Edição 18

Professor Construir

Matemática viva

Embora não se considere o pai da Etnomatemática, o professor Ubiratan D’Ambrosio lançou sua teoria da Matemática a partir do cotidiano, do experimental, e até hoje influencia professores e matemáticos em todo o Brasil e no mundo.

A Matemática defendida por D’Ambrosio traz o sentido dinâmico, atraente e que motiva o aluno para o estudo. Em sua proposta da Etnomatemática, o professor sugere romper com a rigidez das fórmulas congeladas trabalhadas nos livros; considera enfaticamente as diferenças culturais e o cotidiano, sem deixar de dar importância à ordem e à formalização do aprendizado.

Para melhor entender essa proposta fascinante, o professor Ubiratan D’Ambrosio nos presenteou com uma entrevista esclarecedora sobre Etnomatemática.

Construir Notícias — Etnomatemática, método ou filosofia de ensino da Matemática?
Ubiratan D’Ambrosio — É muito mais que isso. É por isso que falo num vasto programa de pesquisa, que denomino Programa Etnomatemática, que é uma investigação sobre as origens e a geração de conhecimento, sua organização intelectual e social, e sua transmissão e difusão, com foco na Matemática. É, portanto, um programa de pesquisa sobre a história e a filosofia da Matemática, e tem importantes implicações pedagógicas. Para os sistemas escolares, essas implicações são as que mais interessam.
Portanto, implica uma outra filosofia de ensino de Matemática, que, para ser implementada, necessita de outros métodos, não contemplados no ensino tradicional.

CN — A dinâmica proposta pela Etnomatemática desmistifica o medo e a resistência presentes na vida escolar?
UD’A — Sem dúvida. É uma Matemática viva, permanentemente em construção, motivada por questionamentos que ocorrem no dia-a-dia, ao lidar com questões práticas, com jogos e lazer, ao se preocupar com questões maiores, como violência, agressão ambiental, emprego e salário e questões de espiritualidade. Todas essas questões estão presentes no mundo da criança, do jovem, do adulto. E todas essas questões podem ser analisadas e tratadas com a utilização das idéias matemáticas. É por isso que, em todos os tempos e em todos os povos, as idéias matemáticas, como selecionar, classificar, comparar, medir, quantificar, inferir, estão presentes. A Matemática, como a conhecemos nas nossas escolas, é a organização formal dessas idéias, como foi desenvolvida a partir das civilizações mediterrâneas, desde egípcios, babilônicos, hebreus, gregos e romanos, e que, a partir do século XVI, passaram a todas as regiões do planeta.
Ao reconhecer isso, vamos partir do começo. A Matemática não nasceu como ela se apresenta hoje. Ela nasce do esforço de lidar com questões do dia-a-dia, como as mencionadas acima. Portanto, vamos seguir, nas escolas, esse processo. Em cada instante, nos beneficiamos sabendo o que outros fizeram em situações semelhantes. Essa é a importância do ensino: mostrar como certas questões são tratadas utilizando um instrumental disponível. O instrumental, nesse caso a Matemática, perde razão de ser se não tiver o que fazer com ele. De que adianta saber tudo sobre um trombone se não conseguimos emitir um som a partir dele?

CN — Qual a posição do sistema escolar quanto à aplicação dessa proposta?
UD’A — Há muitos métodos e propostas que, sem dizer explicitamente e sem saber justificar, principalmente quando se trata de Matemática, tentam fazer isso.

CN — Qual o procedimento básico da Etnomatemática?
UD’A — O ponto de partida é observar o mundo, material e espiritual, no qual estamos inseridos. Essas observações permitem criar uma representação da realidade, na qual criamos um modelo com que estamos lidando e o que nos interessa abordar, entender, explicar. E, a partir desse modelo, tentamos resolver o que queremos. Para resolver, utilizamos todos os instrumentos de que dispomos. Muito úteis são os instrumentos matemáticos, tais como selecionar, classificar, comparar, medir, quantificar, inferir. Se não dispusermos desses instrumentos, precisaremos aprendê-los (daí a função do professor: nesse momento, ensiná-los) e, se sabemos só um pouco, aprendemos mais (daí a importância do avanço na aprendizagem: quem tem mais escolaridade domina instrumentos mais poderosos).
É importante insistir que esses instrumentos, em si, têm pouca importância na escola.

CN — Por onde começar o ensino da Etnomatemática?
UD’A — Desde criancinha. Quando damos à criança objetos coloridos, de várias formas e tamanhos, ela estará dando os primeiros passos na Etnomatemática. Ao classificar por cores, por formas, por tamanho. Pouco importa se ela sabe ou não os nomes das cores, das formas, dos tamanhos.

CN — Que estrutura uma escola deve ter para a adoção da Etnomatemática?
UD’A — Toda escola está estruturada para isso. Tudo depende da atitude do professor.

CN — Etnomatemática e tecnologia se complementam?
UD’A — São parceiros inseparáveis. Quando se escrevem números e se fazem desenhos, utiliza-se a tecnologia muito sofisticada de lápis e papel. Quando se estuda, usa-se a tecnologia da imprensa. Hoje, a tecnologia inclui calculadoras e computadores.

CN — Nos projetos pedagógicos, há espaço para uma prática da Etnomatemática?
UD’A — O espaço é criado pelos que elaboram o projeto. Não se pode falar em projeto pedagógico sem projetar. De outro modo, não é projeto, é obediência a propostas e programas impostos.

CN — Qual o grau de aceitação da Etnomatemática no sistema de ensino do Brasil?
UD’A — Crescente. No Brasil e em todo o mundo. Há uma reação conservadora que, aos poucos, vai perdendo terreno. O fracasso dos sistemas escolares, como reconhecido por todos, é o fracasso de um sistema conservador, cuja única proposta tem sido reforçar os mecanismos conservadores (mesmice no reforço da formação do professor e na cobrança dos resultados, isto é, na avaliação). Claro, reforçando a mesmice, os resultados são cada vez piores. É o que estamos vendo. O atual sistema escolar, se insistir em reforçar a mesmice, tende a se desmoralizar e chegar a um fracasso irrecuperável.

CN — Que recomendações você daria aos professores que acreditam na proposta da Etnomatemática?
UD’A — Procurem entender o objeto da sua especialidade. O que é Matemática? E o que é o cotidiano? Para a primeira pergunta, estudem um pouco de história da Matemática, estudem a história da humanidade em geral e a história de outras culturas, e tentem entender como a Matemática é parte dessa história geral. Para lidar com o cotidiano, pratiquem a modelagem de situações reais. Por exemplo, analisem o trajeto que vocês, professores, fazem de casa para a escola, quanto tempo gastam no trânsito, o que isso representa na vida de vocês. Façam um modelo do seu cotidiano. E convidem os alunos para fazerem o mesmo.

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