Edição 70

A fala do mestre...

Multiculturalismo…

Nildo Lage

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Cultura… “É o conjunto de atividades e modos de agir, costumes e instruções de um povo. É o meio pelo qual o homem se adapta às condições de existência transformando a realidade [...]” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 1ª ed.). De tão íntima, resume-se numa essência característica, genuinamente humana, a ponto de se tornar o bem mais precioso de um povo, por ser elemento de um universo que retém raridades, como estimas familiares e valores, principalmente morais, éticas, religiosas. Tesouros que se acoplam, tornam o ponto de alusão do eu… Expande-se e transforma-se no caminho de nós, um mecanismo pelo qual se promove a transformação de condutas igualitárias, por disponibilizar ingredientes do conjunto de denodos que desenvolvem a identidade de um indivíduo.

A palavra soa impregnada de estilhas que traduzem sinais, reações e anseios — muitas vezes refreados. Por isso, não pode passar despercebida, sobretudo no espaço escolar pois Cultura é a identidade, a impressão digital de um povo. De tão subjetiva, torna-se segunda pele, que exala um imo refinado, impossível de ser reproduzido… Apenas absorvido, sentido… Vivido.

Daí a importância de preservá-la para o resgate do evanescido através dos séculos. Pois, nesse universo — sociedade —, vida e valores se conectam para edificar seus elos — indivíduos —, e os fluxos da existência fazem com que esse teor se permute, gere novas fragrâncias que embriagam uns e embrutecem outros. Nesse cruzamento de vias paralelas, a cultura é empobrecida, ignorada, atropelada e esmagada pelas patas da ausência de conhecimento, cumprindo-se a teoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que já dizia desde o século XIX: “Quanto mais a cultura de um homem se eleva, tanto mais domínios se subtraem ao gracejo, à zombaria…”.

A falência da modernidade

Encarar o fato de que a modernidade está em franco declínio inquieta os que veem, na tecnologia, a saída de emergência para problemas da humanidade, pois o discurso pós-moderno que seduz e induz, na maioria das vezes, não convence, favorecendo o alastramento irracional da modernidade, que atropela valores étnicos, culturais, familiares… Sociais… Riquezas que, dia após dia, são dilaceradas pelas falácias que ressoam como ecos duradouros, fazendo com que a geração da “sociedade do espetáculo” se torne vítima do próprio feito — a globalização —, provocando a tão temida “degeneração igualitária”, já que a tecnologia, que interligou o planeta no próprio planeta, está perdendo o domínio, a direção — por não dominar conteúdos —, pois seus radares varrem um universo de páginas e plataformas sem forma e comando definidos.

A autonomia da Internet expande o poder de compartilhamento de informações, aproxima, reaproxima, encontra… Reencontra, reduz as distâncias entre os continentes, funde culturas, transfigura tradições, alarga os laços comerciais… Mas nessa rede — onde tudo é permitido —, navegam maravilhas, agentes, spams… Todavia, tanto poder não foi o bastante para abolir a histórica herança dos colonizadores, que deixaram um vácuo impreenchível, pois o vernaculismo racial-espiritual se transformou numa barreira que gera tamanho conflito ao ponto de racional e emocional se conflitarem com fé e costumes; prático e teórico se bifurcam e se tornam caminhos tão distintos que um desconhece a essência do outro.

E o capitalismo — tardio — não é sequela tão somente da deficiência de prevenção, mas da inconsequência humana que se transformou no pesadelo de potências antes consideradas intocáveis, inatingíveis, mas que se tornaram vítimas da modernidade por permitir que as vaidades de um mundo controlado por dispositivos eletrônicos aspirassem à essência humana, desvirtuando, nesse clique, o senso de justiça, e, quando a justiça se ausenta, prevalece a lei do dominador.

Mas, como o alvo é impetrar os propósitos do planeta, o chamado politicamente correto, muitos deixam o humano de lado, e os resultados são drásticos: uma sociedade cuja informação é instantânea, mas vive o fenômeno da complexificação, no qual a opacidade manipula e descentraliza o foco do humano para a pessoa humana, permitindo que reine o individualismo.

Dessa forma, o multiculturalismo se converte num instrumento que dissimula o racismo, propiciando o surgimento de uma sociedade impossibilitada de promover a própria emancipação, pois incita a quebra de braço entre a pós-modernidade e o neoconstitucionalismo.

E, assim, o tema que surgiu no meado da década de 1970 e ganhou forma em meio ao emaranhado tecido pela rede mundial de computadores navega numa zona desconhecida, pois cada janela que se abre nem sempre é consequência de um clique, mas de vírus inseridos intencionalmente por meio de comandos inconsequentes, onde muitos são minimizados e até deletados sem o mínimo de respeito, refletindo pontos de vista com valores invertidos, pois cada um se torna uma incógnita.

