Edição 84

Como mãe, como educadora, como cidadã

Minha mãe, Dona Zélia, professora inesquecível

Zeneide Silva

DONA-ZELIA-PRIMEIRA-FO_fmtNesta edição, meu desejo é de prestar uma homenagem à minha mãe, grande professora, Dona Zélia, como era conhecida. Sempre teve uma grande vocação para ser professora sem nunca ter tido um diploma. Por ciúmes, seu marido, meu pai, nunca deixou que ela terminasse o curso de magistério, e sua mãe dizia: “Menina que arruma namorado não precisa mais estudar”.

Mas Dona Zélia não deixou seu sonho acabar. Casou e montou sua escolinha no quintal de sua casa, que recebeu o nome de Escola Nossa Senhora das Dores. Minha mãe ficou conhecida no bairro como uma grande alfabetizadora.

Seu desejo era tão grande que, já naquela época, há 45 anos, trabalhava com inclusão social. Lembro-me de que chegavam tanto crianças com motorista para se preparar para o curso de admissão nos colégios religiosos tradicionais como crianças de pés descalços das comunidades vizinhas. A algumas dessas crianças, ela dava uma das nossas sandálias. Dona Zélia era muito respeitada até pelos ladrões, que a chamavam de madrinha.

Tinha cadeirante, crianças hiperativas, alunos fora de faixa… todos estudavam no mesmo galpão, numa mesma mesa, com apenas dois cadernos, lápis e borracha. Como ela não tinha livros o suficiente, os que conseguia emprestava para que eles estudassem a lição. Trabalhava com todas as disciplinas ao mesmo tempo. Para os maiores, usava o quadro de giz, que dividia ao meio, utilizando cada metade para uma série diferente. Recebia todos sem restrição, os que podiam pagar e os que não podiam, que eram a maioria.

A escola funcionava em três turnos: pela manhã estudavam as crianças do Jardim da Infância — hoje Educação Infantil —, Alfabetização e 1ª série; à tarde, 2ª, 3ª e 4ª séries e a turma de preparação para o curso de admissão; e, à noite, Jovens e Adultos. Era uma maratona, mas ela sempre conseguia com muito entusiasmo.

Quando eu tinha 9 anos, ela organizou uma salinha com crianças de 4 e 5 anos e a deixou sob minha responsabilidade. Dona Zélia preparava as atividades manuscritas no caderno para serem realizadas pelas crianças aos meus cuidados. Ela me ensinou a trabalhar toda a parte de coordenação motora grossa e fina (atividades de cortar e picar papel, massa de modelar caseira, brincar na areia, música) e contação de história. Ela nos contava muitas histórias, nos ensinava a cantar e a dançar para as apresentações realizadas nas festas comemorativas para os pais. Assim, aprendi muitas e também contava histórias diariamente.

Mesmo fazendo tudo isso, Dona Zélia sempre desejou ter o diploma de magistério para poder legalizar sua escola e emitir as documentações dos alunos. Como as crianças sempre saíam preparadas, as escolas particulares ou municipais as recebiam e preparavam um documento (histórico escolar), para ser assinado pela diretora.

Untitled-2Embora a escola não fosse legalizada, ela procurava organizá-la com todas as informações necessárias a cada aluno.
Minha mãe, Dona Zélia, foi uma grande mestra, sendo sempre lembrada por todos os que estudaram na Escola Nossa Senhora das Dores. Lembro com alegria quando chegavam adultos formados em medicina, engenharia, no magistério, para agradecer e levar um presente para ela, intitulando-a de inesquecível professora. Recordo também de um aluno que ficou famoso na época, Biu do Olho Verde, por realizar assaltos e assassinatos. Ela sempre dizia que Biu não havia sido aceito e amado pela família, e eu chegava até a perceber sua tristeza ao ver os noticiários falando sobre ele. “Vou orar por ele”, lamentava.

Enfim, essa foi a missão de Dona Zélia: amar e cuidar dessas crianças. Quando ela morreu, vários ex-alunos foram ao velório; e um deles, Rogério, conhecido como Espirro, hoje proprietário de um caldinho aqui no Recife — Caldinho da Codorna do Amigo Rogério —, me falou que um dia, quando estava jogando dominó com uns amigos, também alunos dela, fez uma contagem, e um dos que lá estavam disse que ele havia errado a conta. Ele, imediatamente, respondeu: “Tás doido? Eu estudei com Dona Zélia!”.

Obrigada, mãe, por deixar em nós, Eliane (Nane), Rejane (Jane) e Zeneide (Tita), esse amor pela Educação.

Amo você demais.
Sua bênção.

cubos