Edição 15

É dia...

Literatura Infantil, um gênero ardente

Jonas Ribeiro

Ser literariamente ardente implica acender as fogueiras lexicais para acolher o leitor; significa uma tentativa de afastar o frio e fazer aflorar, de cada vocábulo, as suas chamas intrínsecas. E isso nos leva a concluir que um texto infantil também pode ser ardente e iluminar os caminhos da curiosidade. Que a literatura infantil nada tem de ingênua ou simplória; pelo contrário, ela também nutre as mesmas ambições que uma literatura para adultos costuma nutrir.

Afunilando todas as teorias academicistas que definem as relações entre a literatura e seus viajantes, podemos afirmar que a literatura resulta da alquimia (da combinação perfeita) de duas quintessências: a força simbólica, imprecisa e enigmática das palavras (sejam elas orais ou escritas) e o instinto criativo dos homens.
Exatamente, precisamos brincar com as palavras para alargar os nossos mundos interiores e, dessa forma lírica, ampliar os sentidos de nossa existência.

E, vamos e venhamos, esse sentido existencial vaza de todo texto infantil de qualidade, vaza e penetra nos poros neuronais do leitor, vaza com o nosso consentimento, a fim de irrigar dúvidas e recantos secretos da mente, de nosso solo psíquico.

Devemos, portanto, ter, para nós, a certeza de que um texto infantil de qualidade pede intensidade e despreza amenidades. Que a literatura infantil, como todos os outros ramos da arte, quer voar, realizar-se plenamente, tocar a pele do impossível e beijar os lábios umedecidos do milagre maior. Sim, o milagre de reconduzir o leitor a si próprio, aos seus desejos mais viscerais, autênticos e espontâneos.

Houve uma época em que a literatura infantil era taxada como gênero menor. Felizmente, hoje já se sabe que escrever poucas páginas ou poucas linhas é muito mais difícil do que escrever capítulos e capítulos, do que ser prolixo e ficar “enchendo lingüiça” literariamente.

Atualmente, estamos numa época em que o texto literário zomba de si próprio e não tem mais a pretensão de equilibrar e sustentar a seriedade histórica de seus autores. O texto literário agora só quer ser ele mesmo, texto e nada mais. E para nós entendermos o gênio indomável da literatura contemporânea, temos de relevar as suas crises de identidade, os seus apegos conceituais, os seus tantos recalques, as suas rebeldias e cicatrizes. Rumos, muitos rumos, um sem-fim de remos querendo alterar os tantos rumos embrenhados pela literatura.
Grilos e mais besouros.

Ou mudamos o nosso trato com a literatura infantil ou deixamos os leitores infantis sem as ambigüidades e as sutilezas da língua. Se as crianças não sentirem essa graça ardente da literatura, elas certamente procurarão esse ardor e esses estímulos imaginários em outros mundos, ou seja, fora dos livros.

Depende de nós, de nosso tato, de nosso poder de sedução.
E, para encerrar, quero reproduzir as palavras com que iniciei o livro Colcha de leituras (Editora Elementar).

“Quem lê fica mais sexy.

Quem lê exibe nos olhos páginas de brilho e uma discreta crença nos milagres, na força do encantamento.

Quem lê puxa o charme e a sardinha para si, realmente enche os olhos com intermináveis adesivos de novidades e tem sempre um sorriso inusitado para abrir. Adquire autoconfiança e recupera a vivacidade, o lirismo, o mistério. A realidade interna de quem lê não tem limites, e o próprio ato de ler alarga a espiritualidade, propicia felicidade e coloca as respostas e soluções de que o leitor precisa a seus pés.”

Só sei que, enquanto estivermos segurando as pesadas malas da seriedade intelectual, nós jamais conseguiremos ser leitores livres e oferecer a leitura como um ato de liberdade.
Larguemos, então, as malas pesadas da seriedade.

Brinquemos com a leveza, com as palavras fora do aprendizado.
Nada de sistematizar ou avaliar.

Deixemos os livros transbordarem o nosso coração de inventividade.

Deixemos a Literatura Infantil ser ardente e independente.

E parodiando o Zeca Pagodinho:

Deixa o livro me levar.
Livro, leva eu…

 

Jonas Ribeiro é escritor e contador de histórias

cubos