Essa “incógnita”, mesmo sendo um termo “deletado” do vocabulário de uma modernidade compulsiva — cujo hoje é ultrapassado —, transforma-se numa predadora… Pois o amanhã se aproxima numa velocidade supersônica, impelido pela pretensão voraz de devorar o hoje. Afinal, a tecnologia se aliou à ciência para responder cientificamente perguntas complexas e com autonomia para dar um “Cala a boca!” nos opostos.

Todavia, o preconceito continua exercitado sutilmente em gestos imperceptíveis. Compelindo o radar das vítimas a descarregar no íntimo violentas descargas que provocam reações que ferem, agridem, e os que acreditam resolver cientificamente o problema ramificam suas buscas com tamanha profundidade que encontram fórmulas ainda em formação, termos a perder de vista: pós-modernidade, sociedade da informação, hipermodernidade, sociedade de risco, modernidade radicalizada, supermodernidade, neomodernidade, sociedade pós-industrial, modernidade tardia, modernidade reflexiva… Até chegarem à sapiente conclusão de que vivemos a era da “modernidade desorganizada” que acendeu o motim mundial: A falência da própria modernidade, impelindo o planeta a uma transitividade, um vírus letal, pois a “transitividade cultural” é de uma sagacidade que chega a provocar inquietações, colocando à deriva o futuro da humanidade, e, no limiar da era futurista, buscar o abstrato está sendo uma alternativa para muitos se esquivarem do concreto.

Dessa forma, a modernidade vislumbra uma sociedade deficiente de denodos, como processo inacabado, pois geração após geração se rui, deixando apenas questionamentos, como os do escritor Jair Ferreira dos Santos, no livro O Que É Pós-Moderno?, Ed. Brasiliense, 1987: “[...] é decadência fatal ou renascimento hesitante, agonia ou êxtase. Ambiente? Estilo? Modismo? Charme? Para dor dos corações dogmáticos, o pós-modernismo por enquanto flutua no indecidível”.

Essas turbulências, não apenas provocam a desaceleração da qualidade do nosso ensino, como também é uma das origens da “falência da modernidade”, pois valorizar a cultura não é simplesmente promover manifestações que ressaltem trabalhos artísticos, intelectuais… Valorizar a cultura é respeitar a liberdade de pensamento, o grito e o silêncio do outro. São esses manifestos que expressam sentimentos, e, quando se respeita sentimentos, se acata o eu e facilita o relacionamento com o nós. Afinal, quando nós nos respeitamos, praticamos a maior de todas as manifestações, que é a revelação humana que expõe sentimentos, ideias… A identidade.

Mito desfeito: da igualdade

Abrir leques de questionamentos determina habilidades, competências e equilíbrio para ostentar os quatro pilares da Educação — aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser —, pois a aplicação do multiculturalismo, além de valorizar o humano, fortalece o eu, que se torna mais tolerante — não tolerância para se submeter — com o outro, e a quebra da resistência permite a aproximação, fazendo com que o pensamento/ação se torne um processo de desmistificação para que vozes asfixiadas pelas metanarrativas da modernidade voltem a ecoar como manifestações pessoais. Manifestações que exigem respeito ao ponto de vista, às interpretações e à liberdade para praticar os próprios costumes.

Para que a escola resista a esses tremores, cada vez que o assunto é posto em discussão, é preciso capacitar seus servidores para que se adaptem à realidade da era do “clico e compacto o mundo na minha tela”, pois a chamada “era digital” — que aproximou os povos — não permite reverter o curso dos acontecimentos, nem ficar em standby à espera do momento em que Educação e diversidade cultural deem as mãos, já que os avanços ainda transitam no plano teórico. Na prática, especialistas preferem adiar atos pedagógicos devido à desordem da comunidade escolar.

O inquietante é como dissolver o “mito da igualdade” sem ultrapassar as fronteiras de um território que proporciona o equilíbrio do homem: a do amor próprio. Sem essa mola que impulsiona o gostar de si mesmo, dificilmente olhará para o outro, tampouco encontrará nele qualidades, pois as diversidades continuarão sendo barreiras, uma vez que o sentimento de igualdade é cada vez mais escasso na humanidade, e os homens se posicionaram numa escala em que os extremos de um passaram a ser o ponto de partida do outro.

