Edição 15

Lendo e aprendendo

MANUEL BANDEIRA: poeta até o fim

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparenta
Da nora que nunca tive.

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Vou-me embora pra Pasárgada é um dos poemas mais conhecidos da obra de Bandeira. A primeira vez que o poeta viu a palavra Pasárgada foi aos dezesseis anos, num autor grego.

“Sou natural do Recife, mas, na verdade, nasci para a vida consciente em Petrópolis, pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências. Procurei fixá-las no poema Infância.

“Corrida de ciclista.
Só me lembro de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.”

De 19 de abril de 1886, data em que nasceu, até 1892, quando voltou ao Recife, Manuel Bandeira morou com os pais no Rio de Janeiro, em Santos, em São Paulo e, de novo, no Rio.

“O que há de especial nessas reminiscências (e em outras dos anos seguintes, reminiscências do Rio e de São Paulo, até 1892, quando voltei a Pernambuco, onde fiquei até os dez anos) é que, não obstante serem tão vagas, encerram para mim um conteúdo inesgotável de emoção.”

PRIMEIRAS LEITURAS

Em Itinerário de Pasárgada, livro escrito a pedido de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, Bandeira se lembra de que foi no Recife, já com seis anos, que teve o contato inicial com a poesia, através dos contos de fadas, das histórias de carochinha e das cantigas de roda. Estas últimas aparecem no poema Evocação do Recife, em que “a distância, as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa? Craveiro dá-me um botão”. E, com seus oito anos, já olhava interessado para a primeira página do Jornal do Recife, no qual todo dia era publicada uma poesia.

O pai e o tio João Carneiro de Sousa Bandeira parecem ter desempenhado papel importante na formação da sensibilidade do menino. Bandeira mesmo confessa que foi com o pai que se embebeu “dessa idéia de que a poesia está em tudo — tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparates”. E o menino Manuel, ainda no Recife, deixa-se envolver pelos primeiros livros de imagens: João Felpudo, Simplício Olha Pro Ar, Viagem à Roda do Mundo Numa Casquinha de Noz, no qual uma figura de macaco “tirando cocos para os meninos despertou o meu primeiro desejo de evasão”.

Como muitos outros meninos de sua geração, Bandeira lê, no colégio onde era semi-interno, as tristes histórias de seu primeiro livro de leitura, o Cuore, de De Amicis, com tradução de João Ribeiro. “O Coração era o livro de leitura adotado na minha classe. Para mim, porém, não era um livro de estudo. Era a porta de um mundo, não de evasão, como o da Viagem à Roda do Mundo Numa Casquinha de Noz, mas de um sentimento misturado com a intuição terrificante das tristezas e maldades da vida.”

“Recife…
Rua da União…
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade…”

NO RIO, O DIA-A-DIA E A ESCOLA

O menino Bandeira muda-se com a família para o Rio de Janeiro, em 1890. Caseiro, observa o movimento doméstico, as idas-e-vindas do vendeiro, do açougueiro, do padeiro e do quitandeiro, na casa do bairro de Laranjeiras. E, enquanto cala, findo a impressão daquele falar cotidiano (“O seu Alberto está com os pulmões podres.”), contrabalança essa experiência com as aulas no externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, onde é aluno de José Veríssimo e de João Ribeiro, dois nomes importantes para a literatura brasileira do fim do século XIX e começo do século XX. Nesse mesmo tempo, é colega e amigo de dois estudiosos de nossa língua: Antenor Nascentes e Sousa da Silveira. Era vizinho deste último, que exerceu grande influência no gosto de Bandeira pelos poetas clássicos, principalmente pela parte lírica da poesia de Camões.

No Colégio Pedro II, sucedem-se outros amigos e outras leituras, todas ao sabor do acaso, como são as leituras dos adolescentes.

A ARQUITETURA E A POESIA

Influenciado pelo pai, Bandeira não pensava ainda em ser poeta. Queria ser arquiteto. Muito mais tarde, na Lira dos Cinqüent’Anos, vai escrever, no poema Testamento:

“Criou-me desde eu menino/Para arquiteto meu pai./Foi-se-me um dia a saúde…/Fiz-me arquiteto? Não pude!/Sou poeta menor, perdoai!”

Mas é nessa época que escreve seus primeiros versos. O primeiro, um soneto em homenagem ao poeta francês Chateaubriand, recusado para publicação. O redator da revista literária para onde enviara o soneto escreve em resposta: “O seu soneto não está mau. Também não está bom. Enfim, continue!”. Seguindo esse conselho, Bandeira tenta de novo e manda ao jornal Correio da Manhã um outro soneto, este sim, publicado na primeira página do jornal, o que, segundo confessará em Itinerário de Pasárgada, lhe “saciou por completo a fome de glória”.

É quando vai para São Paulo e se matricula na Escola Politécnica. Porém, não fica aí por muito tempo: “No fim do ano letivo adoeci e tive de abandonar os estudos, sem saber que seria para sempre. Sem saber que os versos, que eu fizera em menino por divertimento, principiaria então a fazê-los por necessidade, por fatalidade”.

VIVENDO PROVISORIAMENTE

Pode-se dizer que, já antes de 1904, ano em que adoece, até 1913, quando parte para o sanatório de Cladavel, na Suíça, o poeta vai surgindo pouco a pouco em Bandeira: “Foi nesses treze anos que tomei consciência de minhas limitações, nesses treze anos que formei minha técnica”. No sanatório, Bandeira fica pouco mais de um ano. E ali convive com o poeta francês Paul Éluard e com o poeta húngaro Charles Picker, que, ao contrário dos outros, é vencido pela doença.

