Edição 72

É dia...

Minha professora inesquecível

Robson A. Santos

P52-Nenochka_24301965_opt— Vovô, olha só que lindo o cartão que eu fiz para minha professora! Amanhã é Dia dos Professores, e quero levar de presente para ela.

O avô parou de ler o jornal, olhando para a neta, que trazia nas mãos um cartão feito de guache colorido com o nome “Ana” escrito com glitter dourado.

— Ficou lindo, ela vai adorar!

— Sabe, vovô, ela é a melhor professora do mundo! Quando entra na sala e começa o dia cantando, dá vontade de nem sair de perto dela.

O avô se emocionou com as palavras da neta, que estava indo para o primeiro ano. Sua cabeça voltou ao tempo, na época em que ele estudava, no antigo Curso Primário, no quarto ano. Como se adivinhasse o pensamento do avô…

— Vovô, o senhor teve alguma professora que foi inesquecível em sua vida?

O avô deu um sorriso, colocou a neta no colo e começou a contar:

— Quando eu era criança, na terceira série, tive uma professora que se tornou inesquecível em minha vida. Ela se chamava Arlete, Dona Arlete, ou Tia Arlete, como costumávamos chamá-la.

— E como ela era?

— Ela era baixinha, com o cabelo encaracolado e loiro. Usava maquiagem e vinha sempre muito bonita dar aulas. Era brava e exigente. Na primeira semana de aula, eu chorava todo dia, pois não queria ter aulas com ela. Dizia que ela era muito brava e que eu queria outra professora, mas minha mãe não quis saber e me deixou ali, naquela sala mesmo. Eu tinha medo dela.

— E por isso ela é inesquecível?

— Calma que eu chego lá! Conforme as aulas iam acontecendo, algumas vezes, na hora de ir embora, Tia Arlete pegava seu ônibus perto de minha casa e acompanhava minha mãe e eu. Eu ia bem quietinho! Um dia ela falou para minha mãe que, se quisesse, não precisaria me buscar, pois ela me deixaria em casa todos os dias. Rezei para minha mãe não concordar, mas não tive sorte, e minha mãe combinou com ela. E assim, todos os dias, a Dona Arlete me levava até o portão de casa, me dava um beijo e ia pegar seu ônibus.

— E o senhor, vovô? Ficava quietinho?

— No começo eu ficava, mas, conforme o tempo foi passando, eu comecei a conversar com ela, e não é que descobri que eu gostava demais daquela professora? Em sala de aula, ela me ajudava com a lição, dava bronca quando eu conversava demais, mas aprendi muito na terceira série.

— E o que o senhor gostava mais de aprender?

— A Matemática! Adorava as aulas de Matemática. Com Tia Arlete, aprendi tabuada e nunca mais tive dificuldades nas minhas lições. Ah, tinham também umas aulas em que ela colocava um cartaz com um desenho ou uma foto, e nós inventávamos várias histórias. Eu adorava escrever, Dona Arlete sempre me incentivou para isso.

— É por isso que o senhor virou escritor, vovô?

— Pode até ser! Eu acredito que ela foi muito importante para que eu gostasse de escrever tanto como gosto até hoje. Mas, para escrever bem, ela sempre me falava que eu tinha que ler bastante e me indicava bons livros. Livros de histórias, aventuras, poesias e até gibis. Eu passava horas e horas lendo. Tinha uma poesia do Manuel Bandeira que contava a história de um pardalzinho com a asa quebrada. O menino cuidou dele, deu água e comida, mas mesmo assim ele morreu, porque estava preso. E no final, o que eu achava muito legal era que ele tinha voado para o céu dos passarinhos.

— Que lindo, vovô, vou até desenhar um pardal no cartão da minha professora. Mas, vovô, e a Dona Arlete ainda dá aulas? O avô riu da ingenuidade da neta, que não tinha noção de contas ou do passar dos anos. Uma lágrima brilhou em seus olhos, e, com o coração apertado de saudade, ele respondeu:

— Ai, minha neta querida, eu acho que a minha professora inesquecível, a Dona Arlete, ainda dá aulas, sim, mas lá no céu dos passarinhos.

Robson A. Santos é mestre em Educação, Arte e História da Cultura, educador brincante, pedagogo, folclorista, escritor e contador de histórias.
Endereço eletrônico: professorrobson@uol.com.br.

 

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