Trabalhar as relações interpessoais é imprescindível no campo profissional, social e, principalmente, educacional, pois a globalização vai além da disseminação, tornou-se um fenômeno extraordinário, solicitando a “mundialização da cultura”, e essa internacionalização é cada vez mais consistente, pois, à medida que a Internet chega aos pontos mais remotos do planeta, a cultura — sempre em movimento — precipita seus passos de tal maneira que gera tropeços e, com o inter-relacionamento, estreita amizade, propicia réplicas, por não se restringir exclusivamente a produtos e capitais.

Nesse vai e vem, tradições, hábitos e até olhares transformam comportamentos por meio do envolvimento, ressignificando valores e reminiscências, ocasionando a hibridização cultural.

É preciso admitir que essas combinações — de opostos — não são simbólicas, são uma realidade essencialmente da América Latina, colonizada por povos de todos os continentes. Na era da modernidade, relação e tradição não são poupadas, pois o modernismo cultural asfixia vozes, destrói valores, sepulta tradições, pois o novo é um predador que exige um espaço cada vez maior. Se a escola ambicionar ultrapassar as fronteiras da desigualdade, para, assim, educar com identidade, terá que abrir mão de paradigmas, reformular métodos e encarar os desafios de implantar o multiculturalismo no currículo como ferramenta indispensável à formação humana do nosso tempo, pois a globalização lubrifica os eixos do planeta a cada movimento rotatório, promovendo a aproximação de povos, a fusão de culturas, e isso estabelece trabalhar uma realidade sem ignorar a identidade, muito menos minimizar uma realidade que chegou ao limite de intolerância.

Reger valores que efervescem por corredores, pátios e salas e transcendem para as ruas e redes de relacionamento institui maturidade, direcionamento, para que a escola não se perca entre tempo e espaço. Do contrário, continuará perpetrando nas diferenças, mais um problema jogado debaixo do tapete, permitindo as falácias de que gênero, classe social, orientação sexual, raça, origens, pertencimentos e identidade não são da responsabilidade da escola, ecoando o discurso de igualdade em meio à deficiência de reflexão educacional.

Porque encarar a cultura do outro muitas vezes é desviar do foco; respeitá-la, pode até ser, para se cumprir a lei… Afinal, cultura é um negócio que — mesmo em alta — rende pouco no mercado educacional, por atrair escassos adeptos —, alguns chegam a achá-la diferente, exótica… Mas, no fundo, a minha é mais interessante, por se originar de uma linhagem que se tornou referência para o mundo contemporâneo, exatamente por ser nivelada pela visão branca europeia.

É absurdo. Mas, em pleno século da ciência, o homem não consegue compor a fórmula do remédio que extermine o histórico vírus do preconceito nem conter gestos e atitudes que excluem, assentando a Educação num paradoxo em que o progresso impulsivo da tecnologia aproxima nações, mas abre abismos, caminhos que apartam, pois as diferenças não mudam de sentido no seio de uma sociedade que prega igualdade e semeia indiferenças, cumprindo os alertas do mestre Paulo Freire, que já dizia desde 1987:

A desumanização, que não se verifica apenas nos que têm sua humanidade roubada, mas também, ainda que de forma diferente, nos que a roubam, é distorção da vocação do ser mais [...] Na verdade, se admitíssemos que a desumanização é vocação histórica dos homens, nada mais teríamos que fazer, a não ser adotar uma atitude cínica ou de total desespero. A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como “seres para si”, não teria significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história, não é, porém, destino dado, mas resultado de uma “ordem” injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser menos.

Menos, oferecido principalmente pelo governo, intensificando as preocupações do mestre, quando concluiu:

É por isso que não há verdadeiro bilinguismo, muito menos multilinguismo, fora da multiculturalidade e não há esta com o fenômeno espontâneo, mas criado, produzido politicamente, trabalhado, às duras penas, na história… É a criação histórica que implica decisão, vontade política, mobilização, organização de cada grupo cultural com vistas a fins comuns. Que demanda, portanto, certa prática educativa coerente com esses objetivos. Que demanda uma nova ética fundada no respeito às diferenças (FREIRE, 1987).

O papel da Educação

Abordá-lo em sala de aula, para disseminar uma educação multicultural, é um desafio. Exige audácia para embarcar numa nave sem comandante e rota definida, pois, nesse espaço, a nossa rica diversidade cultural se manifesta, decretando do sistema, preparo, para que essa diversidade — desagregada dos currículos das organizações educacionais — não continue cobaia de programas que, em vez de incluir, lançam e reportam desigualdades — principalmente étnico-sociais —, prevalecendo o “Mito da Democracia Racial”.