O AMADURECIMENTO DO POETA

Em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, volta a morar no Rio. Logo depois, perde sua mãe (1916) e, no ano seguinte, publica seu primeiro livro, A Cinza das Horas, numa tiragem de 200 exemplares, pelos quais o próprio poeta pagou 300 mil-réis. Segundo seu depoimento em Itinerário, ainda nesse tempo, não tinha a intenção de começar carreira literária, “desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteiramente ocioso”. Em 1918, morre a irmã do poeta, que tinha sido sua enfermeira durante muito tempo. No ano de 1919, seu pai custeia a publicação de Carnaval. Mas, logo depois, em 1920, morre o pai de Bandeira, e a partir daí o poeta se instala na solidão de modo definitivo.

Muda-se, então, para a Rua do Curvelo (hoje Rua Doutor Dias Barros).
Na Rua do Curvelo, Bandeira era vizinho do poeta Ribeiro Couto. Passa, então, a freqüentar, às refeições, a pensão da portuguesa dona Sara, onde Couto morava, instalando-se assim uma definitiva amizade.

O MODERNISMO NO CAMINHO

Foi através de Ribeiro Couto, mais novo do que Bandeira, que o poeta entrou em contato com a nova geração paulista e carioca. No Rio, com os novos amigos Ronald de Carvalho, Álvaro Moreira, Di Cavalcanti; em São Paulo, com Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

O contato com Mário ocorre quando este vai ao Rio para ler a sua Paulicéia Desvairada na casa de Olegário Mariano, em 1921. A relação de Bandeira com Mário de Andrade parece ter sido fundamental. No entanto, se houve a influência do segundo sobre o primeiro, essa influência foi menos no sentido de atuar sobre a formação do poeta Bandeira, e mais como interlocutor que auxiliou o pleno desabrochar daquilo que Bandeira tinha de mais pessoal. Bandeira e Mário se correspondiam freqüentemente. Através de Mário, Bandeira colabora na revista modernista Klaxon, em 1922, com o poema Bonheur Lyrique.

No entanto, a participação de Bandeira no Movimento Modernista foi sempre um pouco a distância, já que ele não se sentia tão à vontade para, de repente, passar a atacar, com os jovens modernistas, os parnasianos e simbolistas que sempre prezara e que tanto o influenciaram. Por isso, pela ausência de uma ligação mais direta, Bandeira não quis vir a São Paulo participar da Semana de Arte Moderna, em 1922. Mas foi através dos modernistas que entrou em contato com a arte de vanguarda européia.

Em 1924, publica Ritmo Absoluto e, em 1930, Libertinagem. A partir de 1925, suas atividades se multiplicam; viaja para o norte e escreve crônicas para o Diário Nacional, de São Paulo. A composição de capa de Libertinagem foi idealizada por ele mesmo: fragmenta a palavra em três linhas, o que foi visto por muitos como intenção de escândalo modernista. Em 1935, é nomeado Inspetor do Ensino Secundário por Gustavo Capanema, ministro de Getúlio, e, em 1938, professor de Literatura do Colégio Pedro II e membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nesse ano, o Ministério da Educação edita Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana e Guia de Ouro Preto, ambos escritos por Bandeira.

AGORA, A ACADEMIA…

Em 1940, Bandeira é convidado para concorrer à Academia Brasileira de Letras. Depois de um primeiro momento de hesitação, acaba por aceitar e, eleito, ocupa a cadeira de um poeta que conhecia pouco, Luís Guimarães Filho, cujo patrono era Júlio Ribeiro: para fazer seu discurso de posse, Manuel Bandeira reviu a obra dos dois.

De Júlio Ribeiro, lera apenas A Carne, na adolescência. “De fato, não havia em mim preconceito antiacadêmico. Sempre me pareceu que os que atacavam a Academia exageravam enormemente o que possa haver de força conservadora numa Academia. Há, lá dentro, é verdade, acadêmicos de gosto reacionário (e nem sempre são os menos inteligentes ou cultos), mas como coletividade tem a Aca-demia mostrado bastante isenção nas suas relações com os revolucionários das letras.”

Em 1945, a editora Fondo de Cultura Econômica, do México, publica Panorama de la Poesía Brasileña, e, em 1946, sai a Apresentação da Poesia Brasileira e a Antologia dos Poetas Bissextos Contem-porâneos. Em 1948, é publicado em Barcelona, por iniciativa de João Cabral de Melo Neto, o Mafuá do Malungo, coletânea de versos que Bandeira escreve a propósito de circunstâncias miúdas.

A partir de 1943, passa a lecionar Literatura Hispano-Americana na Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1949, publica Literatura Hispano-Americana e, em 1954, a autobiografia Itinerário de Pasárgada. Em 1957, viaja durante quatro meses pela Europa. Faz várias traduções, escreve crônicas para jornais e rádio e biografias de poetas românticos.

Quando a indesejada das gentes chega

Ao completar 80 anos, em 1966, sai o volume Estrela da Vida Inteira. E no dia 13 de outubro de 1968, morre Manuel Bandeira, vítima de hemorragia gástrica. Afinal, encontra a morte, companheira de tantos anos, expectativa e presença constante em sua poesia, tema de reflexão que leva à consciência dos limites humanos.

“Quando a Indesejada das Gentes chegar/(Não sei se dura ou caroável),/Talvez eu tenha medo./Talvez sorria, ou diga:/— Alô, iniludível!/O meu dia foi bom, pode a noite descer./(A noite com seus sortilégios.)/Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/A mesa posta,/Com cada coisa em seu lugar.”

Bandeira, Manuel, 1886-1968
Manuel Bandeira/seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Salete de Almeida Cara. – São Paulo: Abril Educação, 1981 – pág. 03 – 07.

 

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