Edição 66

O livro da vez

Livro que faz chorar

Rubem Alves

livro_da_vezUma livreira me contou. Um pai foi à sua livraria e comprou o livro O Patinho Que Não Aprendeu a Voar para seu filho. No dia seguinte, voltou muito bravo. “Meu filho chorou ao final do livro. Ainda chora quando se lembra do patinho que não aprendeu a voar. Isso é livro que se dê a uma criança?”

Eu compreendo. Ele quer que seu filho só tenha alegrias. Ele quer que os livros que seu filho leia sejam engraçados e o façam rir. As crianças não deveriam ler livros que fazem chorar.

Mas tristeza não é coisa ruim. A poesia brota da tristeza. Escrevi muitas histórias alegres e que fize-ram rir. Mas as que mais amo são aquelas que fazem chorar.

Por que é que o menininho chorou? Porque sentiu aquilo que minha neta sentiu. Vocês se lembram do que ela falou, em meio às lágrimas: “Vovô, eu não consigo ver uma pessoa sofrendo sem sofrer. Quando vejo uma pessoa sofrendo, o meu coração fica junto ao coração dela…”. Ela e o menininho sentiram compaixão. Seu coração ficou junto ao coração de alguém ou de algum bichinho que estava sofrendo. Sofreu um sofrimento que não era seu.

Tenho estado a me perguntar: “Como ensinar a compaixão?”. De que vale conhecimento sem compaixão? Somente o conhecimento com compaixão cria a bondade. E uma sociedade em que não existe a bondade não é digna de que vivamos nela. Como a nossa, em que a bondade foi espremida nos cantos e as ruas se encheram de medo.

Gandhi contava que uma leitura na adolescência o comoveu tanto que o acompanhou pelo resto da vida. A experiência que mudou o seu coração foi a leitura de um livro. Ele era ainda um adolescente. O livro o comoveu tanto que ele queria ser como o herói, nobre e generoso. Esse sentimento o acompanhou pelo resto da vida. Seu coração ficou junto ao coração do herói. E não importava que o herói nunca tivesse existido, que fosse apenas uma ficção literária. Pois é isso que a literatura faz: se desprega da vida real para dar-lhe um sentido.

Livros engraçados são bons. O riso tem a função de mostrar que o rei está nu. Mas não conheço nenhum caso de uma pessoa que tenha sido transformada por um livro engraçado. O riso provoca crítica, mas não provoca compaixão.

Pensei então que esta poderia ser uma das maneiras de ensinar compaixão: ler para o aluno ouvir. Mas, para que as histórias façam os seus milagres, é preciso que o ouvinte seja possuído pelas palavras e levado ao sabor da voz de quem lê a história.

Fiquei então pensando que seria melhor que gastássemos menos tempo com gramática e análise sintática e mais tempo com a leitura. É na leitura que se aprende a língua. Leitura sem testes de compreensão, sem interpretações, o que é que o autor queria dizer, etc. Pura emoção. Um texto não interpretado permanece vivo para sempre, porque permanece como um enigma que nos comove todas as vezes que o lemos. Mas um texto interpretado é um texto esgotado do seu mistério, esquartejado sobre a mesa de anatomia da linguagem.

Eu gostaria de conversar com o pai do menino que chorou ao ler O Patinho Que Não Aprendeu a Voar. O menino entendeu. Sentiu compaixão. Mas o pai não entendeu. Não chorou. Ou, quem sabe, ele ficou bravo não pelo choro do seu filho, mas por ter, ele mesmo, sentido vontade de chorar — mas não chorou, por vergonha…

Revista Educação. Ano 9, n. 103. São Paulo: Segmento, novembro, 2005.

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