O multiculturalismo é tão importante para o exercício da cidadania que sua prática no espaço escolar é indispensável. Discussões calorosas silenciam antes de chegar à sala de aula, e as diferenças se transformam em barreiras separatistas num ambiente que, obrigatoriamente, deveria reduzir distâncias e dar um basta na disputa entre multiculturalismo e educação multicultural para, assim, suprir as perspectivas dos “filhos do hibridismo cultural”.

A escola deve, com extrema urgência, ressurgir da debilidade, olhar para o lado — sem a viseira política — e reconhecer que alunos são mais do que clientes. São indivíduos que buscam esse espaço para se tornar seres relativos. E isso é uma chamada ao diálogo e à reflexão para focar a cultura, na ótica de quem necessita e busca adicionar valores a conteúdos, para fortalecer as bases de cidadãos.

Centrar decisões, determinar conteúdos, é uma forma brutal de exclusão. Essas atitudes adotam teores que não auxiliam no crescimento humano. A cultura tem um papel característico, tão singular, que, mesmo a Internet provocando a revolução cultural, a diversidade transita por sala e corredores sem ser notada, pois, no ambiente que deveria formar humanos, não destaca o que o humano tem de mais importante: a sua origem. E, como raízes são arrebatadas inescrupulosamente, diferenças, principalmente culturais, se agregam às relações de poder.

Superar o etnocentrismo exige foco e inserção de ferramentas como o uso das artes para ampliar o capital cultural a fim de que o tema seja valorizado e reconhecido no espaço escolar. Afinal, se o multiculturalismo for trabalhado de forma pedagogicamente correta, a prática facilitará o fortalecimento da identidade, e a multiculturalidade despontará como estratégia para contornar problemas e transformar comportamentos.

Nessa trajetória na busca de melhorias, o caminho mais breve é o da confabulação, que auxilia na atenuação dos conflitos. Confabulação que necessita ser viabilizada de forma racional, para que a expressão não eleve obstáculos, mas estimule descobertas. Descobertas que proporcionem a compreensão para atingir as metas da democracia: uma aprendizagem autônoma, independente e o mais importante, o desenvolvimento de habilidades que fortaleçam o respeito pelo olhar e pelo sentimento do outro, como acredita o professor catedrático de Sociologia da Universidade de Coimbra Boaventura de Souza Santos: “As pessoas têm direito a ser iguais sempre que a diferença as tornar inferiores; contudo, têm também direito a ser diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades”.

Lapsos e entraves…

A sociedade deve despertar para “o grito”. Gritar por uma educação de qualidade, exigindo que o governo — que até então não manifestou os intuitos de oferecer uma educação inclusiva — se curve para remover as pedras lançadas no caminho da educação desde os jesuítas.

E, assim, a cada ato inconsequente, labirintos são edificados para que as vítimas das injustiças evacuem num planeta de unificações de moedas e pactos comerciais, mas não abrem espaço para que cultura e identidade deixem de ser entraves para muitos. A polietnia impera, impedindo que muitos ostentem suas culturas originais, pois a lei que rege é a do individualismo, isolando grupos etnoculturais.

Em alguns “encontros” — em datas específicas —, a escola se manifesta, expressa significados e até mesmo propósitos de uma educação à base de “cidadania diferenciada”, “políticas de reconhecimento”, “cidadania multicultural”, “integração” e, em nome de um “pluralismo multiétnico”, não se enfastia de bombardear a vilã: a colonização europeia.

Já o sistema permanece irredutível: não permite a abertura dos portões da escola para o multiculturalismo, muito menos desperta para a consciência de que é preciso capacitar o educador, oferecer suporte para que desenvolva competências e possa cadastrar no seu GPS o multiculturalismo como rota no itinerário em sala de aula.

Sem projetos que promovam o resgate dos valores da Educação, princípios e tradições são esmagados, esgotando cada vez mais os teores do currículo, e, assim, vida e viver são caminhos que não se convergem, imperando o egocentrismo. Dessa forma, funções se invertem e, em vez de ensinar para transformar vidas, destroem valores e afugentam sonhos.

E o professor? Até onde ambiciona ser diferente, para trabalhar as diferenças sem tingir a identidade?

Nossa sociedade evoluiu, deu saltos gigantescos na última década: a economia embarcou numa nave em constante ascensão, fazendo com que a classe C dominasse, intensificando a disputa nas universidades para atender ao exigente mercado de trabalho; a mulher assumiu o comando do País; o movimento homossexual superou o preconceito, rompeu a resistência machista e a união estável foi legalizada; os afrodescendentes lutaram, perderam, persistiram… Chegaram lá: a cultura afro ganhou espaço, as Comunidades Quilombolas foram reconhecidas, os pontos de cultura demarcados… As escolas reestruturadas… E o professor? Este se maquiou para a festa, ajustou o figurino, mas recebeu tão somente a missão de suportar os estilhaços: violência familiar, abandono social, preconceito… E o pior, sem trincheira de defesa.

