Edição 68

Como mãe, como educadora, como cidadã

Mãe, o ladrão chegou

Zeneide Silva

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Escutava quase que diariamente a voz de meus filhos dizendo: “Mãe, o ladrão chegou”. Muitas vezes reclamava: “Não chamem ele assim, chamem pelo seu nome”. “E qual é o nome dele?”, perguntavam os meninos. Eu dizia: “João. João Grandão”. Mas, para eles e muitas outras pessoas, ele era o ladrão.

João Grandão era um rapaz que saiu ainda muito cedo de casa, envolveu-se com drogas e passou a roubar. Foi detido muitas vezes e, inclusive, teve passagem pelo presídio, quando o acusaram de ter roubado a imagem de uma santa em uma igreja em Olinda–PE. Passou quase cinco meses desaparecido. Eu achava que o haviam matado, quando um dia escutei a voz dos meninos dizendo: “Mãe, o ladrão chegou”. Corri para ver, e era realmente João Grandão. Chegou sereno e com o papel de sua liberação. Fiquei muito feliz ao vê-lo. Ele contou-me o que havia acontecido e afirmou com muita segurança que não tinha sido ele, dizendo: “Tia, pra tu eu não minto”.

Gostava muito dele. Todas as noites, João ia jantar lá em casa. A hora que passasse, tinha sempre seu jantar no cantinho do muro, junto ao portão, algumas vezes com um dinheirinho. Muitas vezes mandava meus filhos levarem o jantar, e ele fazia careta para os meninos, que saíam correndo, achando graça.

Um dia, João estava drogado, pulou o muro, passou pelo cachorro e levou uma bicicleta lá de casa. No outro dia, perguntei se havia sido ele. Disse que sim e que iria pegar uma outra e traria para os meninos. Falei: “Deixe disso. Não quero que você pegue nada de ninguém e traga para mim”. Ele sorriu e foi embora. No outro dia, mais uma vez: “Mãe, o ladrão chegou”. Desta vez, para recompensar o roubo da bicicleta, trouxe vários instrumentos de uma banda de pagode — surdo, tam-tam, etc. Conversei com ele, mas foi em vão. Outro dia, chegou com uma bolsa dizendo que era de sua mãe e me mostrou uma foto de uma mulher loira, dos olhos azuis e mais jovem do que eu, dizendo que ela se parecia comigo. Agradeci e sorri junto com ele, pois sou morena e não tenho os olhos claros.

Tudo o que ele queria me dar eu sempre recusava e reclamava. Então, ele sempre repetia: “Tá, tia. Eu não vou trazer mais pra cá”, mas sempre trazia. Era constante a nossa conversa.

Um dia, recebi a notícia de sua morte e fiquei muito triste. A presença de João Grandão entre nós me fazia mais humana.

Lembro-me sempre dele e pergunto aos meus filhos se eles também se lembram de João. Eles dizem que sim e sempre recordam das caretas que o rapaz fazia.

Ao ler o Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2013, que tem como lema Eis-me aqui, envia-me (Is 6,8), lembrei-me de João, um jovem que se perdeu no mundo por falta de uma família presente. O desejo de consumo destruiu sua vida. É uma pena que, a cada dia, muitos Joãos Grandãos surjam de maneira assustadora em nossa sociedade.

Devemos, como educadores, cidadãos e cristãos, ser, para os jovens, símbolo de conhecimento e esperança do encontro e da amizade, tentar ajudá-los fazendo companhia, sendo solidários, compreensivos e, principalmente, amando-os, para que eles realmente possam fazer a diferença em nossa sociedade.

Um grande abraço.

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