Edição 105

Nós e a escola: Agonias e Alegrias

Loucos por gente

Mario Sergio Cortella

Nós, professores, temos um grande vício: somos apaixonados. E todo apaixonado é meio insano, faz alguma coisa que nem sempre deveria, se dedica mais do que pode, às vezes se esquece de si mesmo. Ou então não se lembra de que nós exercemos uma profissão, que precisamos receber nosso salário de forma adequada, que temos de lutar na estrutura sindical e organizar nossas reinvindicações no público e no privado. Às vezes, até disso nós nos esquecemos. Não deveríamos, mas esquecemos, porque somos apaixonados.

Todo professor íntegro leciona por paixão. Paixão pelo quê? Por ganhar pouco, correr o dia inteiro, ficar para lá e para cá? Não, claro que não. Temos paixão por aquela ideia de que gente foi feita para ser feliz. Como diria Shakespeare, “Vida é uma coisa cheia de som e fúria”. Nós somos furiosos, brigamos muito.

Imagine uma reunião de professores no final do ano. Um colega quase pula no pescoço do outro por causa de um aluno. Nós fazemos barulho e somos tão ruidosos porque somos apaixonados. Aliás, professor adora se encontrar, adora reunião — se for paga, então, gosta mais ainda. Reunião de professor dura, mais ou menos, uma hora e meia, sempre dividida da seguinte maneira: na primeira meia hora, ficamos às vezes falando mal de quem não veio, dizendo “Nós estamos aqui, é um absurdo”; na segunda meia hora, ficamos falando bem de quem veio, “Mas nós viemos, nós vamos levar isso à luta porque isso é importante”; e, na terceira meia hora, buscamos horário para marcar outra reunião. E acontece tudo de novo…

Professor adora o período de férias, quando os alunos desaparecem da escola. Ele aguenta um dia, dois, de repente começa a sentir falta. A escola fica triste e em silêncio, não tem aquele barulho. Tem professor que fica louco para as aulas começarem, e, quando elas começam, depois de uma semana, ele não aguenta mais, quer que tudo pare. É mais ou menos como a mãe que diz para os filhos: “Eu não aguento vocês; eu vou me matar; um dia, eu vou sumir, e vocês vão ver”. Nós também falamos demais.

Mas temos uma coisa inacreditável, que é uma amorosidade muito grande. Só isso explica por que uma pessoa dá aula por 20, 30 anos, se aposenta e depois volta a lecionar. Por que tem professor que não aguenta ficar fora de uma sala de aula? Ora, não tem gente que é louca por pizza? Então, também existe quem seja louco por gente. Que, em vez de cuidar só da própria vida, resolve ajudar outras vidas também.

Essa característica não é exclusiva dos professores, claro. Isso tem a ver com a amorosidade, que, por sua vez, tem a ver com amor, que é uma palavra que anda meio ausente na Educação e não deveria. Quem ama não desiste. Quando começamos a desistir um pouco da nossa atividade, dos nossos alunos, começamos a perder um pouco o gosto. Se você está deixando de amar, aí é melhor deixar, porque Educação pressupõe uma capacidade amorosa imensa, não é inesgotável, porque nada o é, mas ela deve ser imensa. E, por ser amorosa, essa atividade precisa de condições de trabalho, de estrutura salarial, de organização pedagógica, de jornadas adequadas… senão não dá para exercer essa amorosidade de forma concreta.

Lembrar sempre: insistir, repartir e não desistir.

CORTELLA, Mario Sergio. Nós e a Escola: Agonias e Alegrias, p. 20-22, Petrópolis: Vozes, 2018.

“Mas temos uma coisa inacreditável, que é uma amorosidade muito grande. Só isso explica por que uma pessoa dá aula por 20, 30 anos, se aposenta e depois volta a lecionar.”

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