Entre naufrágios e desvios de rota, “currículo e etnia” trafegam em direções opostas devido à falta de espaço no canal. Pelo simples fato de as dificuldades impedirem o relacionamento entre “currículo e diversidade cultural”. Sem saída, prevalecem as ideologias históricas como icebergs entre “multiculturalismo e formação docente” abrolhando perguntas que ecoam e silenciam sem respostas: quando multiculturalismo e propostas curriculares oficiais entrarão em vigor?

O desafio foi lançado, e a Educação espera ansiosa pela ampliação de docentes “diferentes” no seu quadro.

Esses caminhos estão abertos. Tudo que deve ser feito é trilhá-los, pois educador “forte e dessemelhante” se converte, no espaço escolar, num ser multicultural que transita entre passado e futuro, para trabalhar o presente sem arranhar valores e, como todo ser multi, domina competências para falar a língua da diversidade, compreende as culturas, encara as diferenças como identidade, por dominar habilidades que entreveem e compreendem a realidade nas diferentes óticas, para transformar excluídos em sujeitos capazes de superar conflitos e aptos a construir uma convivência pacífica com o outro.

Mas quando seremos realmente livres do preconceito? Quando poderemos ocupar espaços, sem que seja necessário usufruir da lei, simplesmente por sermos DIFERENTES? Um dia para relembrar as lutas é o anestésico, o corretivo para apagar mágoas e cicatrizar feridas?

A vida não tem tom, nem cor… Muito menos uma nota liquidada para ser lançada no arquivo morto de uma sociedade que discrimina, martiriza, mas não rompe os tabus… A vida é um sopro divino e, como toda obra do Criador, não pode viver de leis e inibições, como declara a sábia Martha Graham: “Existe uma vitalidade, uma força de vida, uma energia, um despertar que é traduzido em ação através de você, e, porque só existe um de você em todos os tempos, essa expressão é única”. Tão única que exige tratamento singular como cidadão e ser humano que somos.

Refrear sentimentos que içam obstáculos e distanciam os homens determina trabalhar a mentalidade do ser em formação — a criança —, para que as novas gerações não apenas suportem as diferenças, mas convivam com as diferenças sem excluir ou ser excluída. O momento é um convite à reflexão. Reflexão para avaliar metodologias, reformular a forma de ensinar, mostrar para nossas crianças que a tolerância é um antídoto para amenizar os conflitos da convivência.

Momento de despertar governo, sistema, educadores, gestores e especialistas à ciência de que consciência não se adquire com feriado, manifestos… Nem se estabelece com paralisações… Muito menos se pratica com aprovações de leis, punições, pagamento de multas… Fiança… Consciência se faz com movimentos… Mas movimentos que exercitem mentes, despertem ideias de igualdade, toquem corações para atraírem o sentimento de respeito pelo outro, redirecionem olhares… Para que possam vislumbrar o semelhante como cidadão que sonha, luta e ambiciona a felicidade pelos seus méritos, para, assim, transformar condutas.

Somente então, os homens abrirão os olhos para a realidade de que o mundo que ambicionamos para as gerações futuras dependerá de atos que incitem à igualdade, atitudes que excluam o preconceito… Iniciativas que sirvam de exemplo… E onde a semente da boa convivência será plantada agora.

Mas consciência racial não é uma questão de “Consciência”… Pois, consciência, todos temos. O que nos falta é sabedoria para adotarmos atitudes coerentes… Assumirmos responsabilidade para respeitarmos a identidade, a cultura, a tradição… A crença… O eu… De negros, brancos, amarelos… Índios, mulatos, caboclos… Do BRASILEIRO… De todos os povos do planeta.

E que as quotas sejam conquistadas pela competência dos que lutam para alcançar a felicidade e não um espaço pré-fixado por razão da raça, da cor… Pois somos uma nação formada pela composição de cores, que nos tingiu nos tons das etnias que delinearam o nosso perfil nas linhas das culturas… Culturas que se tornaram cantos e ritmos; sabores e sons; poesias e gingas que fazem do Brasil um país multi(cor), multi(ritmo), multi(sabor)… multi(cultural)… multi(étnico)… multiculturalíssimo… Afinal, consciência com uma pitada de sabedoria faz absoluta diferença.

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