Edição 71

Como mãe, como educadora, como cidadã

Mas ele nem viu!

Zeneide Silva

shutterstock_42940045-_optQuando minha filha Maria Clara tinha 1 ano, fui ao hipermercado fazer a feira com ela e sua babá, Lúcia (nome fictício). Era um sábado à tarde.

Chegando no estacionamento, ao estacionar, encostei a frente do meu carro, uma D-20, na porta de um Gol, no lado do motorista.

Resolvi então deixar um recado no para-brisa do carro, explicando o que havia acontecido, pedindo desculpas e deixando meu número e um contato de um amigo meu que, na época, era gerente de uma oficina especializada em lanternagem para carros da Volkswagen, onde se poderia até trocar a porta.

Enquanto eu escrevia o bilhete, Lúcia dizia: “Minha senhora, deixe de bobagem, vamos embora, o dono não viu, ninguém viu…”. Questionei, dizendo que deveria assumir o prejuízo, ser honesta, que Maria Clara estava presente e, mesmo sendo tão pequena, viu o que aconteceu, e seria ético de minha parte assumir o que fiz.

Mas ela continuava dizendo: “Mas ele nem viu!”. Deixei o bilhete, fui às compras e continuei escutando o que a babá dizia no caminho…

No domingo pela manhã, um senhor que nunca vi pessoalmente me ligou falando sobre o que aconteceu. Pedi desculpas, e combinamos que, na segunda-feira, ele passaria na oficina. Ele agradeceu e ficou admirado por eu ter sido honesta, falando muitas coisas. Enfim, tudo combinado.

Para minha surpresa, esse mesmo senhor que estava me elogiando pela honestidade de ter assumido o incidente do sábado, quando chegou à oficina, disse que o carro estava batido nas duas portas e na traseira. Meu amigo me ligou perguntando, afinal, onde eu tinha batido. Contei o que tinha acontecido e falei que assumiria apenas o que fiz.

Quando falei para Lúcia o que aconteceu, ela foi logo dizendo: “Mas ele nem viu. Eu não disse à senhora para não deixar o bilhete?”.

Fiquei pensando nas palavras de Lúcia e entristeci com a atitude desse senhor. Acalmei meu coração em saber que, mesmo sem Maria Clara entender, fui exemplo em sua vida como mãe, como educadora e como cidadã.

Um grande abraço.

 

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