenciações, não há prejuízo na unidade da língua, o que existe é a comunicação situacional. Na comunicação, existe algo comum para o emissor e o receptor que lhes facilita a compreensão. Esse elemento é a norma linguística, que ambos os interlocutores adquirem da comunidade. A norma é instável, pois está presa à estrutura político-social e pode mudar no curso do tempo se o indivíduo mudar de grupo social. A fala é a imagem de uma norma e varia de usuário para usuário.

É preciso entender que as diversas variedades linguísticas coexistem no tempo e no espaço, sendo utilizadas numa mesma época e numa mesma região. Todas as variedades linguísticas são consideradas corretas desde que cumpram com eficiência o papel fundamental da língua, que é permitir a interação verbal entre as pessoas do discurso.

A linguagem, em suas nuances de comunicação, concretiza-se por ser uma atividade de interação social, por meio da manifestação das habilidades comunicativas, que se definem pela capacidade de manter o interacionismo social com a produção e o entendimento de textos que funcionam comunicativamente. Essa linguagem possibilita ao homem representar a realidade física e social e, desde o momento em que é aprendida, conserva um vínculo muito estreito com o pensamento. Possibilita não só a representação e regulação do pensamento e da ação, próprios e alheios, mas também a comunicação de ideias, pensamentos e intenções de diversas naturezas. Desse modo, influencia o outro e estabelece relações interpessoais, anteriormente inexistentes. Essas diversas dimensões da linguagem não se excluem. Não é possível dizer algo a alguém sem ter o que dizer. E ter o que dizer, por sua vez, só é possível a partir das representações construídas sobre o mundo.

A comunicação com o outro permite, consequentemente, a construção de novas vivências, de compreensão do mundo e de novas representações sobre ele. Mas, se um dos interlocutores ouve a fala do outro e não a compreende substancialmente, isto é, não percebe suas “intenções”, o ato comunicativo não se dá de forma plena. Para uma pessoa se comunicar por meio da língua, além de conhecer seu vocabulário e suas leis combinatórias, ela necessita perceber a situação em que se dá a comunicação, isto é, ter consciência do seu “contexto”. Esse contexto é parte da representação mental que engloba um conjunto de informações e de conhecimentos. Nessa perspectiva, fica claro que, quando o indivíduo estabelece contato com outras pessoas, percebe que nem todos falam como ele. Há pessoas que se expressam de maneira diferente por serem de famílias diferentes, de outras cidades, de outras regiões do País. Essa situação de nossa língua é denominada de variação linguística, que apresenta mutação em função de vários fatores, tais como: condições sociais, culturais e regionais dos indivíduos que a compõem.

Todas as variedades linguísticas são eficazes na comunicação verbal e possuem valor nas comunidades em que são faladas. Por isso, não existe um jeito certo de falar nem um dialeto superior a outro. Quando se fala do exemplar correto, fala-se de uma forma eleita entre as várias formas de falar que constituem a língua histórica, razão por que o eleito não é nem correto nem incorreto.

Referências bibliográficas

BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: O que É e Como se Faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

BECHARA, Evanildo. Ensino da Gramática: Opressão? Liberdade? São Paulo: Ática, 1991.

CÂMARA JR., J. Mattoso. Manual de Expressão Oral e Escrita. Petrópolis: Vozes, 2001.

COSERIU, E. Teoria da Linguagem e Linguística Geral. 2 ed. Rio de Janeiro: Presença, 2002.

FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. São Paulo: Ática, 1988.

Ednaldo Gomes da Silva é professor de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental do Sistema Educacional Radar, em Vitória de Santo Antão; professor da graduação na Faculdade Escritor Osman Lins (Facol); professor da pós-graduação na Faculdade de Tecnologia de Pernambuco (Fatec) e professor tutor da Universidade Federal Rural
de Pernambuco (UFRPE) e da Universidade
Aberta do Brasil.

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