Edição 66

Como mãe, como educadora, como cidadã

Mas é minha mãe

Zeneide Silva

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Vivemos em um mundo cada dia mais agitado e estressante e também desumano. Corremos tanto que acabamos perdendo maravilhosas experiências ao não ouvir o outro.

Estamos carentes de ouvidos que nos escutem. Ouvir o choro, as lamentações, os medos, as angústias e também as alegrias do outro nos faz mais humanos; com isso e por meio de nossas palavras e atitudes, podemos mostrar que tipo de pessoa nós somos.

Gosto de escutar o outro. Adoro ficar em minha casa observando e escutando meus filhos conversando, fico muitas vezes mais calada, atenta às suas opiniões, seus questionamentos e seus sonhos… Acho lindo e fico feliz. Percebo também em minhas experiências como educadora que muitas famílias perdem esse momento tão especial com seus filhos.

Existem famílias que falam muito alto, escutam sons muito altos; tudo é tão alto que perderam o encanto dos namorados ao sussurrar palavras bonitas no ouvido do outro. Aprendo muito escutando o outro e agora quero compartilhar com vocês uma experiência que aconteceu comigo.

Sempre que vou ao banco, procuro uma maneira de não ficar ansiosa ou estressada pela fila imensa, pelo medo de assalto, entre outros contratempos. Aprendi a usar uma estratégia que acho maravilhosa, de uma grandeza espiritual enriquecedora.

Escuto e converso com as pessoas na fila. Observo seus comportamentos, suas gentilezas, suas grosserias e até espertezas e aprendo muito.

Desejo relatar para vocês dois fatos que achei maravilhosos. Primeiramente, quero contextualizá-los. No Recife, a Lei Municipal nº 17.816/2012 proíbe o uso de telefones celulares dentro do banco por questões de segurança. Eles colocaram placas informando a nova lei, mas foi surpresa para nós, clientes. Sempre que um celular toca nas dependências do banco, o guarda ou outro funcionário vem informar sobre a lei e pedir que o desligue.

Em uma de minhas idas ao banco, fiquei perto de um senhor que dizia: “Se minha neguinha ligar, eu atendo. Pode até o guarda reclamar, mas não deixo de atender minha neguinha”. Ele falava de sua esposa com muito carinho e dizia que ela era muito ciumenta e que não iria acreditar que ele estava no banco há mais de uma hora e ficava dizendo sempre: “Se ela ligar, eu atendo”.

Outro dia, foi a vez de uma senhora. Ela era funcionária de serviços gerais de um colégio e estava na fila para receber seu salário. Seu celular tocou, e, como estava perto dela na fila, informei que o guarda mandaria desligar o celular caso a visse atendendo-o. Ela me olhou e disse: “Mas é minha mãe”. Ela falou de maneira tão carinhosa se referindo à sua mãe que não falei mais nada. Fiquei observando naquele momento a chegada de uma de suas amigas de trabalho, que disse: “Mulher, desliga esse telefone. É proibido!”. Ela, mais uma vez, respondeu: “Mas é minha mãe”.

A amiga continuou dizendo que ela desligasse o celular, pois o guarda iria reclamar. Ela, sorrindo, falou: “Mas é minha mãe. Será que o guarda atenderia ao telefone se fosse sua mãe?”.

Terminada a ligação, fui para meu atendimento e, durante o restante do dia, fiquei pensando e refletindo sobre o que havia acontecido. Pensei no tema da edição setembro-outubro — Os Professores Clamam por Educação. Como gosto de falar sobre família — considero-a uma instituição sagrada, mesmo vivendo em decadência e com falta de valores —, entendo que um dos clamores dos professores é a ausência de famílias comprometidas com a educação dos filhos, filhos que tenham orgulho de dizer: “Mas é minha mãe”, e maridos preocupados com suas esposas.

Para finalizar, cito aqui uma frase do educador Gabriel Chalita que diz: “Por melhor que seja uma escola, por mais preparados que estejam seus professores, ela nunca vai suprir a carência deixada por uma família ausente”.

Um grande abraço.

cubos